Caranguejo minúsculo envolto em âmbar revela marcha evolutiva para fora do oceano

Este crustáceo com 100 milhões de anos, que está incrivelmente bem preservado, também destaca o conflito em torno das minas de âmbar de Myanmar.

Por Riley Black
Publicado 22/10/2021, 12:10
Caranguejo em âmbar

Um dos primeiros caranguejos a migrar para o interior pode ajudar os cientistas a compreender como é que os animais fizeram a transição dos oceanos para os corpos de água doce ou para terra.

Fotografia por Lida Xing

Um crustáceo da antiguidade, encontrado fossilizado em âmbar, pode revelar um ponto crítico na história evolutiva de um dos animais mais versáteis da Terra: o caranguejo. Este fóssil com 100 milhões de anos, descoberto em Myanmar, está a ajudar os investigadores a decifrar um enigma pré-histórico sobre quando é que os caranguejos se começaram a afastar dos mares.

O estado de preservação deste caranguejo minúsculo é “espetacular”, diz o paleontólogo Javier Luque, da Universidade de Yale, autor principal de um novo estudo que descreve o espécime na revista Science Advances. Através do âmbar, Javier Luque e os seus colegas conseguiram observar detalhes nas pernas articuladas do animal, garras, olhos compostos e até mesmo as guelras.

Os paleontólogos não sabem ao certo se este novo fóssil representa um caranguejo adulto ou jovem, mas o animal está tão bem preservado que Javier Luque e a sua equipa conseguiram determinar que a criatura é uma nova espécie, denominada Cretapsara athanata, que pertence a um grupo ainda vivo de caranguejos chamado Eubrachyura.

O âmbar é resina fossilizada de árvore, pelo que é ainda mais surpreendente encontrar um crustáceo no seu interior. “Encontrar um caranguejo em âmbar é como encontrar uma agulha num palheiro”, diz Heather Bracken-Grissom, bióloga da Universidade Internacional da Flórida, que não participou no estudo.

Alguns caranguejos vivem em água doce ou em terra, enquanto que outros podem subir às árvores – como os caranguejos Aratus pisonii que vemos na imagem – podendo explicar como um caranguejo ficou preso na resina de uma árvore há 100 milhões de anos.

Fotografia por Javier Luque

A equipa do estudo propõe que o Cretapsara pode representar o caranguejo não-marinho mais antigo de que há conhecimento, e pode conter pistas sobre a forma como os caranguejos deram o salto evolutivo do mar para os ambientes interiores. “O novo caranguejo fóssil envolto em âmbar preenche de forma espetacular essa lacuna”, diz Javier Luque.

Este fóssil, que cientificamente é muito valioso, também destaca o debate em torno da ética de recolha, compra, estudo e publicação de fósseis em âmbar de Myanmar. Os espécimes em âmbar mais valiosos são frequentemente contrabandeados para mercados na China, onde alguns paleontólogos competem com negociadores privados para comprar os fósseis – um comércio que pode financiar as forças armadas de Tatmadaw que têm cometido violações atrozes dos direitos humanos em Myanmar.

No início deste ano, depois de um golpe das forças Tatmadaw para tomar o poder, a Sociedade de Paleontologia de Vertebrados pediu uma moratória sobre a publicação de investigações sobre fósseis em âmbar de Myanmar recolhidos após 2017, quando as forças militares do país começaram a apreender as minas de âmbar. De acordo com os investigadores, o pedaço de âmbar que contém o caranguejo Cretapsara foi recolhido em 2015 e vendido a um negociante em Myitkyina, Myanmar, antes de ser comprado pelo Museu de Âmbar de Longyin na província de Yunnan, na China.

Javier Luque espera que a publicação desta investigação sobre um fóssil que foi recolhido antes da moratória ajude a aumentar a consciencialização sobre o conflito no estado de Kachin, no norte de Myanmar, onde as minas de âmbar têm revelado fósseis que captam a imaginação de profissionais e entusiastas de fósseis.

Marcha dos caranguejos para terra

O estado de preservação do âmbar e outras pistas são tão reveladoras quanto o pequeno artrópode que contém. O caranguejo está imaculado, não se trata de uma carapaça vazia, sugerindo que este animal viveu realmente no habitat onde ficou preservado. A ausência de grãos de areia no âmbar e a forma como a seiva fluiu sobre o caranguejo também indicam que este fóssil veio de um ambiente longe da costa – provavelmente um ambiente salobro ou de água doce.

O afastamento dos oceanos foi um passo enorme para os caranguejos. A adaptação a água salobra ou água doce não é tão simples como carregar num interruptor. Os animais tiveram de alterar a forma como respiravam, regulavam a água e evitar que secassem, diz Javier Luque.

Xiao Jia (ao centro), curadora do Museu de Âmbar de Longyin, mostra o caranguejo envolto em âmbar a uma estudante.

Fotografia por Xiao Jia

“Os maiores obstáculos devem ser as alterações associadas à osmorregulação”, ou a forma como um organismo gere a água e os eletrólitos como sal no corpo, diz Heather Bracken-Grissom – sem esquecer a presença de novos predadores prontos para petiscar uma refeição diferente.

Apesar disso, os caranguejos movem-se dos mares para o interior continuamente. Os caranguejos da atualidade não vivem apenas nas praias, entre os recifes de coral ou nas profundezas do oceano, também podem ser encontrados em estuários, rios e lagos. Alguns caranguejos – como o caranguejo terrestre Gecarcinus ruricola das Caraíbas – passam a maior parte do tempo em terra. Outros seguiram caminhos verdadeiramente únicos, como os caranguejos-dos-coqueiros, artrópodes enormes que podem pesar mais de quatro quilos e escalar árvores em habitats insulares nos oceanos Índico e Pacífico.

Os investigadores que se especializam na organização de árvores genealógicas com base em biomoléculas, como os genes, estimam que os caranguejos não-marinhos evoluíram pela primeira vez há cerca de 130 milhões de anos, durante o início do período Cretáceo. Os fósseis mais antigos de caranguejos não-marinhos de que há conhecimento têm apenas cerca de 70 milhões de anos, até que esta nova descoberta em Myanmar alinhou melhor o registo fóssil com as estimativas genéticas.

Janelas para o passado

Este fóssil envolto em âmbar pode ser o caranguejo não-marinho mais antigo de que há registo, mas provavelmente não foi o primeiro – ou o último – caranguejo a aventurar-se para longe dos mares. “Acreditamos que os verdadeiros caranguejos adaptaram-se a um modo de vida maioritariamente de água doce pelo menos seis vezes, e a habitats que incluem terra e água salobra pelo menos 12 vezes”, diz Javier Luque.

E os caranguejos não são os únicos organismos que passaram por transformações marcantes quando abandonaram os oceanos. A truta-arco-íris do Lago Michigan, por exemplo, é descendente de antepassados de água salgada e adaptou-se à água doce em menos de 120 anos. Várias espécies de baleias e golfinhos também se adaptaram a habitats de água doce, como o boto-cor-de-rosa do rio Amazonas.

Porém, não existe um conjunto padrão de adaptações que permita a um animal mudar de água salgada para água doce, tornando esta alteração evolucionária ainda mais notável. Agora, com o caranguejo Cretaspara aparentemente retido no meio dessa transição, os cientistas têm uma nova janela para observar esse processo misterioso.

Embora os fósseis em âmbar ofereçam novas janelas para o passado, os cientistas estão a lidar com questões de ética nas suas investigações. Para além do dilema em torno do comércio de âmbar, o atual lar deste fóssil – o Museu de Âmbar de Longyin – fica muito longe de Myanmar, e os paleontólogos estão cada vez mais preocupados com a repatriação de fósseis que fazem parte do património histórico natural de um país.

Os investigadores referem que as leis de Myanmar sobre a exportação de fósseis envoltos em âmbar estão em conflito entre si. Numa carta enviada em junho à revista Nature Ecology and Evolution, Zin-Maung-Maugn-Thein, da Universidade de Mandalay, e Khin Zaw, da Universidade da Tasmânia, recomendam que os paleontólogos devem informar o governo ou as autoridades científicas de Myanmar quando fazem descobertas significativas em âmbar, para evitar que os fósseis importantes fiquem espalhados pelo mundo.

Na carta pode ler-se que, “ao fazer isso, não só os padrões de investigação científica irão melhorar no país, como o povo de Myanmar poderá compreender melhor a importância e o valor científico do seu próprio património natural, em vez de ficar desprovido desse património”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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