O drama bizarro em torno de uma pitada de poeira lunar agora leiloada por 500 mil dólares

O leilão realizado recentemente é o culminar de uma saga sórdida que envolve astronautas da Apollo, vários processos judiciais e cientistas ansiosos por uma oportunidade de estudar materiais lunares raros.

Por Maya Wei-Haas
Publicado 19/04/2022, 16:01
Edwin “Buzz” Aldrin

Edwin “Buzz” Aldrin, astronauta da NASA, coloca-se em posição para ativar dois componentes do Pacote de Experiências Científicas Preliminares da Apollo na superfície da lua, durante a missão Apollo 11, em 1969. Uma pequena fração da primeira amostra de poeira recolhida na lua pela tripulação da Apollo 11 foi agora vendida em leilão, despertando o interesse de astrónomos e especialistas em direito espacial.

Fotografia por NASA

À beira do primeiro passo da humanidade na lua, Neil Armstrong, nas escadas do módulo lunar, descreveu a textura peculiar do solo. “É quase como um pó”, disse Armstrong ao Centro de Controlo de Missão Apollo em Houston, no Texas.

Dez minutos depois, Armstrong recolheu um monte de poeira lunar – a primeira amostra alguma vez recolhida na superfície de outro mundo. Agora, volvidos mais de cinquenta anos, uma pitada desta poeira vai ter um novo proprietário: um comprador anónimo que pagou pouco mais de 500.000 dólares em leilão para possuir um pedaço de história.

A NASA defende há décadas que as rochas e poeira lunares recolhidas durante as missões Apollo são propriedade governamental, pelo que não podem pertencer a cidadãos particulares. A agência espacial norte-americana tem feito os possíveis para recuperar quaisquer materiais lunares perdidos, incluindo uma operação policial em 2011 que apreendeu – a uma mulher de 74 anos num restaurante da cadeia Denny's – uma rocha lunar do tamanho de um bago de arroz embutida num peso de papel.

A venda em leilão consistia em cinco contentores de amostras em alumínio cobertos por uma camada de fita de carbono, que protege uma pitada de poeira lunar proveniente da primeira amostra alguma vez recolhida na lua.

Fotografia por Bonhams

A poeira lunar agora vendida em leilão é uma exceção rara, uma peculiaridade devido em parte a uma combinação entre vários fatores que incluem fraude, erros de identificação e uma série de disputas legais.

“É uma situação única”, diz Adam Stackhouse, especialista da casa de leilões Bonhams.

Os cientistas têm expressado opiniões diferentes sobre o leilão. A NASA já analisou estas amostras de poeira e os investigadores também já estudaram as outras frações maiores de amostras lunares. Mas há sempre a possibilidade de aprender mais. “As amostras lunares são muito, muito preciosas”, diz Sara Mazrouei, cientista planetária e investigadora educacional da Universidade Ryerson, em Ontário.

Os especialistas em lei espacial, por outro lado, estão entusiasmados com o que esta venda pode vir a significar para o futuro comércio de materiais extraterrestres, como os metais extraídos de asteroides. “É mais um passo em direção à comercialização de recursos naturais do espaço sideral”, diz Mark Sundahl, especialista em direito espacial da Faculdade de Direito Cleveland-Marshall, em Ohio.

Poeira pegajosa

A poeira lunar em questão chegou à Terra graças a uma propriedade peculiar: é pegajosa.

Na lua sem ar, o vento solar sopra constantemente sobre a superfície, transmitindo uma carga eletrostática a esta poeira de grão fino, também chamada rególito. Esta carga faz com que o rególito lunar se cole a tudo – botas, luvas, fatos, cordas, ferramentas e muito mais – no equipamento dos astronautas.

Esquerda: Superior:

Imagens aproximadas de dois grãos de poeira lunar ampliadas milhares de vezes com um microscópio eletrónico.

Direita: Inferior:

Muitas das amostras contêm pequenas esferas de vidro que são formadas pelo rápido arrefecimento das plumas de vapor libertadas pelas rochas espaciais que atingem a superfície.

fotografias de Bonhams

“Os astronautas repararam de imediato no quão pegajoso era o rególito”, diz Nicolle Zellner, cientista planetária do Albion College. Esta poeira pegajosa também é irregular e abrasiva, e rapidamente se revelou problemática durante as missões Apollo, porque encravava os equipamentos, desgastava os fatos espaciais e sujava os módulos lunares. Os astronautas tinham de bater com as botas nas escadas de entrada do módulo lunar para libertarem o máximo de poeira possível depois de se aventurarem na superfície da lua.

A viscosidade da poeira fez com que, quando Neil Armstrong recolheu a primeira amostra para um saco de Teflon, os seus grãos finos ficassem a revestir a camada exterior do saco. Para efetuar o transporte para a Terra, o saco de amostras foi guardado no interior de uma bolsa com fecho estampada com as palavras “DEVOLUÇÃO AMOSTRA LUNAR”. Os grãos vendidos recentemente em leilão foram retirados do tecido no interior desta bolsa protetora.

“Ao olharmos para a poeira que veio no interior da bolsa, sentimos uma proximidade com aquele momento”, diz Adam Stackhouse. “É como uma espécie de máquina do tempo.”

Depois da viagem histórica de Neil Armstrong e Buzz Aldrin até à superfície da lua, os astronautas partiram no estágio de ascensão do módulo lunar (na fotografia). Com a Terra a pairar à distância, costuma-se dizer que esta imagem contém todos os humanos vivos, exceto um – Michael Collins, que tirou a fotografia enquanto estava a bordo do módulo de comando em órbita.

Fotografia por NASA

Dedos pegajosos

O trajeto desta poeira desde a lua até à venda em leilão foi muito atribulado. Há várias décadas, a NASA emprestou a bolsa de amostras juntamente com outros artefactos ao museu espacial Cosmosphere em Hutchinson, no Kansas. Mas a bolsa acabou por desaparecer.

Em 2002, quando Max Ary abandonou o cargo de diretor do museu, os funcionários da instituição começaram a investigar vários itens desaparecidos. E descobriram que Max Ary vendia artefactos do museu juntamente com a sua coleção pessoal. Max Ary foi condenado a três anos de prisão e multado em 132.000 dólares por condenações de fraude, roubo e lavagem de dinheiro.

Uma investigação federal na propriedade de Max Ary veio a revelar artefactos adicionais. Entre os diversos tesouros estava a bolsa de devolução de amostras lunares, mas devido a uma confusão nos números de catálogo, os funcionários não perceberam o significado da bolsa na época. O Serviço de Delegados dos EUA acabou por vender a bolsa num leilão online da coleção espacial apreendida a Max Ary, para ajudar a pagar as multas.

Nancy Lee Carlson, de Inverness, no estado de Illinois, venceu a licitação da bolsa branca – incluindo a poeira incorporada nas suas fibras – por apenas 995 dólares. Nancy Carlson enviou a bolsa para o Centro Espacial Johnson da NASA para verificar a sua autenticidade, mas ficou chocada com a resposta: não só a bolsa era autêntica, como a poeira no interior correspondia às características e composição da primeira amostra lunar entregue pela tripulação da Apollo 11.

Numa reviravolta inesperada, a NASA recusou-se a devolver a bolsa, argumentando que era um tesouro nacional. “Este artefacto nunca foi projetado para pertencer a um indivíduo”, disse William Jeffs, porta-voz da NASA, através de comunicado em 2017. “Não só tem valor científico, como também representa o culminar de um esforço nacional maciço que envolveu uma geração de americanos.”

Infelizmente para a NASA, Nancy Carlson exigiu a sua devolução em tribunal e ganhou o processo. E depois leiloou a bolsa em 2017 por 1.8 milhões de dólares. (A NASA não respondeu aos vários pedidos para comentar o leilão feito este mês.)

Dois anos depois, Nancy Carlson processou novamente a NASA, desta vez porque a agência danificou a bolsa durante a inspeção e reteve um pouco da poeira que estava no interior. Os cientistas da NASA usaram um pedaço de fita de carbono para capturar parte da poeira lunar que estava entranhada no tecido, que depois foi colocada em pequenos contentores de alumínio para análise, e a NASA ficou com essas amostras. De acordo com Nancy Carlson, esta perda impediu-a de vender a bolsa pelo valor estimado originalmente.

A agência espacial acabou por chegar a acordo com Nancy Carlson, e devolveu cinco dos seis contentores de poeira. Foram estas as amostras agora vendidas pela casa de leilões Bonhams.

Cofre lunar

Para além do drama em torno dos procedimentos legais, os especialistas lunares também estão divididos sobre os impactos científicos desta venda feita recentemente.

“A conclusão óbvia é a de que cada amostra é importante e pode dizer-nos algo novo”, diz Peter James, geofísico planetário da Universidade Baylor, no Texas. Contudo, as amostras leiloadas são apenas uma pequena fração dos mais de 380 quilos de material lunar que os astronautas trouxeram de regresso para a Terra ao longo das seis missões Apollo, entre 1969 e 1972. Como esta amostra já foi analisada pela NASA e é semelhante à amostra muito maior que está disponível para estudo, Peter James não encara esta venda como uma perda enorme para os cientistas.

Por outro lado, também já passaram cinquenta anos desde que alguém trouxe amostras novas da lua, e cada pedaço analisado forneceu sempre mais informações sobre a história e geologia lunar. A análise das rochas lunares trazidas pelo programa Apollo ajudou os cientistas a chegar à teoria mais provável sobre as origens da lua: um objeto do tamanho de Marte colidiu com a Terra primitiva e ejetou uma nuvem de detritos que eventualmente arrefeceu e se aglutinou sob a forma do nosso único satélite natural.

Factos sobre a Lua
De que é feita a lua e como se formou? Aprenda mais sobre a origem violenta da lua, como as suas fases moldaram os primeiros calendários e como os humanos exploraram pela primeira vez o único satélite natural da Terra há meio século.

O estudo das amostras das missões Apollo também revelou que a lua tem uma quantidade surpreendente de água. A análise preliminar feita no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 negligenciava os vestígios ténues de água presentes nas rochas. Mas as naves em órbita detetaram indícios de água lunar – uma descoberta posteriormente confirmada pela reanálise das rochas das missões Apollo através de instrumentos ultrassensíveis. Estas reservas aquosas podem vir a ser fundamentais para os humanos poderem regressar à lua e viajar mais além, dado que podem vir a ajudar os futuros viajantes espaciais a reduzir a carga que precisam de levar da Terra.

Atualmente, os cientistas continuam a estudar as rochas trazidas durante o programa Apollo. Algumas das amostras foram colocadas em armazenamento a longo prazo “para que cientistas que ainda não nasceram possam usar instrumentos que ainda não foram desenvolvidos, para responder a perguntas que ainda não  foram feitas”, disse à National Geographic em 2019 Jamie Elsila Cook, astroquímica da NASA. Uma destas amostras recolhida em 1972 foi aberta no mês passado, na esperança de oferecer informações que ajudem as missões Artemis, a próxima tentativa da NASA para enviar humanos de regresso à lua.

Sara Mazrouei destaca o trabalho árduo que os investigadores precisam de fazer na elaboração de propostas de candidatura, alimentando a esperança de obter um simples vestígio de poeira lunar para estudar. “Portanto, ver isto a ser leiloado… tem sido um bocado desanimador.”

Mas Sara Mazrouei também tem um pequeno vislumbre de esperança nesta venda, porque pode vir a significar mais acessibilidade a amostras lunares para fins educacionais. “Talvez isto abra a porta para a disponibilidade de futuras amostras para além deste grupo restrito de cientistas”, acrescenta Sara.

Minerar os céus

Os especialistas em direito espacial olham para esta venda através de uma perspetiva ligeiramente diferente. À medida que mais países se preparam para futuras missões na lua e mais além, a extração e uso de recursos espaciais pode em breve vir a tornar-se uma realidade. Estes tipos de atividades enquadram-se no Tratado do Espaço Sideral de 1967, um acordo internacional que estabelece as bases da lei espacial moderna.

Embora este tratado forneça algumas orientações sobre atividades futuras, como por exemplo proibir manobras militares e impedir que alguém reivindique a propriedade de outros mundos, ainda existem muitas lacunas no acordo. Por um lado, “eles não imaginavam a utilização de recursos espaciais”, diz Christopher Johnson, consultor de leis espaciais da Secure World Foundation e professor-adjunto na Universidade de Georgetown, em Washington D.C.

“Ao longo dos anos, alguns países, incluindo os EUA e os Emirados Árabes Unidos, aprovaram leis que conferem aos cidadãos a propriedade sobre os recursos que extraem dos corpos celestes. Esta última venda em leilão consolida ainda mais a legalidade sobre a posse, uso e revenda de recursos espaciais.”

Mark Sundahl, da Faculdade de Direito Cleveland-Marshall, acrescenta que qualquer caso que suscite debate no público em geral sobre a extração e venda de recursos lunares pode ser útil. “À medida que começamos a mergulhar nas águas da mineração celestial, vão surgir muitos debates sobre o equilíbrio entre interesses públicos e privados.”

“Isto está a apenas a começar.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Ciência
Árvores que Viajaram ao Espaço Vivem Agora na Terra. Saiba Onde Encontrá-las.
Ciência
Esta Pode Ser a Rocha Mais Velha da Terra – E Foi Recolhida na Lua
Ciência
Como os Cientistas Planeiam Proteger a Terra de Germes Extraterrestres
Ciência
Água na Superfície da Lua Pode Ser Mais Abundante do que se Pensava
Espaço
Veja Como os Cientistas da Era Apollo Imaginavam a Vida na Lua

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados