Novos tratamentos para o cancro podem estar no horizonte – graças às vacinas mRNA

A pandemia de COVID-19 trouxe para o centro das atenções as vacinas mRNA. Mas esta tecnologia também pode ser uma arma poderosa contra os cancros mais difíceis de tratar.

Por Stacey Colino
Publicado 22/07/2021, 14:40
Melanoma maligno

O melanoma maligno (cor de rosa) é um dos cancros humanos mais receados. A sua propagação é rápida e pode invadir quase todos os órgãos a partir da origem, incluindo os pulmões, como vemos nesta imagem, embora as cores não representem a verdadeira pigmentação das células.

Fotografia de Dr. Cecil H. Fox, Science Source

Molly Cassidy estava a estudar para o exame da ordem do Arizona em fevereiro de 2019 quando sentiu uma dor terrível no ouvido. A dor eventualmente passou para a zona do maxilar, levando-a a descobrir um caroço sob a língua. “Vários médicos disseram que isto estava relacionado com o stress porque eu estava a estudar direito e tinha um filho de 10 meses”, recorda Molly, que também tem um doutoramento em educação. Depois de continuar a procurar cuidados médicos, Molly descobriu que tinha uma forma agressiva de cancro da cabeça e pescoço que exigia um tratamento intensivo.

Depois de os médicos removerem parte da sua língua juntamente com 35 gânglios linfáticos, Molly fez 35 sessões de radiação simultaneamente com três ciclos de quimioterapia. Dez dias depois de terminar o tratamento, Molly reparou num caroço na clavícula. O cancro tinha regressado – e com força: espalhou-se pelo pescoço e pulmões. “Naquele momento eu estava realmente sem opções porque os outros tratamentos não tinham funcionado”, diz Molly, que agora tem 38 anos e vive em Tucson. “No verão de 2019, disseram-me que o meu cancro era demasiado grave e para eu organizar as minhas coisas. Até planeei o meu funeral.”

Quando as pessoas ouviram falar pela primeira vez sobre as vacinas COVID-19 da Pfizer-BioNTech e da Moderna, a tecnologia mRNA por trás destas vacinas parecia ficção científica. Contudo, embora a abordagem mRNA pareça revolucionária, muito antes de alguém ter sequer ouvido falar da COVID-19 já os investigadores estavam a desenvolver vacinas mRNA para combater o cancro, doenças autoimunes como a esclerose múltipla e para proteger contra outras doenças infeciosas, como o vírus sincicial respiratório. “Não é uma ideia nova, o que a COVID nos mostrou é que as vacinas mRNA podem ser uma tecnologia eficaz e segura para milhões de pessoas”, diz Daniel Anderson, líder no ramo da nanomedicina e biomateriais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e membro do Instituto Koch para Pesquisa Integrativa de Cancro.

Neste momento, há ensaios clínicos de fase um e dois que estão a recrutar participantes ou que estão em andamento para avaliar a eficácia, tolerabilidade e segurança das vacinas terapêuticas mRNA para tratar várias formas de cancro, incluindo melanoma, cancro do pulmão, cancro gastrointestinal, cancro da mama, cancro do ovário e do pâncreas, entre outros.

“Uma das coisas boas desta tecnologia é poder ser usada em vários casos – não importa se é cancro da mama ou do pulmão, desde que seja possível identificar as mutações”, diz Van Morris, médico e professor assistente de oncologia médica gastrointestinal no Centro Oncológico MD Anderson da Universidade do Texas, em Houston. Van Morris está a liderar um ensaio clínico de fase dois que explora o uso de vacinas mRNA personalizadas para pacientes com cancro colorretal em estágio II ou III. “Uma das coisas interessantes é a adaptabilidade desta tecnologia com base num determinado cancro e na biologia subjacente a esse cancro.”  

Ao longo de 27 semanas, Molly Cassidy recebeu nove injeções de uma vacina mRNA personalizada juntamente com infusões intravenosas de um medicamento de imunoterapia chamado Pembrolizumab. Molly consultou a sua médica, Julie E. Bauman, vice-diretora do Centro Oncológico da Universidade do Arizona, primeiro numa base semanal e depois a cada três semanas; Molly também fazia regularmente tomografias computadorizadas. Depois de cada injeção, Molly tinha um pico de febre e sentia-se exausta – e com dores no corpo – durante 24 horas. “O meu sistema imunitário estava mesmo ativo, que era o que queríamos que acontecesse para eu conseguir lutar contra o cancro”, explica Molly.

Quando o tratamento ficou concluído em outubro de 2020, as tomografias de Molly estavam limpas: não havia evidências de cancro no seu corpo.

Mensagem numa agulha

“Ao nível básico, o que estamos a tentar fazer com a vacina mRNA para o cancro é alertar o sistema imunitário para a presença do tumor, para o sistema o atacar – trata-se basicamente de um software biológico”, explica John Cooke, médico e diretor médico do Centro de Terapias RNA do Hospital Houston Methodist. “Há vacinas em desenvolvimento para cancros onde as soluções não são atualmente muito boas, ou onde os cancros têm probabilidades de metástase.”

Algumas das vacinas mRNA contra o cancro adotam uma abordagem diferente: são vacinas projetadas para identificar proteínas-alvo que aparecem na superfície de determinados tumores cancerígenos. Ainda não se sabe se estas vacinas funcionam como se espera, mas alguns especialistas estão preocupados. “A questão é: qual é o alvo? Precisamos sempre do alvo correto para a vacina ser eficaz”, diz David Braun, oncologista do Instituto de Oncologia Dana-Farber e da Escola de Medicina de Harvard, especializado em imunoterapia. No caso do cancro, não existe um alvo universal como acontece com a proteína “espigão” do coronavírus, e as mutações de ADN nas células cancerígenas variam de um paciente para o outro.

É aqui que as vacinas mRNA personalizadas contra o cancro entram em cena – e podem ser mais promissoras, dizem os especialistas. Com a abordagem personalizada, uma amostra de tecido é retirada do tumor de um paciente e o seu ADN é analisado para identificar mutações que distinguem as células cancerígenas das células normais e saudáveis, explica Julie Bauman, que também é chefe do departamento de hematologia/oncologia na Faculdade de Medicina-Tucson da Universidade do Arizona. Os computadores comparam depois as duas amostras de ADN para identificar as mutações singulares num tumor e, de seguida, os resultados são usados para projetar uma molécula mRNA que irá para a vacina. Isto normalmente é feito entre quatro a oito semanas – “é um verdadeiro esforço técnico conseguir fazer isto”, diz Robert A. Seder, chefe da Secção de Imunologia Celular do Centro de Pesquisa de Vacinas do Instituto Nacional de Alergia e doenças infecciosas dos EUA.

Quando um paciente é injetado com uma vacina mRNA, o mRNA diz às células do paciente para produzir proteínas associadas às mutações específicas do seu tumor. Os fragmentos de proteína tumoral criados a partir do mRNA são depois reconhecidos pelo sistema imunitário do paciente, explica Van Morris. Basicamente, as instruções do mRNA treinam as células T do sistema imunitário – glóbulos brancos que nos ajudam a combater vírus – para estas reconhecerem até 20 mutações nas células cancerígenas e atacar apenas essas. O sistema imunitário perscruta depois o corpo numa missão de busca e destruição de células tumorais semelhantes.

“Uma das coisas que o cancro faz é ativar sinais que dizem ao sistema imunitário para se acalmar, para o cancro não ser detetado”, explica Daniel Anderson. “O objetivo de uma vacina mRNA é alertar e preparar o sistema imunitário para perseguir as características das células tumorais e para as atacar.”

“As vacinas personalizadas contra o cancro despertam as células T especializadas, que reconhecem as células anormais, ficando ativas para matar as células cancerígenas”, diz Julie. “Trata-se de usarmos o nosso próprio sistema imunitário como se fosse um exército para eliminar o cancro.”

“Isto é o expoente máximo da medicina personalizada”, diz Van Morris. “É uma abordagem altamente personalizada e específica, não é um tratamento que serve para todos.”

Desafios pela frente

Apesar do entusiasmo e do potencial deste tipo de tratamento contra o cancro, é importante lembrar: “Ainda é cedo e os resultados vão ser diferentes do sucesso imediato das vacinas contra a COVID-19”, diz Robert Seder. Por um lado, as vacinas mRNA contra o cancro não vão ficar disponíveis com uma velocidade recorde como aconteceu com as vacinas COVID-19, que o conseguiram ao abrigo de uma autorização de emergência; as vacinas contra o cancro vão exigir anos de testes e ensaios clínicos.

Uma das razões para a diferença no tempo de desenvolvimento entre as vacinas mRNA para a COVID-19 e para o cancro deriva do seu objetivo terapêutico. As vacinas mRNA atuais destinam-se a prevenir a COVID-19: são projetadas para proteger as pessoas do vírus, fornecendo uma antevisão distinta da proteína espigão do coronavírus para o sistema imunitário a conseguir combater. Por outro lado, as vacinas mRNA para o cancro são terapêuticas: são administradas aos pacientes para ensinar os seus sistemas imunitários a procurar e a destruir quaisquer células tumorais existentes.

Outro desafio das vacinas mRNA tem sido descobrir como construir uma nanopartícula que entregue efetivamente o RNA mensageiro no local necessário. “Se for [deixado] desprotegido, o RNA mensageiro não entra nas células e degrada-se rapidamente quando o colocamos no corpo”, explica Daniel. “Podemos protegê-lo e entregá-lo no interior das células, encapsulando-o numa nanopartícula semelhante a um lípido.” Desta forma, as nanopartículas conseguem escapar dos mecanismos de depuração do corpo e entrar nas células corretas. (Atualmente, as nanopartículas à base de lípidos são o sistema de entrega mais comum nos ensaios clínicos de vacinas mRNA para o tratamento de cancro.)

Mesmo com um bom sistema de entrega, porém, é pouco provável que as vacinas mRNA sejam uma cura para todos os tipos de cancro, embora sejam mais uma ferramenta promissora para o tratamento de cancros avançados ou incuráveis. E os investigadores estão a explorar se as vacinas mRNA podem ser combinadas com outras terapias baseadas no sistema imunitário, como inibidores de pontos de controlo imunitário (que libertam um travão natural no sistema imunitário para as células T conseguirem reconhecer e atacar os tumores) ou terapia com células T adotivas (onde as células T são recolhidas do sangue ou tumor de um paciente, estimuladas para crescer em laboratório e, de seguida, reinfundidas num paciente para ajudar o corpo a reconhecer e a destruir as células tumorais).

Neste momento, existem poucos estudos publicados sobre os ensaios com vacinas mRNA para o cancro em humanos, mas há vislumbres de esperança. Num ensaio de fase um que investigou o uso de uma vacina mRNA juntamente com um inibidor imunitário no tratamento de cancro da cabeça e pescoço e cancro colorretal, Julie Bauman e os seus colegas encontraram diferenças notáveis: Em cinco dos 10 pacientes com cancro da cabeça e pescoço, a terapia combinada reduziu os tumores, e dois pacientes não apresentaram sinais de cancro após o tratamento; por outro lado, os 17 pacientes com cancro colorretal não responderam ao tratamento combinado.

“Com o cancro colorretal, não há muita atividade do sistema imunitário – as células cancerígenas escondem-se melhor”, explica Julie. “Em alguns casos, pode não ser suficiente mostrar ao sistema imunitário como é o cancro.” As células T precisam de chegar ao cancro e de o eliminar. Isto não aconteceu com os pacientes com cancro colorretal.

Esperança no horizonte

Enquanto isso, algumas descobertas promissoras estão a surgir nos estudos feitos com animais. Num estudo publicado na edição de 2018 da revista Molecular Therapy, os investigadores construíram uma vacina mRNA para ser combinada com um anticorpo monoclonal (um anticorpo sintético feito em laboratório) para aumentar os benefícios no tratamento do cancro da mama triplo negativo, que é notoriamente agressivo e tem uma elevada taxa de metástases e um prognóstico reservado. Os cientistas descobriram que os ratos tratados com a terapia combinada tiveram uma resposta imunitária significativamente aumentada em comparação com os que receberam apenas a vacina ou o anticorpo monoclonal. Noutro estudo, publicado na edição de 2019 da revista ACS Nano, descobriu-se que quando os ratos com linfoma (cancro do sistema linfático) recebiam uma vacina mRNA juntamente com um medicamento inibidor, havia uma redução significativa no crescimento do tumor e 40% tiveram uma regressão completa do tumor.

Se as vacinas mRNA provarem ser eficazes, os médicos e investigadores esperam que, eventualmente, possam ser desenvolvidas vacinas para tratar determinados tipos de cancro, prevenir recorrências e possivelmente até prevenir alguns tipos de cancro em pessoas com mais propensão genética para os mesmos. “Creio que esta vai ser mais uma flecha na aljava para os oncologistas darem aos seus pacientes e melhorar as suas probabilidades”, diz John Cooke. “Se as vacinas profiláticas contra o cancro funcionarem, podem tornar o cancro numa doença evitável.”

Entretanto, Molly Cassidy já acredita piamente no poder das vacinas mRNA para tratar cancros agressivos. Atualmente, Molly sente-se ótima e está a desfrutar da vida em casa com o filho de três anos, o marido e os enteados. “A minha médica não vai dizer que estou curada, mas ela está muito feliz por eu estar assim”, diz Molly. “Este tratamento salvou-me a vida e estou extremamente grata aos meus médicos.”

Alguns especialistas dizem que é concebível a aprovação de uma vacina mRNA para o cancro por parte da agência Food and Drug Administration nos próximos cinco anos. “Se um dia conseguirmos alavancar a capacidade do sistema imunitário para se livrar com precisão de invasores estranhos como o cancro, vai ser um dia incrível”, diz Julie.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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