A chamada COVID Longa também afeta as crianças. Eis o que sabemos até agora.

Muitas crianças também podem apresentar sintomas persistentes após contraírem COVID-19. Ainda não há respostas científicas, mas os pais estão a unir-se para encontrar tratamentos e alertar outras pessoas sobre os riscos.

Por Meryl Davids Landau
Publicado 5/07/2021, 11:56
Crianças Covid Longa

Um menino faz um teste gratuito COVID-19 numa clínica móvel do St. John’s Well Child & Family Center, instalada no exterior da Igreja Walker Temple AME, no Sul de Los Angeles, em julho de 2020.

Fotografia de Mario Tama, Getty Images

Aos 11 anos de idade, num mundo pré-COVID-19, Wednesday Lynch gostava de fazer parte da competição de claques. Ela era boa a dar cambalhotas e a fazer rodas acrobáticas sem o apoio das mãos. Wednesday também adorava sair com os amigos e andar de bicicleta pela vizinhança em Dallas, na Carolina do Norte.

Tudo isso mudou em setembro do ano passado, quando Wednesday foi exposta à COVID-19 enquanto frequentava uma escola virtual com outros alunos socialmente distantes no seu ginásio. “A colega na sala não sabia que estava infetada”, recorda a mãe, Melissa. Wednesday testou positivo pouco tempo depois.

Muitos dos sintomas eram clássicos da COVID-19: exaustão, baixos níveis de oxigénio e perda de olfato. Melissa cuidou da filha em casa e depois de algumas semanas o médico disse que ela podia retomar as suas atividades normais.

Porém, 10 meses depois, Wednesday ainda não conseguia retomar a sua vida. A cada poucas semanas, sentia o que a mãe chama de vaga de doença – “três dias por semana ela está tão cansada que mal se consegue sentar, o coração dispara, a cabeça lateja, por vezes tem febre e, na vaga mais recente, teve uma convulsão”. Melissa visitou vários médicos com a filha, alguns dos quais não ajudaram muito; até que um médico pensou que o vírus podia ter danificado o coração de Wednesday, um cardiologista que insistiu que não havia nada de errado. Wednesday está agora a ser avaliada por uma Clínica de Recuperação COVID da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, embora os tratamentos sejam escassos. “É frustrante que não exista nada realmente disponível. Como um dos médicos me disse, estamos todos à deriva”, diz Melissa.

Os médicos estão perplexos com a síndrome pós-COVID-19 nos adultos, e está a tornar-se cada vez mais claro que quando se trata de crianças as interrogações são ainda maiores. Esta condição, mais conhecida por COVID Longa, refere-se a uma série de sintomas que perduram após um surto da doença. Os pacientes queixam-se regularmente de uma série de problemas, geralmente fadiga, dificuldades respiratórias, palpitações cardíacas, dores de cabeça, dores musculares e articulares, febre, tonturas, fadiga, confusão mental e muito mais.

Tal como acontece com os adultos, esta síndrome pode atingir crianças após um caso inicial ligeiro ou até mesmo assintomático de COVID-19, bem como em casos de doença mais grave. É diferente da Síndrome Inflamatória Multissistémica em Crianças, ou MIS-C, a rara e grave inflamação sistémica associada à COVID que atingiu cerca de 4.000 crianças e provocou 36 mortes nos EUA. Apesar de esta síndrome também poder surgir mais tarde, a maioria dos especialistas considera-a uma condição separada.

Quantas crianças têm COVID Longa?

Ninguém sabe exatamente quantas crianças estão na situação de Wednesday. Mas vários estudos sugerem que pode ser um número significativo.

Em Roma, os especialistas acompanharam 129 crianças (a idade média era de 11 anos) que tinham sido diagnosticadas com COVID-19, mais de metade apresentou pelo menos uma doença persistente após a suposta recuperação. Entre estes casos havia 14 crianças, ou mais de 10% do total, que passados quatro meses ainda se sentiam abatidas por três ou mais sintomas incómodos.

Investigadores australianos acompanharam 171 crianças ainda mais jovens com COVID (com uma idade média de 3 anos) e descobriram que, passados dois meses, 8% ainda relatavam manifestações pós-COVID. Neste estudo, porém, passados seis meses, todas as crianças recuperaram.

No início de junho, investigadores holandeses fizeram um estudo com pediatras no seu país, que disseram que 89 jovens aos seus cuidados tinham sido afetados. O mais preocupante, diz a coautora deste estudo, Caroline Brackel, pneumologista pediátrica dos Centros Médicos da Universidade de Amsterdão, foi verificar que em mais de um terço destas crianças os sintomas eram graves o suficiente para provocar “restrições severas na sua vida quotidiana, sobretudo devido ao cansaço excessivo, problemas de concentração e dificuldades respiratórias”.

Reconhecendo este problema crescente, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido acabou de anunciar que vai gastar o equivalente a 116 milhões de euros para criar centros de tratamento em todo o país e educar os pediatras sobre os cuidados prolongados derivados da COVID.

Até agora, nenhum estudo documentou a taxa de crianças afetadas nos EUA, algo que Alicia Johnston, médica de doenças pediátricas infecciosas no Hospital Infantil de Boston, atribui ao foco precoce nos adultos mais velhos, que tinham mais probabilidades de ficar hospitalizados ou morrer. “Nós descartámos isto porque a COVID não afetava as crianças seriamente, mas agora percebemos que podem ficar com estes sintomas persistentes”, diz Alicia.

Com mais de 4 milhões de crianças e adolescentes nos EUA a testarem positivo para  a COVID – 14% do total de casos – fica evidente que este pode ser um enorme problema para as crianças, famílias, escolas e para a sociedade em geral. (Nos EUA, o número de casos em crianças, assim como em adultos, caiu acentuadamente nas últimas semanas, mas na semana passada registaram-se 14.500 testes positivos em crianças.)

Pais unem esforços

Na ausência de investigações aprofundadas ou respostas satisfatórias, os pais estão a unir esforços para partilhar as suas próprias experiências.

Sammie McFarland, uma mãe que vive em Dorset, Inglaterra, ficou exasperada quando finalmente conseguiu uma consulta para a sua filha de 15 anos, embora as suas queixas tivessem sido ignoradas no consultório. Após uma batalha contra a COVID-19, Kitty passou de uma adolescente ativa e enérgica para uma que mal se conseguia sentar ou comer. “Uma enfermeira disse-lhe que era ansiedade e que ela ficaria melhor quando o confinamento terminasse”, recorda Sammie McFarland.

Apesar de Sammie também estar a sofrer de sintomas semelhantes e mal se conseguir levantar do sofá, sentiu que precisava de fazer algo. Foi assim que, há cerca de oito meses, criou um grupo no Facebook chamado Long Covid Kids, para os pais se encontrarem; grupo que entretanto já tem mais de 3.000 membros. No mês passado, o grupo deu origem à vertente norte-americana, Long Covid Kids USA, liderada por Melissa Lynch.

Os pais sentem-se rejeitados por muitos na comunidade médica e chegam a ser acusados de estar a fabricar a doença dos filhos, ou de serem pais excessivamente agressivos, diz Sammie. “Se não nos tivéssemos uns aos outros, não tínhamos nada.” (Kitty melhorou nos últimos meses, mas ainda não regressou à sua vida normal.)

O grupo criou uma sondagem anónima online para chamar a atenção para o problema. Centenas de pais responderam, com a maioria a descrever crianças que, meses após a infeção, continuavam a apresentar quatro ou mais sintomas, de acordo com os resultados que foram analisados por cientistas em Itália e no Reino Unido e publicados num servidor de pré-impressão em março. Em cerca de metade dos casos, os problemas desapareciam periodicamente antes de regressarem novamente. Apenas 10% das 510 crianças tinham regressao à sua vida normal.

“Os pais estão assustados e frustrados”, diz Alicia Johnston. “Eles querem fazer tudo o que for possível para mitigar a dor dos filhos.”

Parte do problema, tanto para crianças como para adultos, é que esta síndrome geralmente é invisível para os médicos. “A maioria dos nossos testes apresenta resultados normais”, diz Marcos Mestre, diretor médico do Hospital Infantil Nicklaus em Miami. Por exemplo, exaustão, confusão mental, tonturas e muitos dos outros sintomas comuns não aparecem nos exames ao sangue ou tomografias, uma das razões pelas quais alguns médicos acreditam que os pais estão a exagerar.

