As superbactérias já estavam a aumentar – e a pandemia pode ter piorado as coisas

A COVID-19 é provocada por um vírus, mas muitos médicos continuam a prescrever antibióticos desnecessários que visam bactérias.

Nesta imagem vemos oito colónias bacterianas, cada uma formada por um patógeno diferente, que desenvolveram resistência a antibióticos e provocaram infeções hospitalares.

Fotografia por SCOTT CHIMILESKI, MICROBEPHOTOGRAPHY.COM, E ROBERTO KOLTER, ESCOLA DE MEDICINA DE HARVARD
Publicado 2/02/2022, 11:48 , Atualizado 4/02/2022, 11:30

Os especialistas em saúde pública estão preocupados porque o uso indevido e excessivo de antibióticos durante a pandemia pode exacerbar outra crise em andamento: a resistência a antibióticos, onde patógenos como bactérias e fungos evoluem para evitar os fortes medicamentos que são concebidos para os destruir.

Anualmente morrem mais de 750.000 pessoas devido a infeções resistentes a antibióticos, e este número pode chegar aos 10 milhões em 2050. Nos Estados Unidos, os micróbios resistentes a antibióticos já provocam anualmente mais de 2.8 milhões de infeções e mais de 35.000 mortes.

Agora, o uso excessivo de antibióticos durante a pandemia de COVID-19 pode estar a agravar o problema. Nos primeiros meses da pandemia, quando os pacientes com COVID-19 começaram a aparecer com tosse, febre, falta de ar e as radiografias torácicas começaram a revelar manchas brancas – uma inflamação pulmonar semelhante à pneumonia bacteriana – muitos receberam uma prescrição de antibióticos. Nos EUA, por exemplo, mais de metade dos quase 5.000 pacientes hospitalizados entre fevereiro e julho de 2020 receberam pelo menos um antibiótico nas primeiras 48 horas de hospitalização.

“Quando lidamos com a incerteza, temos tendência para favorecer a prescrição de antibióticos, o que não é necessariamente o mais correto a fazer”, diz Jacqueline Bork, médica de doenças infeciosas do Centro Médico da Universidade de Maryland.

Os antibióticos só matam bactérias e não vírus como o SARS-CoV-2, que provoca a COVID-19. Mas uma pneumonia pode ser provocada por fungos, bactérias ou vírus, e descobrir qual é o patógeno responsável pode levar pelo menos 48 horas e, por vezes, incluir procedimentos invasivos para confirmar a origem da infeção. Os testes nem sempre identificam a causa. “Muitos de nós médicos provavelmente estávamos  a prescrever uma boa quantidade de antibióticos. Mas sem compreendermos a fundo aquilo com que estávamos a lidar, fizemos apenas o melhor que era possível naquele momento”, diz Jacqueline Bork.

Alguns médicos também estavam preocupados com a ocorrência de uma infeção fúngica ou bacteriana durante ou após a COVID-19, semelhante ao observado com a gripe e em outras doenças virais. “Ao início, havia tantas pessoas a entrar com pneumonia que nem conseguíamos testar se a infeção era viral ou bacteriana”, diz Jacqueline.

À medida que Jacqueline e outros médicos pelo mundo inteiro começaram a descobrir que a coinfeção fúngica e bacteriana ocorria em menos de 20% dos pacientes com COVID-19, alguns médicos começaram a reduzir a utilização de antibióticos. Mas para os pacientes que estavam gravemente doentes e que ficaram mais tempo hospitalizados – muitas vezes ligados a ventiladores e com cateteres, que podem provocar infeções bacterianas que resultam em sépsis – os antibióticos eram necessários.

Ainda assim, em muitas partes do mundo, os médicos continuaram a prescrever antibióticos a pacientes com COVID-19 que podiam não necessitar dos mesmos. Quando os pacientes não podiam consultar os médicos, recorriam à automedicação com antibióticos, por vezes até como medida preventiva. Os custos e as dificuldades de acesso a testes de diagnóstico que confirmassem se uma infeção era bacteriana e, consequentemente, necessitava de antibióticos, podem ter levado alguns médicos menos informados a prescrever o uso excessivo e indevido de antibióticos durante a pandemia.

Como se desenvolve a resistência antimicrobiana

Na natureza, os fungos e bactérias que vivem no solo produzem substâncias químicas chamadas antibióticos que matam ou inibem o crescimento de outras bactérias que lutam pelos mesmos recursos limitados. Ao longo do tempo, os alvos adaptam-se e desenvolvem uma resistência contra essas substâncias. E fazem-no ao produzir proteínas chamadas enzimas que inativam o antibiótico, drenando o efeito das células bacterianas, restringindo a entrada do antibiótico ou ignorando os seus efeitos. Por vezes, outras espécies bacterianas que não eram o alvo original dos antibióticos também podem desenvolver defesas adquirindo genes relevantes das bactérias resistentes circundantes através de um processo chamado transferência horizontal de genes.

Os cientistas também usam antibióticos naturais como base para desenvolver medicamentos comerciais que combatem infeções bacterianas em humanos e animais. Mas é provável que algumas destas bactérias originárias da água e do solo já tenham adquirido genes que lhes confiram resistência.

Inicialmente, estes tipos de bactérias resistentes formam uma pequena proporção da população bacteriana no corpo do hospedeiro, mas isso muda consoante o uso de antibióticos aumenta. O medicamento destrói as bactérias suscetíveis, eliminando assim a competição e permitindo a rápida reprodução dos micróbios resistentes. Para além disso, a administração de doses incorretas de antibióticos ou a sua utilização indevida – usados por exemplo na doença errada – pode destruir as bactérias benéficas que temos nos nossos corpos e estimular o estabelecimento das chamadas superbactérias resistentes a vários antibióticos.

Estas bactérias resistentes a medicamentos podem propagar-se no interior de hospitais, nas comunidades, e nas quintas de criação de animais através dos esgotos, de água contaminada, superfícies e alimentos – ou por contacto direto. Com cada vez mais pessoas a hospedarem superbactérias e os antibióticos atuais a tornarem-se cada vez mais ineficazes, isto pode significar hospitalizações prolongadas, custos médicos mais elevados e uma subida no número de mortes. Este fator é particularmente preocupante para os países de baixo e médio rendimento que são desproporcionalmente impactados devido ao acesso limitado que têm a água potável e saneamento, aos serviços de saúde qualificados e o acesso sem receita a antibióticos genéricos, algo que pode incentivar a automedicação quando as consultas são caras.

Como a COVID-19 pode exacerbar as infeções resistentes a medicamentos

Numa sondagem global realizada pela Organização Mundial de Saúde no final de 2020, 35 de 56 países registaram um aumento na prescrição de antibióticos durante a pandemia. Num dos países, os médicos prescreveram antibióticos para quase todos os casos de COVID-19, e outro país registou uma automedicação desenfreada.

Os antibióticos prescritos pelos médicos aos pacientes hospitalizados com COVID-19 incluem azitromicina, doxiciclina, fluoroquinolonas, cefalosporina e carbapenemas. Os médicos também costumam usar antibióticos que têm um espectro amplo, ou que destroem vários tipos de bactérias, incluindo as que são benéficas, embora vários estudos sugiram que as taxas de coinfeção bacteriana ou fúngica, ou infeção secundária, sejam inferiores a 20% entre os pacientes com COVID-19. Os pacientes ambulatoriais, que muitas vezes têm sintomas ligeiros de COVID-19, também receberam uma prescrição preventiva de antibióticos, como azitromicina e doxiciclina.

Nos primeiros dias da pandemia, alguns estudos recomendavam o uso de azitromicina e doxiciclina devido às suas potenciais propriedades antivirais e anti-inflamatórias que podem ajudar a acalmar a hiperatividade do sistema imunitário de um paciente com COVID-19 quando este começa a destruir as suas próprias células. Mas os trabalhos de investigação mais recentes não encontraram benefícios reais.

“Há muitos pacientes com COVID-19 que me procuram para obter uma segunda opinião, e atualmente continuo a ver a azitromicina nas suas prescrições”, diz Lancelot Pinto, pneumologista do Hospital P.D. Hinduja em Mumbai, na Índia. “Talvez a justificação seja a possibilidade de uma infeção bacteriana e, portanto, é melhor cobrir isso, mas acho que muitos médicos [na Índia] não se importam se se trata ou não de um vírus quando chega o momento de prescrever antibióticos”.

Noutros casos, os médicos sentiram-se obrigados a prescrever azitromicina nos ambientes rurais, por exemplo, que não têm acesso a testes de diagnóstico como raios-x para confirmar os casos de pneumonia, muito menos perceber se a causa é bacteriana, fúngica ou viral.

“Quando as pessoas não estão muito confiantes sobre o que estão a fazer, o pensamento é o de que é melhor dar antibióticos, nem que seja por precaução, do que correr riscos”, diz Rumina Hasan, patologista da Universidade Aga Khan em Karachi, no Paquistão. Rumina Hasan também refere que alguns usos indevidos e excessivos de antibióticos feitos durante a pandemia se deveram a médicos desatualizados ou incapazes de acompanhar as informações mais recentes sobre a COVID-19. “E assim que se estabelece a tendência [para usar determinados medicamentos contra uma doença], é muito difícil mudar”, diz Rumina.

Apesar de os antibióticos conseguirem salvar vidas quando são usados devidamente, os especialistas em saúde global suspeitam que a sua utilização generalizada e indiscriminada durante a pandemia pode ter criado a tempestade perfeita para beneficiar as bactérias resistentes.

Daqui para a frente

O aumento e o impacto das superbactérias podem ainda não ser visíveis, mas “os danos já estão feitos”, diz Pilar Ramon-Pardo, consultora regional do departamento de resistência antimicrobiana da Organização Pan-Americana de Saúde. O Sistema Global de Vigilância sobre o Uso e Resistência Antimicrobiana, lançado pela OMS em 2015, teve dificuldades devido à redução na disponibilidade das equipas médicas pelo mundo inteiro para recolher amostras e informar sobre os micróbios resistentes a medicamentos durante a pandemia.

Para além de todos os recursos terem sido desviados para combater a COVID-19, também há a questão da crise orçamental e da fadiga mental. “As pessoas já não estão interessadas em ouvir falar sobre outra crise de saúde pública”, diz Muhammad Zaman, professor de engenharia biomédica da Universidade de Boston. “Isto tem de ceder por algum lado.”

Se as infeções resistentes a antibióticos aumentarem de facto num mundo pós-pandemia, será que devemos contar com novos antibióticos para as combater? Provavelmente não teremos muitos, diz Muhammad Zaman. Os cursos dos antibióticos raramente excedem os 14 dias e não trazem grandes lucros para as empresas farmacêuticas, ao contrário das terapias para doenças crónicas como é o caso do cancro e diabetes. Os novos medicamentos provavelmente também irão encontrar resistência com bastante rapidez, tornando os investimentos em inovação menos lucrativos.

No entanto, em 2013, os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA lançaram um programa de resistência antibacteriana para realizar e financiar investigações destinadas a testar novos medicamentos e ferramentas de diagnóstico, para além de otimizar o uso dos antibióticos já existentes. Para os especialistas em saúde global, a solução está em melhorar a prevenção e o controlo de infeções. As vacinas atualmente em desenvolvimento contra patógenos resistentes a medicamentos também podem ser promissoras.

“A noção de que este é um problema puramente científico está incompleta e é imprecisa”, diz Muhammad Zaman. “Temos de levar em consideração a economia, a disponibilidade e o comportamento humano.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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