Planta primitiva com mais de 300 milhões anos "redescoberta" em museu do Porto

Guardada há mais de um século nas coleções do Herbário do Museu de História Natural e da Ciência da U. Porto, uma planta primitiva oferece pistas inéditas sobre a evolução da flora no Paleozóico – e nas próximas décadas.

Publicado 23/03/2022, 10:37
Luís Ceríaco e Pedro Correia com o fóssil

A nova espécie, que recebeu o nome “Lesleya ceriacoi” é dedicada a Luís Ceríaco, curador-chefe e responsável pelas coleções do Museu da História Natural e da Ciência da U.Porto, e também explorador da National Geographic. Na imagem Luís Ceríaco (à esquerda) e Pedro Correia (à direita) seguram no fóssil.

Fotografia por Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto

Um fóssil de planta primitiva, com mais de 300 milhões de anos, acaba de ser “redescoberto” nas coleções do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto. Esta planta primitiva, mais antiga do que os dinossauros, encontrava-se conservada em rocha nas coleções do Herbário do Museu.

Esta descoberta paleontológica permitiu perceber como evoluíram estas plantas num período em que o planeta terra tinha apenas um continente. Descubra o que é uma planta primitiva, a história por detrás desta (re)descoberta e o que nos ensina para o futuro.

O que é uma planta primitiva?

As plantas terrestres evoluíram a partir das algas, quando os organismos multicelulares fotossintéticos invadiram os continentes. Foi esta alteração importante da biodiversidade no planeta que formou o grupo de plantas terrestres mais antigo da História, a planta primitiva.

A vida na Terra fez com que a planta primitiva passasse por evoluções importantes para que se pudesse adaptar e propagar.  Inicialmente, era semelhante a algas, como as carófitas. Depois passou a apresentar características que ainda mantém nos dias de hoje, como o desenvolvimento de tecidos vasculares, sementes ou flores.

As características xeromórficas de Lesleya ceriacoi representam a primeira evidência morfológica de uma adaptação evolutiva às mudanças ambientais e climáticas em ambientes intramontanhosos nas regiões tropicais do Pangeia no final do Paleozóico.

Fotografia por Museu de História Natural e da Ciência da U. Porto

Qual é a origem da planta primitiva?

A origem da planta primitiva remonta ao período Devónico superior, ou seja, há cerca de 350 milhões de anos.

As primeiras plantas com sementes foram as Gimnospermas, plantas vasculares capazes de produzir uma estrutura protetora para o embrião e sem dependência direta da água para a sua evolução.

Este tipo de planta primitiva sobreviveu no planeta até aos dias de hoje porque foi capaz de se adaptar a alterações climáticas abruptas durante o Paleozóico, após o seu surgimento no período Devónico.

Uma planta que se adaptou ao longo de milénios. Agora, uma equipa da Universidade do Porto fez uma descoberta inédita que está a dar pistas importantes sobre a sua evolução.

O que foi redescoberto pela equipa da Universidade do Porto?

Pedro Correia, investigador e doutorado em Geociências pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, não podia acreditar no que via quando visitou a coleção do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade de Porto (MHNC-UP).

Por entre as coleções do Herbário do MHNC-UP, surgia assim uma planta primitiva preservada em fóssil, com mais de 300 milhões de anos. Uma espécie, até então desconhecida, representante da adaptação da flora ao clima mais seco, durante a transição entre o período Carbonífero para o Pérmico.

De folhas estreitas com forma requintada e margens dentadas e laceradas, o fóssil agora redescoberto teve a sua origem na Bacia Carbonífera do Douro. Esta localização, no período de formação do supercontinente Pangeia, possuía um ambiente tropical (período Carbonífero), antes de se ter tornado uma região quente e seca (período Pérmico).

Através do fóssil da planta primitiva foi possível verificar como esta espécie modificou as suas características, de forma a poder-se adaptar ao ambiente árido.

(Leia também: Fósseis espetaculares de uma floresta tropical pré-histórica encontrada recentemente)

Porque períodos geológicos passou esta planta primitiva?

Após o seu surgimento no período Pérmico, a planta primitiva fortificou-se e evoluiu, de acordo com as condições ambientais que os períodos geológicos seguintes - Carbonífero e Pérmico - lhe ofereceram.

O período Carbonífero ocorreu entre 360 e 290 milhões de anos atrás, tendo contribuído para a formação de carvão e para a exploração da fauna e flora carbonífera. Foi neste período que as primeiras jazidas de carvão, petróleo e xisto betuminoso surgiram, devido ao grande aumento de pântanos e florestas.

De seguida, entre 299 e 251 milhões, surge o Pérmico, o último período da era paleozoica. É neste período que ocorre a formação do supercontinente, Pangeia.

Este fenómeno correspondeu à união de todos os continentes num bloco terrestre, rodeado por um único oceano, o Pantalassa. Devido à grande concentração de terra, as partes internas do continente tornaram-se muito secas, por estarem afastadas das áreas costeiras.

Para sobreviver, esta planta primitiva teve de se adaptar à transição climática de um clima húmido para uma temperatura mais seca e árida. Por fim, desenvolveu um mecanismo de defesa contra ataques de insetos herbívoros (insetos galhadores).

O que nos ensina a evolução da planta primitiva?

A descoberta do fóssil desta planta primitiva serviu como guia à evolução morfológica das plantas na era paleozoica, mas também como contributo científico para o futuro da Península Ibérica e a adaptação natural da flora tolerante à seca.

O estudo desta planta primitiva, publicado na revista académica Historical Biology, levanta importantes questões para o futuro. Como se adaptarão as plantas atuais às alterações climáticas? Que tipo de mecanismos de defesa irão desenvolver? E qual o seu impacto na biodiversidade da região? Perguntas que, agora, estão um pouco mais perto de serem respondidas graças à iniciativa desta equipa.

A investigação foi liderada por Pedro Correia, em parceria com outros investigadores: Catarina Barbosa (Departamento de Geociências da Universidade de Évora); Zbyněk Šimůnek (Departamento Paleozoico do instituto de investigação Czech Geological Survey); João Muchagata (investigador e Curador de Paleontologia no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto) e Artur Sá (investigador no Departamento da Universidade de Geologia, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e no Geosciences Center na Universidade de Coimbra).

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
Paleontólogo descobre fóssil com mais de 300 milhões de anos na Bacia Carbonífera do Douro
Ciência
Descoberta Espécie de Cavalinha com Cerca de 300 Milhões de Anos na Região do Douro
Ciência
Nova Planta Fóssil Descoberta em São Pedro da Cova
Ciência
Um dos mais completos plesiossauros foi encontrado por investigadores portugueses em Angola
Ciência
Cabo Espichel: encontradas pegadas de crocodilomorfos com 129 milhões de anos

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados