Cientistas dizem que as doses de reforço contra a COVID-19 ainda não são necessárias

Para as pessoas completamente vacinadas, a vacina da Pfizer gera uma resposta imunitária que pode durar anos e protege contra casos graves de doença e morte.

Publicado 20/07/2021, 11:26
Elvin Toro, de 26 anos, antigo médico do exército, organiza as suas seringas antes de vacinar ...

Elvin Toro, de 26 anos, antigo médico do exército, organiza as suas seringas antes de vacinar mais um habitante local na Escola Secundária de Central Falls, em Central Falls, Rhode Island.

Fotografia de Joseph Prezios, AFP via Getty Images

As últimas semanas têm sido muito atribuladas para os americanos completamente vacinados que tentam esclarecer se precisam de doses de reforço contra a COVID-19 – agora ou no futuro, sobretudo com a emergência de variantes mais contagiosas.

No dia 8 de julho, a Pfizer e a BioNTech anunciaram que iam tentar obter uma autorização de emergência para uma dose de reforço para a sua vacina, alegando que os seus dados mostram que a eficácia da vacina está a diminuir e que “pode ser necessária uma dose de reforço dentro de seis a 12 meses após a vacinação completa”. Os representantes da Pfizer reuniram-se com as autoridades dos Estados Unidos para debater a autorização de emergência para uma terceira dose.

Contudo, os reguladores dos EUA rejeitaram as alegações da Pfizer. Numa declaração conjunta, a agência FDA e os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) disseram que os americanos completamente vacinados “não precisam de uma dose de reforço neste momento”, enfatizando que as vacinas permanecem altamente eficazes contra os casos graves de doença e morte.

Um porta-voz do Departamento de Saúde dos EUA disse à National Geographic que os reguladores estão a ter em consideração todos os dados – incluindo dados de laboratórios de investigação, de ensaios clínicos e de empresas farmacêuticas como a própria Pfizer. “Agradecemos as informações que eles partilham e as autoridades continuam envolvidas num processo rigoroso com base científica para considerar se, quando ou para quem pode ser necessária uma dose de reforço.”

Na verdade, ao contrário do estudo da Pfizer, os novos dados laboratoriais sugerem que esta vacina oferece uma proteção que pode durar anos. Portanto, o que está exatamente a acontecer? Segue-se uma análise ao que os dados mostram sobre quanto tempo dura a imunidade entre as pessoas completamente vacinadas – e o que os cientistas querem saber antes de recomendarem a administração de mais uma dose.

Anticorpos não são tudo

Primeiro, vamos resumir rapidamente a resposta imunitária do corpo. Esta resposta tem normalmente duas fases. A imunidade inata é a primeira linha de defesa, gerando imediatamente uma resposta imunitária geral que pode destruir substâncias estranhas ou germes. Depois, o sistema imunitário adaptativo – que tem como alvo bactérias e vírus específicos – entra em ação para produzir anticorpos protetores contra um determinado patógeno a curto e longo prazo.

Este processo é feito com a ajuda de células T e B, dois tipos de glóbulos brancos. Como diz E. John Wherry, diretor do Instituto de Imunologia da Universidade da Pensilvânia, “as células T são uma espécie de maestro destas respostas imunitárias complexas”. As células T nutrem as células B, que amadurecem e se transformam em plasmócitos com um objetivo: “São fábricas de anticorpos”, diz John.

Mas os estudos mostram que os níveis de anticorpos neutralizantes gerados pelas vacinas COVID diminuem com o passar do tempo. No seu comunicado, a Pfizer disse que uma terceira dose da vacina provoca uma resposta de anticorpos entre cinco a 10 vezes superior às duas doses. Porém, a Pfizer não divulgou os dados; um porta-voz da empresa disse à National Geographic que a Pfizer está a preparar os dados para publicar.

John Wherry diz que não há dúvida de que a presença de anticorpos neutralizantes é extremamente importante, mas os anticorpos não são tudo.

Jane O’Halloran, professora assistente de medicina na Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis, no Missouri, concorda e refere que os cientistas esperam ver um declínio nos níveis de anticorpos. “Se tivéssemos níveis elevados de anticorpos para todos os patógenos que encontramos, o nosso sangue iria parecer uma lama”, diz Jane.

Portanto, não se trata da quantidade de anticorpos. Trata-se da qualidade – certificando que os anticorpos presentes estão realmente a fazer o seu trabalho e que o nosso corpo tem as ferramentas necessárias para os criar rapidamente quando necessário.

Campos de treino para o sistema imunitário

Jane O’Halloran fez parte de uma equipa de pesquisa que começou a investigar se as vacinas estavam de facto a preparar o corpo para combater a COVID-19 a longo prazo. No estudo desta equipa foram recolhidas amostras de nódulos linfáticos – que contêm células B e T – de 14 adultos saudáveis inoculados com a vacina da Pfizer.

Quando os glóbulos brancos B e T respondem a uma doença e interagem uns com os outros, criam algo conhecido por centros germinativos – essencialmente campos de treino para o sistema imunitário. Nos nódulos linfáticos, os centros germinativos são onde os plasmócitos aprendem a produzir os anticorpos mais eficazes para combater um patógeno.

Os centros germinativos também produzem células de memória imunitária que podem persistir durante mais tempo e ajudar o corpo a estabelecer uma resposta imunitária caso encontre novamente um determinado vírus ou bactéria mais tarde na vida. Ao contrário dos anticorpos, as células de memória só “detetam” um vírus quando este infeta células numa parte do corpo. Quando isto acontece, porém, as células de memória entram em ação e eliminam a infeção.

No final de junho, Jane O’Halloran e a sua equipa da Escola de Medicina da Universidade de Washington publicaram o seu estudo na revista Nature, mostrando que os centros germinativos ainda se estavam a formar nos participantes até 15 semanas após a vacinação. Apesar de não parecer muito tempo, Jane diz que a ideia é a de que estes centros germinativos “estão potencialmente a produzir as células de memória imunitária de longa duração que precisamos para ter imunidade a longo prazo.” O autor principal do estudo, Ali Ellebedy, disse a Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, que a resposta dos centros germinativos é tão robusta que Ali acredita que pode durar anos.

“Isto dá-nos a imagem de que o corpo está a fazer o que é suposto fazer”, diz Jane. John Wherry, que não participou no estudo, concorda com estas palavras. “Agora temos a certeza de que isto está a acontecer de forma realmente robusta com estas vacinas”, diz John.

Mas o estudo fornece um conjunto de dados bastante pequeno, sobretudo quando comparado com os estudos abundantes que medem os níveis de anticorpos. Isto acontece porque este tipo de estudo é muito mais difícil de conduzir e é mais moroso, o que significa que há menos investigadores com capacidade para o fazer.

“Por vezes, a parte que é mais fácil de medir não é a que nos dá a melhor janela para o que está a acontecer no corpo”, diz Jane.

Jane  também refere que o estudo só fala sobre a durabilidade da vacina da Pfizer. Alguns observadores extrapolam que a vacina da Moderna pode ter uma durabilidade semelhante, dado que depende da mesma tecnologia mRNA. Para descobrir os efeitos da vacina da Moderna e da Johnson & Johnson, diz Jane, temos de observar a forma como estão a atuar no mundo real.

Dados tranquilizadores do mundo real

Outro dos argumentos apresentado pela Pfizer para as doses de reforço apontava para os dados reais vindos de Israel, que mostram que a eficácia da sua vacina diminui passados seis meses após a vacinação completa. No dia 5 de julho, o Ministério da Saúde de Israel disse que observou um “declínio acentuado” na eficácia da vacina, caindo para os 64% na prevenção de infeções e doença sintomática.

Também há algumas indicações de que a proteção está a diminuir entre as pessoas imunocomprometidas, levando Israel a começar a administrar uma terceira dose em pacientes transplantados.

John Wherry diz que este declínio acentuado na eficácia da vacina em Israel pode ser atribuído em parte ao robusto programa de testes COVID-19 do país. “Eles testam todas as pessoas a toda a hora”, diz John. “Eles estão a detetar as infeções assintomáticas.”

John salienta que os dados de Israel mostram que a vacina continua a ter uma eficácia de 93% na prevenção de doenças graves e hospitalização. Isto sugere que, embora as vacinas possam já não estar a produzir os níveis robustos de anticorpos que protegem completamente as pessoas de uma infeção, a resposta da memória imunitária de longo prazo ainda está a entrar em ação e a evitar que a infeção se propague.

Os dados de saúde pública de outros lugares parecem confirmar isto: no início deste mês, a diretora dos CDC dos EUA, Rochelle Walensky, disse que mais de 99% das mortes nos EUA por COVID-19 em junho eram de pessoas não vacinadas. Jane diz que este é o verdadeiro objetivo da vacinação.

“Em nenhum momento foi dito que as vacinas preveniam a infeção a 100%”, diz Jane. “O mais importante é o seu impacto nas doenças graves e morte.”

Também é importante salientar que as vacinas da Pfizer, Moderna e da Johnson & Johnson demonstraram todas eficácia contra a variante Delta e outras variantes preocupantes. É claro que tudo isto pode mudar e podem surgir novas variantes que escapem à proteção das vacinas. Mas Jane sublinha que as doses de reforço não são realmente a melhor forma de lidar com a ameaça das variantes.

“A melhor maneira de o fazer é vacinar todas as pessoas, em vez de refinarmos o potencial benefício incremental que eventualmente conseguimos obter com uma dose de reforço num determinado grupo – quando há um outro grupo de pessoas que não foram sequer vacinadas”, diz Jane.

O que os dados não mostram

Embora os dados existentes ofereçam garantias de que as vacinas continuam a oferecer proteção – e que as doses de reforço não são necessárias – os cientistas e reguladores apontam para a necessidade de mais estudos académicos para desvendar com precisão como é que o sistema imunitário está a responder às vacinas COVID-19.

“Creio que nos próximos seis meses ou mais iremos ver muitos estudos a delinear a aparência de outros componentes da resposta imunitária tanto em pessoas saudáveis como em algumas das populações vulneráveis”, diz John. “Só precisamos de mais informações sobre as várias camadas de resposta imunitária da vacinação.”

Também é importante estarmos atentos aos dados de saúde pública, sobretudo a taxa de hospitalizações e mortes entre as pessoas vacinadas. John diz que, idealmente, os EUA vão conseguir identificar quando é que os infetados foram vacinados pela primeira vez, para ajudar a identificar quando é que a imunidade parece começar a desvanecer.

O porta-voz do Departamento de Saúde dos EUA diz que os reguladores também estão a monitorizar todos os novos dados. “A administração está preparada para as doses de reforço se e quando a ciência demonstrar que são necessárias, e qualquer recomendação dos CDC e da FDA pode surgir após um processo completo de revisão.”

Ao mesmo tempo, John Wherry diz que não faz mal estarmos preparados para um momento em que sejam necessárias doses de reforço. “Neste momento podemos  ter a confiança de que, se estivermos completamente vacinados, as nossas probabilidades de adoecermos gravemente devido à COVID são extremamente baixas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados