Há evidências de que as pessoas vacinadas podem ficar infetadas e propagar facilmente a variante Delta

Um novo estudo descobriu que a variante dominante pode crescer tanto nos narizes de pessoas vacinadas como de pessoas não vacinadas.

Publicado 25/08/2021, 12:22
Vacinação

Um profissional de saúde administra uma dose da vacina da Pfizer-BioNTech num centro de vacinação em Lake Worth, na Flórida, na sexta-feira, dia 13 de agosto de 2021.

Fotografia de Saul Martinez, Bloomberg via Getty

Um estudo preliminar feito em Wisconsin mostra que, no caso de uma “infeção disruptiva”, a variante Delta consegue crescer no nariz de pessoas vacinadas com a mesma proporção com que aconteceria se não estivessem vacinadas. O vírus resultante é tão infecioso quanto o das pessoas não vacinadas, o que significa que as pessoas imunizadas podem transmitir o vírus e infetar outras.

Os estudos feitos anteriormente em hospitais na Índia, em Provincetown, no Massachusetts e na Finlândia também demonstram que, após infeções disruptivas com a variante Delta, podem existir níveis elevados de vírus no nariz das pessoas, independentemente de estarem ou não vacinadas. O passo lógico seguinte passou por determinar se as pessoas vacinadas podiam transmitir o vírus infecioso. Muitos especialistas suspeitavam que sim, mas até este estudo mais recente isso ainda não tinha sido provado em laboratório.

“Tanto quanto sei, somos os primeiros a demonstrar que o vírus infecioso pode ser cultivado a partir de infeções de pessoas completamente vacinadas”, diz Kasen Riemersma, virologista da Universidade de Wisconsin, que é um dos autores do estudo.

“A variante Delta está a surgir mais preferencialmente após a vacinação em comparação com as variantes não-Delta” porque é extremamente infeciosa e evita a resposta imunitária, diz Ravindra Gupta, microbiologista da Universidade de Cambridge. O laboratório de Ravindra foi um dos primeiros a documentar que os profissionais de saúde completamente vacinados podem ficar infetados com a variante Delta e apresentam níveis elevados de vírus nos seus narizes.

Se a descoberta do novo estudo se mantiver, as pessoas com infeções disruptivas – muitas das quais não desenvolvem sintomas de COVID – podem propagar o vírus inadvertidamente. “É uma descoberta alarmante”, explica Katarina Grande, supervisora de saúde pública e chefe da equipa de dados COVID-19 do condado de Madison & Dane, que liderou o estudo.

Eric Topol, fundador e diretor do Instituto Scripps Research Translational, está preocupado porque os indivíduos completamente vacinados que estão infetados com a variante Delta podem transmitir o vírus e isso pode acontecer com uma taxa mais elevada do que as estirpes anteriores nos dias que antecedem os sintomas, ou até na ausência de sintomas. “É por isso que as máscaras e as medidas de mitigação são importantes, mesmo para as pessoas [que estão] vacinadas”, diz Eric.

Os estudos deste tipo sublinham que a transmissão da variante Delta pode ser muito mais elevada do que a estimada atualmente, de acordo com Ethan Berke, diretor do departamento de saúde pública do Grupo UnitedHealth. A investigação de Ethan mostra que a testagem frequente com resultados rápidos, mesmo que preliminares, pode ser muito eficaz na mitigação da pandemia de COVID-19. Ethan não participou no estudo feito em Wisconsin.

“Mesmo que o estudo se baseie apenas numa região, oferece uma visão importante sobre a forma como as pessoas podem propagar o vírus a outras, quer estejam vacinadas ou não. Este tipo de perceção, sobretudo quando testada e refinada, é incrivelmente útil à medida que as organizações desenvolvem políticas em torno da testagem, distanciamento social e vacinação”, diz Ethan.

Como é que sabemos que o vírus na amostra é infecioso?

Para os testes de SARS-CoV-2, os cientistas empregaram uma medida chamada ciclo de limiar (Ct) que usa corantes brilhantes para revelar a quantidade de RNA viral no nariz.

“O vírus SARS-CoV-2 infeta o nariz e as vias respiratórias superiores. É muito difícil conseguir um nível muito elevado de anticorpos nesta área durante longos períodos de tempo. O sistema imunitário não foi projetado para colocar níveis elevados de anticorpos nestes locais”, diz Ravindra Gupta.

Os valores de Ct estão correlacionados com a carga viral, ou o número de partículas virais presentes no corpo. Quando a quantidade de vírus ultrapassa um determinado limite, os investigadores esperam que uma pessoa infetada liberte o SARS-CoV-2 e possa infetar outras pessoas. O estudo feito no Wisconsin analisou as zaragatoas de 719 casos de pessoas não vacinadas e completamente vacinadas, todas com resultados positivos, e constatou que 68% dos pacientes tinham cargas virais muito altas. Uma carga viral elevada é um sinal de que o vírus se está a replicar, diz Ravindra.

Para descobrir se as zaragatoas tinham vírus infecioso, os investigadores cultivaram vírus de 55 amostras de pacientes (de pessoas vacinadas e não vacinadas com resultados positivos) em células especiais com propensão para infeção por SARS-CoV-2. A equipa de Katarina Grande detetou vírus infecioso em quase todas as amostras: em 88% dos indivíduos não vacinados e em 95% dos vacinados.

“Colocámos as amostras nas células e elas morreram quando foram infetadas. E isto demonstra claramente que há ali vírus e que é infecioso”, explica Kasen Riemersma.

Se as pessoas vacinadas continuam a produzir muito vírus infecioso, isto significa que podem propagar o vírus tão facilmente como aquelas que não estão vacinadas.

Máscaras e vacinação necessárias para prevenir transmissão viral

“Temos uma espécie de tempestade perfeita com várias coisas a acontecer: variantes extremamente infeciosas, uma população verdadeiramente suscetível e debates sobre o uso de máscara”, diz Katarina.

Mais de 93.8% do território dos EUA está em risco substancial ou elevado de transmissão comunitária de SARS-CoV-2, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC). Os CDC definem uma área de risco elevado quando o número de novos casos num condado excede os 100 por 100.000 habitantes ou quando mais de 10% dos testes de COVID-19 dão positivo nos últimos sete dias. Nestas áreas, os CDC recomendam o uso de máscara em ambientes fechados para maximizar a proteção contra a variante Delta e evitar que esta se propague.

Embora as vacinas autorizadas previnam casos graves de COVID-19 e morte, a proteção que oferecem é substancialmente menor entre os idosos e as pessoas que têm um sistema imunitário enfraquecido ou condições médicas subjacentes.

“Precisamos de mais informações sobre a variante Delta para compreender melhor como funciona, como pode ser transmitida e, em última análise, para percebermos como nos podemos proteger em casa, no trabalho e nas nossas comunidades”, diz Ethan Berke. “Entretanto, a higiene básica, incluindo o uso de máscara, o distanciamento social, os testes regulares e as vacinas continuam a desempenhar um papel fundamental na redução da transmissão e na prevenção de casos graves de doença e morte.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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