Nas crianças mais novas, compreender o que está a acontecer é particularmente complicado, diz Carlos Oliveira, pediatra de doenças infecciosas que faz parte do Programa de Cuidados Abrangentes Pós-COVID administrado pela Escola de Medicina de Yale e pelo Hospital Pediátrico de Yale New Haven. “Os adolescentes conseguem verbalizar que têm dores de cabeça ou dificuldades em respirar, mas as crianças mais novas geralmente não”, diz Carlos. A própria fadiga pode ser difícil de detetar, pois muitas vezes faz com que a criança fique hiperativa em vez de sonolenta, como qualquer pai ou mãe que tentou adormecer um filho exausto já observou.

Os especialistas ainda não sabem porque é que os sintomas pós-infeção podem acontecer em qualquer idade. As teorias incluem uma inflamação crónica desencadeada por proteínas virais inativadas, ou talvez por uma quantidade persistente de baixos níveis de vírus ativo, ou pelo próprio trauma que o corpo sente devido ao stress físico de ter COVID-19, sobretudo nos casos mais graves.

Para tentar compreender melhor as causas, os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA anunciaram em março o lançamento de um novo esforço de investigação, designado CARING for Children with COVID, para perceber melhor como é que a COVID-19 afeta especificamente os jovens. Embora grande parte desta investigação tenha como objetivo descobrir as causas e os tratamentos para a MIS-C, os especialistas em pediatria esperam que também revele novas informações sobre a COVID Longa.

Opções atuais de tratamento

Com tantas incógnitas, os médicos procuram ajuda noutras infeções pós-virais, observando que as crianças costumam enfrentar dificuldades durante meses após superarem doenças como a mononucleose ou a doença de Lyme.

Basicamente, isto significa um foco nos sintomas em vez de tentar chegar à raiz do problema. “Não há cura. Contudo, quanto mais depressa conseguirmos reduzir o fardo dos sintomas, melhor será para as crianças a longo prazo. Não queremos que o cansaço, por exemplo, faça com que percam um ano letivo”, afirma Carlos Oliveira.

“Eu gostava que houvesse um comprimido que mudasse rapidamente as coisas, mas isso geralmente requer vários interessados com acesso a muitos cuidados de suporte”, admite Alicia. “Se uma criança estiver a sentir dores no corpo, por exemplo, os médicos do Hospital Infantil de Boston podem prescrever medicamentos, mas também adicionar feedback cognitivo-comportamental, ou meditação de atenção plena para mitigar uma dor mais forte.”

Em alguns hospitais pediátricos e centros médicos de maiores dimensões estão a começar a surgir clínicas multidisciplinares especializadas. Os pais que levam os seus filhos a uma destas instalações recebem tratamentos coordenados por vários profissionais que podem precisar de estar envolvidos no processo, incluindo neurologistas pediátricos, gastroenterologistas, cardiologistas, fisioterapeutas e outros especialistas.

Os pais que não conseguem ter acesso a estes centros devem ter uma abordagem multidisciplinar, diz Marcos Mestre. “Comece com um pediatra, mas envolva outros especialistas conforme necessário.”

É importante lembrar que por vezes os sintomas desaparecem com o tempo, diz Alicia. “Muitas vezes, com outras condições pós-inflamatórias, os sintomas arrastam-se durante meses, mas depois a criança recupera.”

Os pais cujos filhos não contraíram COVID-19 devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que assim se mantenha. “A melhor forma de evitar a síndrome pós-COVID é evitar a COVID”, diz Carlos.

As crianças mais novas, que ainda não são elegíveis para a vacinação, obtêm alguma proteção quando os pais e outras pessoas ao seu redor são vacinadas, diz Carlos. Os adultos também devem respeitar as precauções de segurança e fazer com que as crianças usem máscaras e distanciamento social em ambientes de alto risco.

As crianças maiores de 12 anos, que atualmente são elegíveis para vacinação nos Estados Unidos, devem ser inoculadas o mais depressa possível, diz Marcos. “Eu ouvi pais a dizerem que as suas crianças sobreviveram à COVID, mas não se trata apenas de sobrevivência. Uma análise sobre os riscos e benefícios da vacina para as crianças deve levar tudo em consideração, inclusive a possibilidade de a criança ficar com COVID Longa.”

Wednesday Lynch já foi vacinada, algo que deu algum alívio à sua família porque ela provavelmente não será infetada novamente. A sua mãe cancelou todas as atividades programadas para este verão, para Wednesday poder descansar e receber os cuidados necessários da clínica. A mãe espera que, quando o ano letivo recomeçar no outono, Wednesday esteja de regresso à sua antiga forma de acrobata.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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