As taxas de infeções sexualmente transmissíveis podem estar a aumentar durante a pandemia

Os especialistas alertam que as doenças como a clamídia, gonorreia e sífilis parecem estar a aumentar, mas os testes de rotina têm sido adiados devido à escassez de pessoal e material.

Por Jillian Kramer
Publicado 27/01/2022, 12:33
Bactéria Neisseria gonorrhoeae

Esta imagem colorida de micrografia eletrónica mostra a bactéria Neisseria gonorrhoeae, que provoca a gonorreia.

Fotografia por INSTITUTO NACIONAL DE ALERGIAS E DOENÇAS INFECIOSAS, INSTITUTOS NACIONAIS DE SAÚDE DOS EUA

As ordens de confinamento, juntamente com o receio de exposição à COVID-19, mantiveram muitas pessoas fechadas em casa e longe de parceiros desconhecidos durante grande parte de 2020. Contudo, numa reviravolta inesperada, os especialistas alertam para um provável – e alarmante – aumento de casos nas infeções sexualmente transmissíveis nos Estados Unidos.

A grande preocupação é a de que, nos últimos dois anos, a pandemia tenha dificultado os esforços de testagem para doenças como a clamídia, gonorreia e sífilis. Os testes são uma parte crítica para controlar a propagação destes tipos de infeções, em parte porque tanto a clamídia como a gonorreia podem surgir inicialmente sem sintomas.

Entre 2015 e 2019, os casos documentados destas três doenças aumentaram 30%. Porém, de 2019 a 2020, os dados dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA sugerem que os casos de clamídia caíram 14%, ao passo que os casos de estágios primários e secundários de sífilis sofreram um declínio moderado de 0.9%. Mas os especialistas dizem agora que esta descida não representa a realidade e que o número de casos está a descer porque simplesmente não há testagem.

Embora os números de casos de doenças sexualmente transmissíveis (DST) de 2021 ainda estejam a ser recolhidos, há sinais preocupantes; os relatórios preliminares mostram que os casos de gonorreia aumentaram e os CDC informam que foram registados mais casos de bebés com sífilis em 2020 do que em 2019.

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Casey Pinto, professora assistente de saúde pública na Universidade da Pensilvânia, liderou um estudo em maio de 2020 que mostrava que, à medida que as taxas de casos de COVID-19 aumentavam por todo o país, o número de testes administrados para as infeções sexualmente transmissíveis caíam drasticamente. Em abril de 2020, em Nova Iorque, por exemplo, a taxa de pessoas com testes feitos para a COVID-19 já tinha subido mais de 25%, enquanto que as taxas de testagem para as infeções sexualmente transmissíveis (IST) tinham caído mais de 75%.

“É implausível – completamente implausível – que tivéssemos uma descida tão grande nas DST por causa da COVID-19”, diz Julie Dombrowski, professora assistente de medicina e epidemiologia na Universidade de Washington e vice-diretora dos Programas HIV/DST dos condados de Seattle e King.

Devido à sobrecarga da pandemia, muitas clínicas por todo o país também deram prioridade aos pacientes sintomáticos. “Foi muito angustiante tomar essa decisão”, diz Julie Dombrowski. Se não forem tratadas, as doenças sexualmente transmissíveis podem ter consequências terríveis, incluindo infertilidade, cegueira e até morte. Algumas infeções não tratadas também podem ser um fator de risco para a exposição ao HIV, de acordo com os CDC, porque uma ferida com pus ou inflamação pode absorver o vírus.

De facto, à medida que muitos profissionais de saúde classificam os seus próprios dados, verificam-se aumentos nos casos de DST. “Estamos a observar mais casos positivos do que o normal”, diz Barbara Van Der Pol, professora assistente de medicina e saúde pública na Universidade do Alabama, em Birmingham, e diretora do Laboratório de Diagnóstico de DST da universidade.

A incerteza em torno dos números é particularmente preocupante, porque pode contribuir para uma propagação silenciosa. A gonorreia é assintomática para a maioria das mulheres que a contraem. A clamídia, que é a DST bacteriana geralmente mais relatada nos EUA, é assintomática em até 50% dos homens e 80% das mulheres. A sensação de ardor ao urinar é um sintoma comum para ambas as infeções, mas a ausência de testagem adequada pode levar a um diagnóstico errado que aponta para uma infeção do trato urinário, diz Casey Pinto.

“Cada caso desconhecido, cada pessoa assintomática, é uma pessoa que pensa que não está infetada – pelo que está disposta a correr o mesmo risco que já corria antes.”

As razões para a descida nos testes positivos de IST

Nos primeiros meses da pandemia, muitas das clínicas que normalmente examinam doenças sexualmente transmissíveis acabaram por encerrar e os seus funcionários foram desviados para ajudar nas testagens de coronavírus e no rastreio de contactos. Em maio de 2020, a Coligação Nacional de Diretores de DST – uma organização de saúde pública dos EUA com parceiros em todos os 50 estados – informou que 83% dos programas de DST nos EUA estavam a adiar os seus serviços e que 66% tinham reduzido os testes. De acordo com estes dados, em agosto de 2020, um em cada cinco programas de DST tinham sido “completamente interrompidos”.

Muitos dos funcionários do Programa HIV/DST dos condados de Seattle e King foram desviados para dar resposta à COVID-19, diz Julie Dombrowski. “Desta forma, tal como aconteceu em muitos departamentos de saúde e clínicas por todo o país, eles priorizaram imediatamente os pacientes que apresentavam sintomas ou que precisavam de tratamento imediato.” E pouco depois as clínicas pararam de rastrear todos os pacientes assintomáticos. Em abril de 2019, as clínicas de saúde sexual destes condados atenderam 990 pacientes; um ano depois, só receberam 399.

Amanda Cary, enfermeira e diretora do departamento de saúde sexual do centro Whitman-Walker, em Washington D.C., costumava ver as salas de espera cheias de pessoas que queriam fazer exames de rotina ou urgentes. Mas a pandemia obrigou o centro a acabar com a sua política de entrada livre, diz Amanda Cary. De acordo com os dados fornecidos pelo centro, em 2020 registou-se uma redução cumulativa de 43% nos testes de clamídia, gonorreia e sífilis em comparação com 2019.

Outro dos desafios enfrentados pelas clínicas tem sido a escassez de testes. Numa sondagem sobre os departamentos de saúde focados em DST, os CDC relatam que em abril de 2020 cerca de 51% dos entrevistados não tinham testes disponíveis para a gonorreia e clamídia. Os CDC recolheram entrevistas adicionais até janeiro de 2021, quando 38% disseram que não havia testes disponíveis suficientes.

Os testes de COVID-19 usam muitos dos mesmos materiais que os testes para as infeções sexualmente transmissíveis, diz Barbara Van Der Pol. “As zaragatoas que usamos para as mulheres recolherem as suas próprias amostras – são exatamente as mesmas que estão a ser usados nos testes nasais para a COVID-19.”

Os laboratórios que analisam os resultados dos testes também foram desviados para responder à COVID-19, trocando os testes de rotina de infeções sexualmente transmissíveis pelos testes PCR e de antigénio que detetam o coronavírus. Anualmente, o Laboratório de Diagnóstico de DST da Universidade do Alabama realiza aproximadamente 20.000 testes de DST, diz Barbara Van Der Pol. “Mas em 2020, o meu laboratório duplicou o seu volume de trabalho – e não fizemos quaisquer testes para detetar infeções sexualmente transmissíveis.”

A preocupação dos especialistas

Atualmente, as clínicas e os laboratórios estão lentamente a regressar às práticas de testagem praticadas pré-pandemia, com muitos – se não a maioria – a retomarem os testes de rotina e algumas clínicas a receberem novamente pacientes sem marcação antecipada. As clínicas e os laboratórios mencionados neste artigo informam que estão a operar a cerca de 70% a 80% da sua capacidade normal. (Mas o trabalho é tudo menos normal. Barbara Van Der Pol afirma que continua a ser difícil obter alguns dos materiais de laboratório mais básicos, como lixívia e luvas.)

Contudo, muitos especialistas receiam que os danos já tenham sido feitos. O estudo liderado por Casey Pinto revela que podem existir mais de 150.000 casos de DST desconhecidos até julho de 2020.

O centro Whitman-Walker diz que no ano de 2019 a sua taxa de clamídia e gonorreia ficou nos 11.7%, mas novembro de 2021 esta taxa já tinha atingido os 11.2% –   provavelmente um valor abaixo da realidade, porque os testes rondam os 80% da sua capacidade pré-pandemia. Estes números são mais dramáticos para a sífilis, que passou dos 14.2% registados em 2019 para os 16.5% em 2020.

No Centro LGBT de Los Angeles, que fornece testes para as DST e o HIV, a epidemiologista Nicole Cunningham diz que, após uma descida inicial nos casos de cada uma das infeções para as quais faz testagens, o centro está agora a registar picos em todas as doenças. Em junho de 2021, este centro estava a fazer testagens com a mesma frequência com que fazia em 2019, mas entre junho e outubro os casos cumulativos de gonorreia aumentaram 23.8% em comparação com o período homólogo de 2019, diz Nicole Cunningham.

No entanto, devido aos efeitos da pandemia, os valores reais são difíceis de contabilizar. Será que o aumento de casos se deve aos testes que, em circunstâncias normais, teriam sido processados em 2020? Ou será que este aumento representa a verdadeira prevalência – ou um aumento na disseminação real destas doenças?

“Continua a ser difícil compreender exatamente o que está a acontecer com os casos de DST”, diz Julie Dombrowski. “Como os casos estavam a aumentar todos os anos antes da COVID-19, provavelmente essa tendência teria continuado se não fosse a pandemia. Por outro lado, a redução no número de testes e os casos assintomáticos que não foram detetados podem levar a um aumento na disseminação destas doenças.” Julie acrescenta que os especialistas esperam observar um grande aumento nas doenças sexualmente transmissíveis durante os próximos meses.

Casey Pinto também está preocupada com o facto de as pessoas continuarem a adiar consultas de rotina porque estão preocupadas com a COVID-19, ou que essas consultas tenham caído no esquecimento porque as pessoas já passaram meses sem ir ao médico.

“Esta pandemia alterou a vida de todos”, diz Casey. “Acredito que isto não vai ficar por aqui e que a nossa linha de base [de casos de DST] vai acabar por ser muito maior.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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