"Todos os detalhes desta operação foram aterrorizantes." O documentário The First Wave é chocante – e essencial.

Em março de 2020, o cineasta nomeado ao Óscar Matthew Heineman estava à procura de um hospital para documentar os estágios iniciais da pandemia de COVID-19. Depois, quando os casos aumentaram em Nova Iorque, o cineasta deu por si no meio da tempestade.

Por Simon Ingram
Publicado 17/01/2022, 13:25
Ahmed Ellis, um paciente de 36 anos com COVID-19

Ahmed Ellis, um paciente de 36 anos com COVID-19, está sedado e ligado a um ventilador no Centro Médico Judaico de Long Island, em Nova Iorque, em março de 2020. A história de Ahmed Eliis é uma das várias acompanhadas pelo documentário visceral de Matthew Heineman, The First Wave.

Fotografia por

O CAOS de uma tentativa de reanimação. A cena está repleta de fios, sons de alarme e vozes urgentes no meio de um rodopiar de uniformes amarelo fluorescente e plástico translúcido – sempre com um som de alarme a indicar paragem cardíaca. Ao centro da imagem testemunhamos a violência rítmica de um médico a fazer compressões torácicas. Depois, com o passar do tempo, nota-se uma mudança. Um abrandamento. Por fim, alguém assinala as horas. Os médicos assistentes, visivelmente cansados, formam repentinamente um círculo e ficam em silêncio durante um minuto. Entre o vestuário médico só se vê os olhos. É o suficiente.

Estamos em março de 2020 e os casos de COVID-19 estão a surgir rapidamente na Unidade de Cuidados Intensivos do Centro Médico Judaico de Long Island, em Nova Iorque. Estes pacientes são os primeiros de uma doença que iria devastar a cidade de várias formas. As imagens de ruas desertas tão cedo na pandemia – ruas famosas que são sinónimo de atividade frenética – enviaram um sinal assustador de que algo sem precedentes estava a acontecer na era moderna.

“Estávamos a passar pela mesma coisa que estávamos a documentar”, diz Matthew Heineman, realizador do documentário The First Wave.

Fotografia por Michael Ori

No interior do hospital, o cineasta Matthew Heineman e a sua equipa estavam a filmar as primeiras cenas de The First Wave, um novo documentário da National Geographic que acompanha uma equipa de profissionais de saúde durante o primeiro surto de COVID-19 na cidade de Nova Iorque.

Frustrado pelo “tsunami” de desinformação e estatísticas sem quaisquer imagens da crise, Matthew Heineman negociou um raro acesso ao hospital perto de sua casa – porque considerava que era uma obrigação dar um rosto humano a esta crise. Naquele momento, nem o cineasta nem ninguém sabia o que estava por vir.

“Não fazíamos ideia”, diz Matthew Heineman à National Geographic a partir do seu escritório em Nova Iorque. “Nós pensámos ingenuamente que isto ia durar uma ou duas semanas, e que depois passava. Como é óbvio, a nossa produção arrastou-se ao longo de meses e ainda estamos a conviver com o vírus atualmente. Não sabemos onde é que esta história vai terminar.”

No documentário, viajamos no tempo – mas não muito – até à linha da frente médica de uma guerra contra um vírus ainda misterioso, sem vacinas, sem informações e sem respostas na luta contra uma doença que iria matar mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo – e que ainda não terminou. Este documentário exibe uma intimidade surpreendente, testemunhando um pequeno grupo de médicos e pacientes durante o período mais assustador das suas vidas.

Um dos aspetos inquietantes do documentário é a sua estranha falta de familiaridade. O que vemos no ecrã foi provocado pela mesma doença que todos conhecemos agora – mas que poucos testemunharam desta forma.

Um ‘documento de registo’

“Eu sabia que [os jornalistas] não tinham o mesmo acesso que eu tinha”, diz Matthew Heineman. “Senti realmente uma enorme responsabilidade por ter este tipo de acesso e não queria estragar isso. Eu não sabia se o filme ia ser bom, se as pessoas o iam querer ver… mas senti sempre que este seria um dos documentos de registo sobre o que estava a acontecer. Com todos os altos e baixos que isso acarreta.”

O documentário The First Wave acompanha profissionais de saúde e pacientes no Centro Médico Judaico de Long Island, em Queens, na cidade de Nova Iorque, durante a primeira vaga catastrófica de COVID-19.

Fotografia por

Ahmed Ellis, paciente com a chamada COVID longa, recebe a visita da sua esposa Alexis no seu aniversário. Ahmed Ellis não consegue falar com Alexis, mas recebe atualizações sobre as suas duas filhas pequenas.

Fotografia por

Rapidamente ficaria evidente que Nova Iorque se tinha transformado num campo de batalha contra a COVID-19. Uma cidade tão habituada a ser o centro das atenções da imprensa rapidamente se tornou no epicentro do seu próprio pesadelo.

Nos noticiários, cenas aparentemente retiradas de filmes de ficção científica e livros de história desenrolavam-se sob o olhar de um mundo ainda envolto em incerteza: uma cidade insular em confinamento, relatos de hospitais cheios de pacientes e morgues lotadas com doentes mortos, e a visão arrepiante de valas comuns a serem cavadas por trabalhadores em fatos de proteção e máscaras. Os políticos apelavam à calma enquanto os médicos gritavam por ajuda – com pacientes a chegaram ao hospital quando não havia capacidade ou conhecimento para lidar com o que estava a acontecer. Porém, eram poucas as imagens no interior dos hospitais que chegavam aos olhos do público.

Habituado a situações de risco, o realizador nomeado para o Óscar – cujos filmes incluem os aclamados City of Ghosts, A Private War e Cartel Land – tinha acabado de entrar num tipo muito diferente de conflito.

Em março de 2020, em Nova Iorque, Times Square estava praticamente deserta e os painéis que normalmente exibem publicidade mostravam mensagens de agradecimento aos profissionais de saúde na linha de frente.

Fotografia por Stephen Wilkes, National Geographic Image Collection

“Existe uma razão pela qual as pessoas vão para as zonas de guerra, uma razão para vermos imagens vindas do Vietname, Iraque ou Afeganistão – informam a opinião pública”, diz Matthew Heineman. “[Com a COVID-19], não estávamos a ver essas imagens… não sabíamos o que estava a acontecer no interior dos hospitais. Não estávamos visceralmente ligados a este tópico. Foi isso que permitiu a propagação de muita desinformação.” (Relacionado: Um guia para lidar com a desinformação em torno da COVID-19.)

“Uma das maiores tragédias da COVID é ter-se tornado demasiado politizada. Pelo menos nos EUA, dividiu ainda mais um país que já estava dividido”, acrescenta Matthew Heineman.

Quatro meses de caos

O documentário acompanha a Dra. Nathalie Dougé e a sua equipa enquanto cuidam de pacientes internados com COVID-19 – muitos ligados a ventiladores e a lidar com a forma mais grave da doença. Entre estes pacientes, há dois que se destacam em particular – ambos jovens, negros e trabalhadores na linha de frente, e ambos muito doentes: Bruxelas Jabon, uma enfermeira filipino-americana que teve um parto de emergência através de cesariana antes de ser ligada um ventilador, e Ahmed Ellis, um polícia negro de 36 anos, que foi atingido por um caso grave de COVID-19. Ao longo da jornada destes pacientes, a câmara de Matthew Heineman capta os altos e baixos da equipa de cuidados intensivos – num sistema de saúde perto da rutura. Depois, no dia 25 de maio, George Floyd foi assassinado.

“No início de março, se me dissessem que este filme iria incluir protestos contra o racismo sistémico, eu diria que isso não fazia sentido e que não fazia parte desta história”, diz Matthew Heineman, referindo-se à agitação vivida nos Estados Unidos e no resto mundo, enquanto a sua equipa ainda estava a trabalhar. “Mas foi exatamente esse o rumo que isto tudo levou. Creio que o documentário vai muito além da COVID.”

A maioria dos pacientes apresentados em The First Wave são pessoas de cor – as minorias mais vulneráveis à COVID-19 que compõem grande parte dos cargos na linha da frente, ou que estão sujeitos a baixos rendimentos, ficando assim muito mais expostos à doença – e em desvantagem na luta contra a mesma.

“Imagine passar a carreira inteira a estudar o corpo humano, a tratar o corpo humano, e depois tudo o que aprendeu vai pela janela.”

MATTHEW HEINEMAN

A morte de George Floyd foi um ponto de inflexão que teve repercussões por toda a cidade. The First Wave capta em primeira mão a ferocidade da revolta – e a resposta da polícia – nas ruas de Nova Iorque.

Em junho, a Dra. Nathalie Dougé, também ela filha de imigrantes haitianos, participou num protesto de profissionais de saúde – e no documentário testemunhamos o impacto da exaustão de meses de luta contra a pandemia em Nathalie Dougé. A determinada altura – com uma máscara cirúrgica estampada com uma frase agora tragicamente multifacetada que diz “não consigo respirar” – Nathalie Dougé diz: “Com a COVID, trabalhamos arduamente para tentar preservar a vida humana… e ver este desrespeito descarado pela vida... foi a gota de água para mim.” Momentos depois, a câmara regista Nathalie Dougé a serenar uma possível luta entre um cordão policial e um manifestante negro muito emocionado, que mais tarde iria colapsar nos seus braços em lágrimas.

“Acho que conheci a Nathalie [Dougé] nos primeiros dias de filmagens no hospital”, recorda Matthew Heineman. “Ela tinha uma personalidade eletrizante e era profundamente empática nas filmagens, e profundamente empática com os seus pacientes. A Nathalie partilhou alguns momentos incrivelmente íntimos da sua vida, no momento mais difícil da sua vida. Eu não fazia ideia de qual seria o rumo da sua história.”

"Com a COVID, trabalhamos arduamente para tentar preservar a vida humana… e ver este desrespeito descarado pela vida... foi a gota de água para mim”, diz a Dra. Nathalie Dougé, que participou num protesto do movimento Black Lives Matter em Nova Iorque, em maio de 2021.

Fotografia por

Confiança durante um pesadelo

É este tipo de imersão que torna o documentário The First Wave tão poderoso. Somos colocados na ação enquanto pessoas lutam pela vida – algumas são salvas e outras morrem. E também vemos como os médicos se mentalizam no início de um turno que pode ser o pior das suas vidas, e lutam contra um caleidoscópio de emoções complexas – que vão desde raiva, medo e desespero. As câmaras, que nunca são reconhecidas, perfuram um véu de vulnerabilidade que raramente é observado numa profissão onde os heróis são reais, mas também são pessoas. (Relacionado: As mulheres estão na linha da frente na luta contra a COVID-19.)

“Tivemos momentos em que sentimos definitivamente que não devíamos estar ali. Mas era exatamente por isso que estávamos lá”, diz Matthew Heineman. “Testemunhámos momentos profundamente perturbadores, extremamente íntimos. E é por isso que a confiança entre os participantes é tão importante. Eles deram a sua autorização para estarmos ali, chegando a um ponto em que nos tornamos parte do tecido das suas vidas diárias.”

Contudo, estas vidas quotidianas envolviam um número crescente de momentos de vida ou morte. “Passámos muito tempo com a equipa de resposta rápida, a equipa de enfermeiros especialista em cuidados intensivos que circula quando as pessoas estão [em paragem cardiorrespiratória]. Por vezes, havia dezenas de eventos destes por dia, e só havia aquela equipa de enfermeiros para lidar com a situação. Percebo que eles estão habituados a ver pessoas a morrer nos hospitais, mas este volume e frequência não tinham precedentes.”

A captação destes momentos apresentou desafios práticos substanciais para a equipa de filmagens – num conflito onde o inimigo era mais insidioso do que qualquer insurgente humano. “É um inimigo invisível. Quando estamos numa zona de guerra, há momentos realmente aterrorizantes, mas há sobretudo muito tédio pelo meio. Porém, neste caso, nunca houve um segundo em que pudéssemos baixar a guarda. Todos os detalhes desta operação foram aterrorizantes”, diz Matthew Heineman, referindo-se ao cenário vivido entre médicos, pacientes e cineastas, enquanto passavam juntos por esta experiência, embora de maneiras diferentes.

“Para os médicos, o receio era imenso. E os traumas também. Existia obviamente o medo de contrair o vírus; e o receio de infetarem os seus entes queridos. Depois, também existia o receio de não conseguirem fazer o seu trabalho. Imagine passar a carreira inteira a estudar o corpo humano, a tratar o corpo humano, e depois tudo o que aprendeu vai pela janela.”

No documentário, médicos e enfermeiros são vistos a comunicar uns com os outros e com as famílias dos pacientes através de iPads envoltos em plástico; segurando os aparelhos para quem está em casa a ver os seus entes queridos e agindo como uma espécie de intermediário tecnológico entre uma família e um paciente – em momentos que podem ser finais para o doente. Um dos médicos chega a mostrar a sua frustração porque estes dispositivos, que subitamente se tornaram críticos, ficavam sem bateria – e todos tinham medo de partilhar os carregadores com receio de uma contaminação cruzada.

“Esse é um dos aspetos mais insidiosos desta doença, o isolamento ao qual obriga”, diz Matthew Heineman. “Isolamento para cuidadores, médicos e enfermeiros, e mais importante para os membros das famílias dos pacientes – que tinham de tomar decisões através de dispositivos e não podiam estar lá com os seus entes queridos nos seus momentos finais.”

Triunfo do espírito humano

Nos estágios iniciais da pandemia, com poucas informações em definitivo sobre a disseminação do SARS-Cov-2, a equipa de filmagens – assim como os médicos – teve de tomar todas as precauções, mas havia poucos equipamentos de proteção pessoal e sem quaisquer garantias de segurança.

Todos os movimentos, desde pousar a câmara por breves momentos, ir à casa de banho, colocar um microfone em alguém, comer e até esfregar os olhos cansados, eram potenciais fontes de contágio. “A última coisa que queríamos fazer era infetar a nossa equipa, mas pior do que isso seria espalhar o vírus entre as pessoas que estávamos a filmar. Contudo, em março, a ciência ainda estava a tentar acompanhar o que estava a acontecer. Agora já temos medidas preventivas, vacinas, tratamentos... naquele momento, não tínhamos as ferramentas necessárias para lidar com isto. Todos nós perdemos cerca de 80 camadas de pele só a higienizar as mãos. E os equipamentos de proteção pessoal ainda eram muito escassos.”

“Usámos vestuário médico e uma máscara n95, que tivemos de reutilizar com uma máscara cirúrgica por cima, tal como os médicos e enfermeiros faziam, porque queríamos passar o mais despercebidos possível.” Porém, ao final do dia, o tema das filmagens continuava.

“Numa filmagem normal para um documentário, terminamos o dia, entramos no carro, ligamos o rádio e seguimos com a nossa vida. Mas devido ao processo de descontaminação e limpeza dos equipamentos, passavam-se pelo menos três, quatro ou cinco horas desde a última filmagem até podermos ‘relaxar’. Mas depois estávamos a viver a mesma coisa que estávamos a documentar... a desinfetar as nossas compras, a descobrir como conseguir comida, papel higiénico e etc. E claro, depois de passarmos 12 horas num hospital, não conseguimos desligar.”

“Foi de longe o filme mais difícil que realizei até agora – não só ao nível emocional, como em termos de logística e físicos”, diz Matthew Heineman. “Mas o sentimento avassalador que tive foi realmente inspirado pelo poder do espírito humano.”

“Se eu tivesse de resumir o documentário, diria que é sobre a forma como os humanos se unem perante um cenário de crise. Foi uma coisa muito, muito bonita de testemunhar. E foi isso que nos alimentou todos os dias para continuar a fazer este filme.”

The First Wave estreia em exclusivo no Disney+ no dia 28 de janeiro.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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