Sim, os cães podem ficar "contagiados" pelas emoções dos donos

Um conjunto de estudos realizados recentemente mostra como os caninos captam as pistas químicas e fisiológicas das pessoas, permitindo que o nosso estado de espírito se torne “contagioso”.

Publicado 11/10/2021, 12:02
Uma rapariga e o seu cão

Uma rapariga e o seu cão no Condado de Boone, no estado norte-americano de Virgínia Ocidental.

Fotografia de Stacy Kranitz

Os donos de cães sentem muitas vezes que os animais são bons a captar as suas emoções. Isto não é um produto da imaginação das pessoas. Os novos estudos mostram como as pistas comportamentais e químicas dos humanos podem afetar os cães de formas que lhes permitem não só distinguir entre medo, excitação ou raiva, mas também ficarem “contagiados” pelos sentimentos dos seus companheiros humanos.

Tal como os bebés humanos olham para os pais à procura de pistas sobre como devem reagir às pessoas e ao mundo que os rodeia, os cães olham muitas vezes para os humanos à procura de sinais semelhantes. Quando os donos de cães projetam sentimentos de calma e confiança, os cães tendem a ver o seu ambiente como seguro e protegido.

“A ligação emocional entre humanos e cães é essencial para a relação”, diz Clive Wynne, professor de psicologia e diretor do Departamento de Ciência Canina da Universidade do Arizona. “Os cães são seres incrivelmente sociais, por isso é que são facilmente contagiados pelo nosso calor e alegria.” Mas o inverso também é verdadeiro, o que significa que o stress e a ansiedade do dono também se podem tornar no stress e ansiedade do cão.

Este contágio emocional interespécies, como é denominado pelos psicólogos, tem uma base psicológica, uma base fisiológica e outra comportamental. Nos últimos anos, vários estudos têm demonstrado que a transmissão de emoções depende da libertação de determinadas hormonas (como a oxitocina), alterações no odor corporal dos humanos e na ativação de neurónios-chave nos cães e nas pessoas, incluindo também outros fatores fisiológicos.

As investigações mais recentes também mostram que os cães captam melhor as emoções dos seus donos consoante a duração da relação. Este fenómeno é particularmente notável agora, já que as pessoas e os seus companheiros caninos começaram a passar mais tempo juntos durante a pandemia.

Forma primitiva de empatia

Existe um espectro de ligação emocional entre as pessoas e os seus cães, um espectro que vai desde a capacidade de detetar e compreender os sentimentos uns dos outros até à partilha real das mesmas emoções.

Há estudos que mostram que os cães podem ficar contagiados pelos nossos bocejos, ou sentir um aumento nos níveis de cortisol quando ouvem um bebé a chorar – tal como acontece com os humanos – e responder ao tom emocional da nossa voz. As investigações também demonstram que, quando pessoas e cães interagem entre si ou se limitam a olhar nos olhos, tanto humanos como caninos sentem a libertação de oxitocina, a famosa “hormona do amor”, embora os efeitos desta hormona sejam mais complexos do que isso, visto que pode fomentar confiança e generosidade em algumas situações e inveja noutras.

“Quando se trata de criar laços, a libertação de oxitocina é estimulada pelo contacto visual ou pelo toque, como acontece quando fazemos festas aos animais, e funciona em ambos os sentidos – de cão para humano e de humano para cão; é como um ciclo de feedback”, explica Larry Young, professor de psiquiatria e diretor do Centro de Oxitocina e Cognição Social Silvio O. Conte da Universidade Emory. “Para haver um contágio emocional, o cão precisa de conseguir reconhecer as emoções do dono – isto requer atenção, algo que a oxitocina facilita. E também faz com que o cérebro se concentre nas pistas sociais.”

Os cães também têm “empatia afetiva” – a capacidade de compreender os sentimentos de outro ser – pelas pessoas que são importantes na sua vida. O contágio emocional é uma forma primitiva de empatia afetiva que reflete a capacidade de partilha real de sentimentos. Por exemplo, num estudo publicado em 2020 na Canadian Journal of Experimental Psychology, os investigadores examinaram as reações de cães quando os seus donos ou um estranho fingia rir ou chorar. Os cães prestavam mais atenção à pessoa que parecia estar a chorar, tanto através do contacto visual como físico. E, quando um estranho chorava, os cães apresentavam respostas de maior stress, explica Julia Meyers-Manor, coautora do estudo e professora-adjunta de psicologia na Faculdade de Ripon, no Wisconsin.

“Todas as formas de empatia têm algum elemento de emoções contagiosas”, explica Julia. “De certa forma, reconhecer a emoção de outra [criatura] é cognitivamente mais complexo, enquanto que sentir o que outro animal está a sentir é mais simples.”

Quando uma pessoa sente as emoções de outra, muitas vezes isso acontece porque durante uma conversa os humanos tendem naturalmente a imitar as expressões faciais, a postura e a linguagem corporal do seu companheiro, sem que estejam conscientemente cientes disso. Os movimentos musculares incrementais que estão envolvidos neste fenómeno desencadeiam uma sensação real no cérebro, fazendo com que os neurónios-espelho – células cerebrais que reagem quando uma ação particular, como sorrir, é realizada ou observada – fiquem ativos, evocando uma emoção como se estivéssemos a sentir isso naturalmente. Isto também acontece quando os cães interagem ou brincam com outros cães, e também pode acontecer quando os cães interagem com pessoas.

Julia diz que, quando cães e humanos estão zangados, os músculos faciais costumam ficar tensos, os dentes cerrados e o corpo tenso. Isto significa que quando estamos na presença de um cão zangado, ambos podemos inconscientemente espelhar as expressões faciais ou a linguagem corporal e acabar por sentir a mesma coisa. “Devido à ligação estreita que mantemos com os cães, evoluímos para detetar os sinais [emocionais] uns dos outros de formas que são diferentes do que acontece com outras espécies”, diz Julia.

Os investigadores presumiram durante muitos anos que, quando os cães ficavam domesticados, a possibilidade de contágio emocional servia como um mecanismo de sobrevivência – se os cães conseguissem ler e partilhar as emoções dos seus donos, seriam mais bem cuidados. Mais recentemente, esta linha de pensamento mudou. Um estudo publicado recentemente na Scientific Reports descobriu que os vínculos e experiências de vida entre cães e donos são os responsáveis pela libertação de oxitocina durante as interações. Para além disso, um estudo publicado em 2019 na Frontiers in Psychology descobriu que a abrangência deste contágio emocional entre humanos e respetivos companheiros caninos aumenta consoante o tempo que passam no mesmo ambiente.

Expressões faciais e odor corporal

Há fatores sensoriais que também podem influenciar o contágio emocional entre pessoas e cães. Por um lado, os cães têm uma capacidade notável de ler as expressões faciais e pistas corporais dos humanos. Apesar de algumas investigações revelarem que os cães se concentram mais nas expressões corporais do que nas pistas faciais em humanos e noutros cães, também há estudos que mostram que os cães processam as expressões faciais humanas da mesma forma que as pessoas o fazem. Um estudo publicado em 2018 na revista Learning & Behavior mostrava que os cães respondem aos rostos humanos que expressam seis emoções básicas – raiva, medo, felicidade, tristeza, surpresa e aversão – com alterações no olhar e frequência cardíaca.

“Sabemos que os cães e os humanos sincronizam o seu comportamento – os cães geralmente imitam os movimentos naturais dos seus donos – portanto, o facto de sincronizarem as suas emoções não é surpreendente”, diz Monique Udell, especialista em comportamento animal e professora-adjunta de ciências animais na Universidade de Oregon, em Corvallis. “Os cães observam-nos muito de perto – e parte disso baseia-se no nosso olhar e linguagem corporal, mas também nos sons que fazemos e nos odores que emitimos.”

Em termos auditivos, as investigações mostram que quando os cães ouvem expressões de angústia, como o choro, ou sons positivos, como o riso, respondem de uma forma diferente do que acontece com outras vocalizações ou sons não humanos. Quando são expostos a estes sons humanos, os cães têm mais propensão para olharem ou se aproximarem do seu dono ou da fonte de origem do som.

“Quando se trata do olfato, os cães são muito sensíveis ao odor corporal – é assim que conseguem detetar diabetes e possivelmente epilepsia [nas pessoas]”, diz Clive Wynne. Num estudo publicado em 2018 na Animal Cognition, os investigadores prepararam uma experiência na qual os cães das raças Labrador e Golden Retriever foram expostos a amostras de três odores corporais humanos – representando medo, felicidade e uma emoção neutra. Os cientistas induziram estas emoções específicas em participantes do sexo masculino e recolheram amostras de odor das suas axilas. Estes odores foram depois ventilados através de um dispensador especial num espaço onde os cães se podiam mover livremente na presença dos donos ou estranhos. Quando os cães foram expostos ao odor do medo, exibiram comportamentos mais stressantes e um batimento cardíaco mais elevado do que na presença de odores “felizes”; os cães também se interessaram mais pelos estranhos quando havia a presença de odores “felizes”.

“Quando os cães captam emoções humanas, muitas vezes usam sinais compostos que incluem informações vindas de diversos sentidos, incluindo visão, audição, olfato e talvez até através do toque, se alguém estiver nervoso”, diz Marc Bekoff, professor emérito de ecologia e biologia evolucionária na Universidade do Colorado, em Boulder, e autor de A Dog's World.

Mas é importante lembrar, acrescenta Marc, que nem todos os cães são exatamente iguais, quer seja de forma psicológica, fisiológica ou social. “Os cães são indivíduos e precisamos de os conhecer. Eu digo sempre às pessoas que precisam de ser fluentes em cães.” Marc refere que os donos de cães devem estar atentos ao que os seus cães estão a tentar comunicar com os latidos ou outras vocalizações, incluindo a linguagem facial e corporal.

Um efeito bidirecional?

Em geral, o espectro de emoções que os cães sentem é provavelmente mais limitado do que aquele que a maioria dos humanos sente. “Não creio que as emoções dos cães sejam muito complexas”, diz Clive Wynne. “Os cães sentem emoções primitivas, incluindo as mais acolhedoras, como felicidade e excitação, e as mais desafiantes, como medo e ansiedade.” Tudo o que for para além disso é uma incógnita, e um dos desafios em fazer este tipo de investigação prende-se com o facto de os cães não conseguirem dizer exatamente como é que se estão a sentir num determinado momento.

Também não se sabe se os humanos podem ficar contagiados pelas emoções dos seus cães porque os estudos não analisaram essa questão, embora alguns especialistas acreditem que seja bastante provável. “Eu sinto realmente que a felicidade do meu cão pode melhorar o meu estado de espírito”, diz Clive Wynne, autor de Dog Is Love. Marc Bekoff concorda: “Acho que também ficamos contagiados pelas suas emoções. Por vezes é mais fácil captar o medo e o stress. Por outro lado, os cães felizes também são mais fáceis de ler se correrem na nossa direção com o rabo a abanar e as orelhas viradas para a frente, e não para trás.”

Independentemente de terem cães ou não, as pessoas são muito capacitadas na identificação de emoções positivas ou negativas através das expressões faciais dos cães, em parte porque as mudanças nas expressões faciais que expressam estados emocionais específicos são partilhadas por ambas as espécies, segundo as investigações.

“Um dos exemplos que sugere que a tensão e o stress podem ser contagiosos em ambas as direções envolve a reação à coleira: se o cão costuma latir, rosnar ou enfrentar outros cães, pessoas ou carros quando o levamos pela coleira, podemos ficar envergonhados ou stressados, podendo ficar tensos e exacerbar o medo e a ansiedade do nosso cão. Isto, por sua vez, pode ser um gatilho para o cão fazer o mesmo novamente”, diz Monique Udell, podendo levar a um ciclo infeliz.

Ainda assim, partilhar os altos e baixos emocionais uns dos outros tende a ser uma coisa benéfica porque ajuda a criar uma ligação mais profunda e também tem valor de sobrevivência. “Se pensarmos nos nossos antepassados, havia momentos de vida ou morte para os quais os nossos cães nos podiam alertar, para podermos agir rapidamente”, diz Clive. “Em termos de alarme, esta via de dois sentidos é mutuamente vantajosa para ambas [as espécies].”

Partilhar um lar, uma vida, uma família e as atividades contribui para a vitalidade dos laços entre humanos e caninos. “A partilha de sentimentos com os animais ajuda-nos a compreender melhor uns aos outros e facilita o vínculo que se desenvolve e a forma como é mantido ao longo do tempo”, diz Marc Bekoff. “Quando cães e humanos partilham emoções, é como se fosse uma espécie de cola social.” É algo que atua como um forte adesivo que nos une – muitas vezes para toda a vida.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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