A variante Mu está a aumentar. Os cientistas avaliam os riscos.

Os estudos feitos em laboratório sugerem que esta variante pode conseguir evitar melhor o sistema imunitário, mas é menos agressiva do que a Delta em termos de transmissibilidade e infeção de células.

Por Sanjay Mishra
Publicado 13/09/2021, 11:51
Variante Mu

Uma mulher com máscara e viseira aguarda por uma vacina contra a COVID-19 no centro de vacinação Bicentanerio em Quito, no Equador, no dia 8 de julho de 2021.

Fotografia por Franklin Jacome, Agencia Press South, via Getty

Uma das variantes mais recentes de COVID-19, conhecida por Mu, já se propagou por 42 países, mas os estudos preliminares sugerem que esta variante não tem o mesmo grau de transmissibilidade que a perigosa variante Delta, que desencadeou o ressurgimento da pandemia em vários países.

A variante Mu tornou-se rapidamente na estirpe dominante na Colômbia, onde foi detetada pela primeira vez em janeiro, mas nos EUA, onde a variante Delta permanece dominante, a sua propagação não tem sido significativa. Depois de atingir o pico no final de junho, a prevalência da variante Mu nos EUA tem descido constantemente.

Os cientistas acreditam que esta nova variante não consegue competir com a variante Delta, que é altamente contagiosa. “Saber se podia ter aumentado ou não se não houvesse a Delta, é difícil dizer”, diz Alex Bolze, geneticista da empresa de genómica Helix.

Na Colômbia, porém, a variante Mu é responsável por mais de um terço dos casos de COVID-19. Até agora tínhamos 11 variantes destacadas, que a Organização Mundial de Saúde nomeou de acordo com as letras do alfabeto grego. A variante mais recente, a Mu, é a 12ª. A OMS catalogou esta versão mais recente do SARS-CoV-2 como uma Variante de Interesse, um nível abaixo da Variante de Preocupação.

A Delta e três outras variantes estão no nível mais elevado de preocupação. Mas uma Variante de Interesse como a Mu continua a levantar muitas preocupações. Esta variante tem várias mutações conhecidas que podem ajudar o vírus a contornar a imunidade adquirida através das vacinas ou infeções anteriores.

Ainda assim, há boas notícias. A Mu dificilmente irá substituir a Delta em lugares como os EUA, onde já é predominante, diz Tom Wenseleers, biólogo evolucionista e bioestatístico da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, que já tinha estimado a transmissibilidade e impacto da variante Alfa em Inglaterra.

Quão diferente é a Mu?

A maioria das sequências genéticas revela que a Mu tem oito mutações na sua proteína “espigão”, muitas das quais também estão presentes em variantes preocupantes: Alfa, Beta, Gama e Delta.

Algumas das mutações da variante Mu, como a E484K e a N501Y, ajudam outras variantes a evitar os anticorpos das vacinas que usam RNA mensageiro. Nas variantes Beta e Gama, a mutação E484K torna-as mais resistentes a uma só dose de uma vacina mRNA.

Um estudo feito recentemente, que ainda não foi revisto por pares, mostra que a mutação P681H ajuda na transmissibilidade da variante Alfa – e pode fazer o mesmo na Mu.

A variante Mu também tem novas mutações que ainda não tinham sido observadas nas outras variantes, pelo que as suas consequências permanecem desconhecidas. A mutação na posição 346 interrompe a interação dos anticorpos com a proteína espigão, algo que, de acordo com os cientistas, pode facilitar a fuga do vírus.

Um estudo feito com modelos epidemiológicos, que ainda não foi revisto por pares, estima que a Mu é até duas vezes mais transmissível do que a estirpe original do SARS-CoV-2 e que foi responsável pela vaga de mortes provocadas por COVID-19 em Bogotá, na Colômbia, em maio de 2021. Este estudo também sugere que a imunidade adquirida através de uma infeção anterior pelo vírus antigo tem menos 37% de eficácia na proteção contra a Mu.

“Neste momento, não temos evidências [suficientes] disponíveis que possam sugerir que, de facto, esta nova variante Mu está associada a uma alteração significativa [...] na COVID”, diz Alfonso Rodriguez-Morales, presidente da Associação Colombiana de Doenças Infeciosas.

Mas estão a surgir alguns indícios de que a Mu pode enfraquecer a proteção dos anticorpos gerados pelas vacinas existentes. Os vírus feitos em laboratório que imitam a variante Mu foram menos afetados pelos anticorpos de pessoas que  recuperaram de COVID-19 ou que foram vacinadas com a vacina Comiranty da Pfizer. Neste estudo, que também ainda não foi revisto por pares, a Mu é a variante mais resistente a vacinas de todas as variantes atualmente reconhecidas.

Noutro estudo laboratorial, os anticorpos de pacientes imunizados com a vacina da Pfizer foram menos eficazes na neutralização da Mu em comparação com outras variantes.

“Esta variante [Mu] tem uma constelação de mutações que sugere que evita determinados anticorpos – não só os anticorpos monoclonais, mas também as vacinas e anticorpos convalescentes induzidos por soro – mas os dados clínicos que o sugerem são escassos. Os dados são maioritariamente laboratoriais [...], disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas dos EUA, em conferência de imprensa na Casa Branca no dia 2 de setembro.

Mas as vacinas contra a COVID-19 – da Pfizer, Astra Zeneca, Johnson & Johnson e Sinovac, todas disponíveis na Colômbia – ainda parecem oferecer uma boa proteção contra a Mu, de acordo com Alfonso Rodriguez-Morales.

Qual é a prevalência da Mu?

A variante Mu expandiu-se rapidamente pela América do Sul, mas é difícil saber ao certo até que ponto se propagou, de acordo com Paúl Cárdenas, microbiologista da Universidade São Francisco de Quito, no Equador.

“[Os países latino-americanos] forneceram um número muito baixo de sequências genéticas, em comparação com o número de casos que temos”, diz Paúl Cárdenas. Os países da América do Sul sequenciaram apenas 0.07% do total de casos positivos de SARS-CoV-2, embora 25% das infeções globais tenham acontecido nesta região. Isto contrasta com os 1.5% de todos os casos positivos sequenciados nos EUA e com os 9.3% de todos os casos positivos sequenciados no Reino Unido.

“Não estamos necessariamente a analisar a realidade da distribuição das variantes [na América Latina] devido às limitações no sequenciamento do genoma”, diz Alfonso.

Com exceção para a Colômbia, onde a Mu se tem propagado desde o final de fevereiro, a variante está a tornar-se menos frequente no mundo inteiro, incluindo no resto da América do Sul.

“As evidências adicionais sobre a variante Mu são escassas, sendo semelhante ao que acontece com a Lambda e outras variantes prevalentes ao nível regional – devido à capacidade limitada na execução de estudos de acompanhamento e porque estas variantes ainda não representaram uma ameaça significativa para os países de alto rendimento, como tem acontecido com a Delta”, diz Pablo Tsukayama, microbiologista da Universidade Peruana Cayetano Heredia em Lima, no Peru. Pablo espera que a designação da Mu por parte da OMS como uma variante de interesse venha alterar esta realidade.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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