Dominique Gonçalves: “Tudo o que fazemos na natureza tem consequências para o bem-estar humano.”

A ecologista de elefantes é uma das oradoras do National Geographic Summit que terá lugar em Lisboa no dia 31 de maio, no teatro Tivoli BBVA.

Dominique Gonçalves trabalha no Parque Nacional da Gorongosa, onde lidera o Elephant Ecology Project.

Fotografia por Charlie Hamilton James
Por Filipa Coutinho
Publicado 25/05/2022, 15:37

Nasceu e foi criada na Beira, uma cidade moçambicana próxima do Parque Nacional da Gorongosa. Em 2015, integrou a equipa do parque como bolseira de investigação, onde lidera agora o Elephant Ecology Project, que investiga o movimento dos elefantes e a expansão do seu raio de ação em relação ao uso do habitat e ao conflito homem-elefante. Dedica-se tanto à conservação das espécies quanto ao desenvolvimento das comunidades nos arredores do parque.

Defensora fervorosa da educação das raparigas, apoia o projeto Clube das Raparigas do Parque, em que usa elefantes como uma espécie emblemática para ajudar a inspirar e melhorar a experiência escolar de raparigas vulneráveis, para evitar o casamento precoce e ajudá-las a ter melhores oportunidades. Ambiciona construir a coexistência entre as comunidades e a vida selvagem em toda a zona tampão do parque.

Atualmente é exploradora da National Geographic Society, e em 2020 foi uma das nomeadas para o Prémio Pritzker Emerging Environmental Genius. Em 2021, foi reconhecida pelo Explorer's Club como uma das 50 People Changing the World e também recebeu a Bolsa Wild Elements Innovator. Em 2022, tornou-se uma das conservacionistas apoiadas pelo Programa Career do WCN.

Como é um típico dia de trabalho para a Dominique?
Em geral é uma mistura de pesquisa, apoio aos Clubes das Raparigas e à equipa de coexistência do Parque Nacional da Gorongosa.
Quando no Parque: visita ao campo, monitorização de elefantes no campo e no escritório através de sistemas de monitorização, apoio e visitas aos clubes das raparigas e a equipa de coexistência do Parque.
Quando no escritório e na Universidade: escrita de relatórios, propostas de fundos e a minha pesquisa de doutoramento.

Dominique Gonçalves vai estar no palco do Summit Junior, da parta da manhã, e no palco da tarde com Dwayne Fields, Bertie Gregory, Céline Cousteau, David Doubilet e Jennifer Hayes.

Fotografia por Taylor Mickal

Qual é o laço que a une aos elefantes? