O T-rex devia ser 3 espécies? Novo estudo despoleta debate feroz.

Se um novo estudo controverso estiver correto, fósseis famosos como Sue e Stan não são realmente T. rex. Contudo, os maiores especialistas estão muito céticos.

Publicado 3/03/2022, 11:59
Sue, Tyrannosaurus Rex no Museu Field em Chicago

Há mais de duas décadas que o Museu Field em Chicago exibe um esqueleto de tiranossauro chamado “Sue”. Agora, um novo estudo provocador argumenta que Sue não é realmente um T. rex, mas sim uma espécie relacionada chamada “Tyrannosaurus imperator”.

Fotografia por MARK WIDHALM, BIBLIOTECA DO MUSEU FIELD VIA GETTY

Há mais de 66 milhões de anos, um “rei lagarto tirano” governava o oeste da América do Norte: o temível dinossauro predador Tyrannosaurus rex. Mas quão grande era realmente a família deste monarca? Será que o que atualmente chamamos de T. rex pode ter sido composto por várias espécies?

Num novo estudo controverso, publicado na revista Evolutionary Biology, três paleontólogos argumentam que os fósseis atribuídos ao T. rex agrupam-se em três tipos de corpo diferentes, que os investigadores afirmam representar três espécies separadas. Para além do T. rex, esta equipa propõe dois novos nomes de espécies: T. regina e T. imperator, do latim para “rainha” e “imperador”.

“Em relação ao tiranossauro, todos os espécimes da América do Norte foram colocados na mesma espécie, T. rex… e isto tornou-se um problema porque ninguém estava realmente a testar se isso era verdade ou não”, diz Gregory Paul, líder do estudo e investigador independente que escreveu The Princeton Field Guide to Dinosaurs.

Gregory Paul e os coautores do estudo alegam que as suas descobertas, se forem validadas, podem aprofundar o nosso conhecimento sobre a evolução dos dinossauros durante o período Cretáceo, que durou entre há 145 e 66 milhões de anos. “Estamos interessados na possibilidade de tentar observar a evolução espécie-a-espécie muito detalhadamente”, diz Scott Persons, coautor do estudo e paleontólogo da Faculdade de Charleston, na Carolina do Sul.

Se os resultados do estudo forem válidos, podem reclassificar alguns dos fósseis de tiranossauro mais conhecidos em exibição nos museus de todo o mundo.

Porém, há paleontólogos que não estiveram envolvidos na nova investigação, incluindo alguns dos maiores especialistas em T. rex do mundo, que estão céticos em relação aos resultados do estudo. “São apenas sombreados a cinzento e formas nas nuvens – não há qualquer tipo de validade nisto”, diz Thomas Carr, especialista em T. rex e paleontólogo da Faculdade Carthage em Kenosha, no Wisconsin.

A equipa de Gregory Paul argumenta que os fósseis conhecidos de tiranossauro variam mais entre si do que acontece com os ossos de outros grandes dinossauros predadores. Os investigadores também argumentam que os fósseis se dividem em três grupos distintos, com base em parte na robustez dos seus esqueletos e na presença de determinados dentes semelhantes a um cinzel, características que variam notoriamente entre os esqueletos de tiranossauro. “Eu queria nomear [a nova espécie] em parte para forçar as pessoas a enfrentar o problema”, diz Gregory.

Contudo, a variação entre os fósseis de tiranossauro pode ter origem em muitos fatores, não exigindo assim novos nomes de espécies. As proporções dos dinossauros podem ter mudado drasticamente à medida que estes amadureciam. Um tiranossauro individual crescia de forma ligeiramente diferente de outro, assim como os humanos podem ter diversas alturas. Também é possível que o T. rex tenha adquirido constituições corporais ligeiramente diferentes, dependendo da disponibilidade de alimentos ou dos ecossistemas onde vivia.

Os especialistas externos dizem que o estudo podia ter feito mais para examinar estes cenários ou avaliar os seus efeitos combinados.

“A maioria de nós prevê que sim, provavelmente existem várias espécies de Tyrannosaurus rex… a verdadeira questão é, será que este artigo faz um trabalho realmente rigoroso para o demonstrar?” diz Lindsay Zanno, paleontóloga do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte, em Raleigh. “Eu diria que o artigo é relativamente pouco convincente.”

O que define uma espécie?

Os paleontólogos já debatem a noção de várias espécies de tiranossauro há décadas. Este predador viveu durante mais de um milhão de anos numa extensão da antiga América do Norte, deste o oeste do Canadá até ao Novo México. É uma área enorme e também é muito tempo – possivelmente o suficiente para que as populações se separassem e formassem várias espécies. (Paleontólogos alegam que a Terra pode ter sido habitada por milhares de milhões de T. rex.)

Se os traços anatómicos nos fósseis de uma determinada criatura mudam claramente ao longo do tempo, esse animal pode justificar vários nomes de espécies para distinguir as formas anteriores das posteriores. Nas últimas décadas, os paleontólogos aprofundaram o seu conhecimento sobre a forma como estas “crono-espécies” se podem suceder.

Talvez a crono-espécie mais famosa e bem estabelecida venha da Formação de Hell Creek, no oeste da América do Norte, onde o tiranossauro foi encontrado. Os sedimentos mais antigos nesta formação preservam uma espécie de Triceratops, o T. horridus, enquanto as rochas nas camadas mais jovens e mais acima na formação preservam uma espécie diferente, o T. prorsus. Alguns investigadores já tinham sugerido uma evolução semelhante para outros dinossauros na Formação de Hell Creek.

Factos sobre Fósseis
Os fósseis são ecos de um passado antigo. Descubra as duas principais categorias de fósseis, como ocorre a fossilização e como os fósseis podem ajudar a pintar um quadro da história do planeta.

Os fósseis de tiranossauro podem variar bastante entre si, principalmente nas dimensões do fémur. Alguns esqueletos têm fémures mais atarracados e “robustos”, enquanto que outros têm ossos mais estreitos e mais “graciosos”. Há vários anos, os paleontólogos também repararam que alguns crânios de tiranossauro tinham pares de incisivos em forma de cinzel na mandíbula inferior, enquanto outros não.

O novo estudo baseia-se num conjunto de dados de medições feitas em 37 esqueletos de tiranossauro, com um foco nos fémures e nos dentes da mandíbula inferior. Gregory Paul e os seus colegas também rastrearam onde é que 28 destes espécimes foram encontrados na Formação de Hell Creek: nas camadas inferiores, médias ou superiores. Quanto mais baixas e profundas as camadas rochosas, mais antigos seriam os fósseis.

Para fins comparativos, a equipa de Gregory avaliou conjuntos de dados de outros grandes dinossauros predadores, incluindo vários outros tiranossauros e o alossauro, o não-tiranossauro mais antigo. De acordo com esta análise, o tiranossauro mostrou mais variabilidade nas suas medições ósseas do que qualquer outro dinossauro examinado.

A equipa descobriu que o grupo encontrado nas camadas rochosas mais inferiores e antigas da Formação de Hell Creek tinha esqueletos robustos e dois pares de dentes em forma de cinzel. No entanto, os fósseis nas camadas mais jovens dividiam-se em dois grupos. Os dinossauros em cada um destes grupos só tinham um par de dentes em forma de cinzel, mas um dos grupos tinha um esqueleto mais robusto e outro tinha ossos mais finos e graciosos.

A equipa de Gregory Paul argumenta que as diferenças sexuais entre os tiranossauros macho e fêmea não conseguem explicar esta variabilidade ao longo do tempo. A equipa também descartou as diferenças individuais e os estágios de crescimento dos animais. Os investigadores dizem que cada aglomerado de animais pode ser interpretado como a sua própria espécie.

O Tyrannosaurus rex clássico, definido a partir de um esqueleto que agora está no Museu Carnegie de História Natural, fica no grupo robusto e mais jovem, e permanece com o nome de T. rex no esquema de nomenclatura agora proposto.

A equipa de Gregory denominou o grupo mais antigo T. imperator e sugere que Sue, o famoso tiranossauro no Museu Field de História Natural de Chicago, como o holótipo definidor da espécie. Os investigadores nomearam o T. regina, contemporâneo gracioso do T. rex, recorrendo a um esqueleto que está no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, em Washington D.C.

Nevoeiros da pré-história

As espécies de tiranossauro propostas dependem da validade dos agrupamentos de dados – dados que, de acordo com os especialistas externos, não estão tão bem fundamentados quanto gostariam.

Outros estudos recentes não observaram este mesmo agrupamento, sobretudo uma análise compreensiva sobre os diferentes estágios de vida do T. rex publicada por Thomas Carr em 2020. No seu estudo, Thomas Carr mediu e analisou 1.850 traços esqueléticos individuais. Mas não encontrou evidências de que o tiranossauro tinha formas macho ou fêmea distintas, muito menos aglomerados claros que poderiam ser explicados através de várias espécies. “Se estes táxons fossem reais, eu teria detetado”, diz Thomas Carr.

Lindsay Zanno acrescenta que o estudo não usou as secções transversais dos ossos para restringir a idade de cada tiranossauro ao momento da sua morte, o que significa que o estudo pode não ter observado atentamente a forma como o tiranossauro sofria diversas alterações corporais à medida que amadurecia.

Tom Holtz, paleontólogo da Universidade de Maryland, tem outra preocupação. O estudo não reconstrói precisamente onde é que cada fóssil foi encontrado na Formação de Hell Creek, algo que foi crucial para a definição de crono-espécies dentro da espécie Triceratops. Os dados de localização mais refinados para cada fóssil melhorariam as suas idades relativas, algo que forneceria um teste mais rigoroso para perceber se o tiranossauro foi composto por várias espécies ao longo do tempo.

“É extremamente complicado. Muitos destes fósseis são espécimes históricos que foram recolhidos antes de as pessoas lhes prestarem muita atenção”, diz Tom Holtz. “Mas isso não significa que vamos parar de tentar.”

Parte do desafio, argumenta Gregory Paul, deve-se ao facto de algumas destas informações geológicas serem agora impossíveis de recuperar. A pedreira que continha o AMNH 5027 – um crânio de tiranossauro bem preservado que agora está  no Museu Americano de História Natural em Nova Iorque – foi inundada pela barragem de Fort Peck quando esta foi inaugurada em 1940, por exemplo, dificultando imenso o estudo das camadas de rocha.

Os cientistas também têm preocupações em relação a alguns dos esqueletos incluídos no novo estudo. O estudo baseia-se, em parte, nos fósseis que estão no Instituto de Pesquisa Geológica de Black Hills, uma empresa de paleontologia em Hill City, Dakota do Sul, que vende fósseis e réplicas de fósseis a museus e colecionadores.

O estudo também inclui “Stan”, um esqueleto de tiranossauro bem preservado que a empresa foi condenada em tribunal a vender em leilão em outubro de 2020. Até agora, a localização e o comprador do fóssil permanecem desconhecidos. Os cientistas entrevistados pela National Geographic expressaram preocupação com a ética em torno da posse privada de Stan e de outros fósseis de tiranossauros.

Scott Persons diz que o estudo entrou pela primeira em revisão científica por pares antes de Stan ter sido vendido em 2020, e tanto Scott como Gregory Paul acrescentam que as análises do estudo dependem do maior tamanho de amostra possível, algo que não pode ser alcançado sem incluir os fósseis que estão em posse privada. “Se não os usarmos, o tamanho da amostra é muito pequeno e não podemos fazer nada; teríamos de esperar décadas”, acrescenta Gregory Paul.

Gregory também argumenta que o novo estudo pode afetar o mercado de fósseis, dado que alega que nem todos os ossos de tiranossauro podem ser indubitavelmente atribuídos ao icónico T. rex. Se o estudo de Gregory Paul estiver correto, Stan já não é um T. rex; é um T. regina.

Os autores do novo estudo sabem que estão a fazer uma alegação ousada sobre a forma como o tiranossauro deve ser estudado e descrito. Para Scott Persons, a nomeação de uma espécie é, em última análise, uma hipótese – uma hipótese que dados posteriores podem refutar ou confirmar. “Basta um ou dois espécimes para quebrar essa regra, certo?… [Depois] regressamos ao trabalho taxonómico”, diz Scott.

“Não vou ficar surpreendido – sou realista sobre as minhas estatísticas – se [as novas definições de espécies] não estiverem corretas”, acrescenta Scott Persons. “Mas estou confiante de que há mais do que uma espécie de tiranossauro.”

Para Lindsay Zanno, o estudo marca o primeiro passo em direção a um mapeamento mais abrangente da árvore genealógica do chamado rei lagarto tirano. “Não há uma teoria que consiga explicar por si só toda a variação que observamos – quer seja variação ao nível individual, no crescimento ou no estatuto sexual dos indivíduos”, diz Lindsay. “Precisamos de uma abordagem multidimensional a este problema.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
O tiranossauro Stan foi encontrado! O fóssil mais caro do mundo encontra lar em novo museu.
Ciência
Paleontólogos alegam que a Terra pode ter sido habitada por milhares de milhões de T. rex
Ciência
Última Refeição de Dinossauro ‘Blindado’ Preservada com Detalhes Impressionantes
Ciência
Tiranossauro ‘Ceifador da Morte’ Descoberto no Canadá
Ciência
Fóssil gigante de ‘monstro marinho’ é um dos maiores do seu género

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados