O que significa o voo histórico da Virgin Galactic para o futuro de turistas no espaço

Transportando uma tripulação que incluía o fundador da empresa, Richard Branson, esta viagem de sucesso marca um passo significativo em direção a novos patamares.

Publicado 13/07/2021, 12:19 WEST
Virgin Galactic

No dia 11 de julho, o avião espacial V.S.S. Unity da Virgin Galactic ligou o seu motor foguete e voou a uma altitude de mais de 85 quilómetros acima da superfície da Terra, levando o fundador da empresa, Richard Branson, para o limite do espaço.

Fotografia de Virgin Galactic

A mais de 14.000 metros de altura nos céus do deserto do Novo México, um avião espacial branco e prateado disparou em direção à extremidade da atmosfera terrestre, deixando no seu rasto uma nuvem de combustível queimado. Poucos minutos depois, os dois pilotos e quatro passageiros da nave, incluindo o bilionário Richard Branson, flutuaram a mais de 85 quilómetros acima da superfície do nosso planeta: altitude suficiente para ver a curvatura da Terra e abandonar as amarras da gravidade, pelo menos durante alguns minutos.

O veículo reluzente – o V.S.S. Unity da Virgin Galactic – foi libertado no ar por um avião maior para alcançar os mais de 85 quilómetros de altitude. Quando completou a subida, o avião espacial rodou os seus dois lemes de cauda, reconfigurando o veículo para permitir uma queda lenta na atmosfera superior, como se fosse um volante de badminton. Quinze minutos após a separação do avião-mãe, o V.S.S. Unity planou até a uma pista de aterragem no Novo México.

“É a experiência completa de uma vida”, disse radiante Richard Branson quando o V.S.S. Unity estava a aterrar.

Richard Branson, da Virgin Galactic, e outros passageiros esperam que o V.S.S. Unity, o avião espacial suborbital movido a foguetes da Virgin Galactic, seja libertado do avião-mãe.

Fotografia de Virgin Galactic

Esta missão, designada Unity 22, marcou o momento em que a Virgin Galactic, a empresa de Branson, levou o maior número de tripulantes até à fronteira com o espaço. Este espetáculo também serviu como um marco altamente visível para impulsionar a comercialização do acesso ao espaço suborbital, tanto para diversão como para fins lucrativos. Este voo espacial da Virgin Galactic – o quarto com humanos a bordo – acontece apenas nove dias antes do bilionário Jeff Bezos voar no New Shepard, um foguetão suborbital construído pela sua empresa, a Blue Origin.

“O facto de os fundadores destas empresas voarem nas primeiras missões oficiais destas coisas é bastante impressionante para mim”, diz a historiadora espacial Jennifer Levasseur, curadora do Museu Nacional do Ar e Espaço Smithsonian. “É obviamente investir uma quantidade incrível de fé no que se construiu, nas pessoas e na tecnologia – e, claro, existe sempre aquela sensação de aventura inerente que faz os riscos valerem a pena.”

Ambas as empresas foram criticadas pelos seus projetos de vaidade e luxo concebidos para os super-ricos. A Virgin Galactic cobrava 250 mil dólares por ingresso nas suas vendas antecipadas, mas desde então já informou que vai aumentar o preço. A Blue Origin ainda não começou a vender lugares no New Shepard, nem divulgou os preços dos bilhetes, mas num leilão feito em junho, foi vendida uma viagem no próximo voo com Bezos por 28 milhões de dólares.

Contudo, se olharmos para além das façanhas dos ricos que procuram glória, os novos veículos espaciais como o SpaceShipTwo e o New Shepard podem fornecer uma plataforma única de investigação científica e aeroespacial.

“Não se trata apenas de uns quantos bilionários”, diz Laura Seward Forczyk, fundadora da Astralytical, uma empresa analista da indústria espacial. “Pode ser feita ciência.”

Turismo espacial

As incursões privadas no espaço não são uma novidade. Desde 2000 que vários turistas com bolsos intermináveis gastam dezenas de milhões de dólares para voar até à Estação Espacial Internacional (EEI). Para além disso, a NASA tem gradualmente incentivado as empresas privadas a assumirem os lançamentos de carga e astronautas dos EUA para a EEI. Os voos comerciais de carga para a NASA começaram em 2012 e os voos comerciais de tripulação começaram em 2020.

Porém, empresas como a Virgin Galactic e a Blue Origin trabalham há vários anos num tipo diferente de voo espacial: o turismo espacial suborbital. Em breve, qualquer pessoa com uma fortuna para gastar pode fazer uma viagem de minutos até à fronteira com o espaço.

Embora a fronteira com o espaço reconhecida internacionalmente esteja geralmente nos 100 quilómetros de altitude, conhecida por linha de Kármán, os Estados Unidos usam as 50 milhas (80 quilómetros) como ponto de corte. O voo da Virgin Galactic atingiu os 282.773 pés (cerca de 86 quilómetros). Espera-se que o voo da Blue Origin, agendado para o dia 20 de julho, atinja uma altitude de 105 quilómetros.

A construção de uma nova nave espacial para turistas tem-se revelado extremamente difícil, exigindo anos de testes e resultando em incidentes por vezes mortais – nomeadamente a queda mortal de um protótipo do avião-foguete SpaceShipTwo em 2014. Agora, a Virgin Galactic e a Blue Origin estão a fazer a transição dos voos de teste para as viagens comerciais com clientes, com os bilionários fundadores de ambas as empresas a voarem para o espaço nos veículos das suas próprias companhias.

Para a Virgin Galactic em particular, tem sido um longo caminho até chegar a este ponto. O avião espacial da empresa tem as suas raízes num programa que começou em meados da década de 1990.

Um novo avião espacial

Ao contrário dos tradicionais foguetões tripulados que são lançados do solo, o SpaceShipTwo é lançado no ar. Um avião-mãe chamado WhiteKnightTwo transporta o avião-foguete SpaceShipTwo até a uma altitude de mais de 12.000 metros. O SpaceShipTwo é largado do avião maior, liga o seu motor foguete e voa em direção à fronteira com o espaço com uma inclinação íngreme, viajando a cerca de três vezes e meia a velocidade do som.

Lançar um avião-foguete no ar pode parecer uma forma complexa de levar humanos para o espaço, mas este “lançamento aéreo” tem várias vantagens, diz Chuck Rogers, chefe de departamento no Centro Armstrong de Investigação de Voo da NASA, na Califórnia. Esta técnica tem sido explorada ao longo de várias décadas de investigação de voo, incluindo nos testes do X-1, o primeiro avião a quebrar a barreira do som, e no X-15, o avião mais rápido alguma vez pilotado, atingindo os 7.275 quilómetros por hora durante um voo em 1967.

Lançar um avião no ar pode ser altamente eficaz porque o veículo não precisa de se arrastar pela densa atmosfera inferior com a sua própria propulsão, o que significa que pode transportar menos combustível. E com um avião espacial, o veículo pode levantar voo e aterrar numa pista longa convencional, reduzindo a necessidade de infraestruturas adicionais para a plataforma de lançamento.

O trabalho de design da SpaceShipOne, antecessora experimental da SpaceShipTwo, começou em 1996, com o anúncio do concurso Ansari X Prize. Este concurso oferecia 10 milhões de dólares à primeira equipa privada a voar uma nave a mais de 100 quilómetros de altitude, duas vezes em duas semanas, até ao final de 2004, levando um piloto e o peso adicional de dois passageiros.

O favorito desta competição era Burt Rutan, um engenheiro iconoclasta conhecido pelos seus designs de aviões peculiares e extremamente eficientes. Para entrar no X Prize, Burt optou por um projeto de lançamento aéreo com uma abordagem única para a descida: pouco antes de a SpaceShipOne atingir a sua altitude máxima, os dois lemes traseiros da nave dobrariam para cima até aos 65 graus, como acontece com o pelo nas costas de um cão. Este sistema de “franjas” aumentava muito o arrasto da nave durante a descida, desacelerando-a até um ponto em que podia cair com segurança através da atmosfera, retrair os lemes traseiros e, de seguida, planar até a uma pista de aterragem.

Os progressos neste avião espacial foram lentos até que Burt e a sua empresa, a Scaled Composites, obtiveram um investimento do cofundador da Microsoft, Paul Allen, em 2001. Em junho de 2004, a SpaceShipOne tornou-se no primeiro veículo com financiamento privado a entrar no espaço. Menos de quatro meses depois, este avião espacial voou duas vezes para além dos 100 quilómetros de altitude e venceu o X Prize.

“Foi o voo perfeito”, diz o piloto de testes Brian Binnie, que pilotou o segundo voo premiado no dia 4 de outubro de 2004. “Ainda o sinto hoje – é como se eu não estivesse sozinho, é como se houvesse outras forças em ação.”

Depois do sucesso da SpaceShipOne no X Prize, Richard Branson licenciou os projetos de Burt Rutan para a Virgin Galactic com o objetivo de os expandir para um veículo maior, um veículo que levasse vários passageiros: a SpaceShipTwo.

O longo caminho da SpaceShipTwo

A SpaceShipTwo tem quase o dobro do tamanho da sua antecessora, mas trouxe mais do que o dobro das dores de cabeça. O tamanho do veículo exigiu novos projetos para o avião-mãe e para o motor foguete do avião espacial, entre outros problemas técnicos, provocando atraso após atraso.

A equipa da SpaceShipTwo também foi assolada por dois acidentes mortais. Em 2007, três pessoas morreram numa explosão antes de um teste ao motor foguete. No dia 31 de outubro de 2014, um protótipo da SpaceShipTwo partiu-se durante a ascensão, quando um dos pilotos desbloqueou antecipadamente o sistema de plumagem da nave. O copiloto Michael Alsbury morreu no acidente e o piloto Peter Siebold sofreu ferimentos graves. O acidente de 2014 abalou Richard Branson, mas a Virgin Galactic decidiu continuar.

“Atribuo todo o crédito a Branson por persistir; ele teve várias oportunidades para desistir deste projeto”, diz Brian Binnie, que trabalhou na SpaceShipTwo até 2014. “Parece muito glamoroso entrar no negócio dos foguetões, mas... quando as coisas correm mal, é muito pesado.”

Em 2018, depois de anos de atualizações de segurança, dois pilotos da SpaceShipTwo atravessaram pela primeira vez o limite dos 80 quilómetros. Em 2019, a nave fê-lo novamente, desta vez com uma passageira: Beth Moses, a instrutora chefe de astronautas da empresa.

“Foi magnífico. Foi indescritível”, disse Beth Moses em entrevista à National Geographic em 2019. “É uma experiência incrível, incrível, intensa e maravilhosa.”

Em maio de 2021, a Virgin Galactic concluiu o seu terceiro voo acima dos 80 quilómetros, levando a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos a emitir uma licença comercial para a empresa. Este teste pavimentou o caminho para o lançamento recente da missão Unity 22 – e deu à empresa confiança suficiente para permitir a presença a bordo do próprio Richard Branson.

Ciência no limite do espaço

Grande parte do debate em torno da Virgin Galactic e da Blue Origin concentrou-se na corrida entre Branson e Bezos. Mas, à medida que estes bilionários voam em direção ao céu, os veículos que as suas empresas construíram possibilitam novos tipos de investigação.

Os voos da Virgin Galactic e da Blue Origin oferecem cerca de três a cinco minutos de ausência de peso. Os cientistas já tinham acesso ao espaço suborbital, mas faziam-no maioritariamente através de veículos sem tripulação. Com estes novos veículos, os investigadores podem voar ao lado das experiências e executá-las durante o voo.

As duas empresas já voaram com cargas científicas úteis e demonstrações de tecnologia, com o apoio do Programa de Oportunidades de Voo da NASA. O voo da missão Unity 22 incluiu uma experiência com acompanhamento humano que registou alterações na atividade genética de plantas assim que estas começaram a sentir a ausência de peso, um projeto da Universidade da Flórida dirigido por Sirisha Bandla, um funcionário da Virgin Galactic.

As experiências feitas anteriormente no vaivém espacial e na EEI registaram em detalhe como funciona a vida em microgravidade. Mas, bioquimicamente, não se sabe como é que os seres vivos passam da sensação de gravidade da Terra para uma sensação de ausência de peso. Os cientistas não fazem ideia. Mas os voos suborbitais como o da Unity 22 oferecem uma oportunidade única para estudar esta questão, diz o biólogo da Universidade da Flórida, Rob Ferl, um dos investigadores principais desta experiência.

“Nós somos os cientistas que simplesmente abrem a porta para este universo biológico que nunca foi visto antes”, diz Rob.

O futuro dos voos suborbitais

Independentemente de a Virgin Galactic e a Blue Origin levarem os seus clientes reservados e conseguirem contratos de investigação, Laura Seward Forczyk, a referida analista da indústria espacial, alerta que ainda não sabemos o quão grande poderá ser o mercado suborbital.

Em teoria, os preços dos bilhetes podem cair à medida que os voos se tornam mais comuns. Mas, por enquanto, esta jovem indústria está voltada principalmente para os super-ricos, para os seus hóspedes e investigadores com financiamento. Conforme a tecnologia amadurece, diz Laura, descobriremos se as empresas de voos espaciais dirigidas por bilionários conseguem cumprir a promessa de “democratização do espaço”, ou se estes emocionantes passeios suborbitais vão continuar a ser um luxo extremo.

O futuro das viagens privadas até à fronteira com o espaço também vai depender da segurança dos veículos. De acordo com a atual lei dos EUA, as autoridades federais estão limitadas na sua capacidade de regular a segurança dos passageiros de voos espaciais comerciais até 2023. “Creio que todos sabem que isto não é um ambiente livre de riscos”, diz Laura. “Acho que devemos antecipar e esperar acidentes fatais.”

Mesmo que os desenvolvimentos sejam abrandados por incidentes, o acesso do consumidor ao espaço suborbital e mais além provavelmente continuará em expansão. “Eu provavelmente consideraria isto mais como o fim do começo”, diz Jennifer Levasseur, curadora do Museu Smithsonian. “O voo espacial nunca será uma rotina; este não é um processo de rotina... [mas] estamos a entrar numa nova fase de regularidade.”

Para Brian Binnie, ver a SpaceShipTwo a subir aos céus é como ver o legado do protótipo no qual voou à altitude recorde de 112.000 metros.

“Tenho a felicidade de dizer que não vai ser um veículo isolado pendurado num museu”, diz Brian. “Na verdade, vai ser o catalisador para algo melhor, algo mais luminoso, maior.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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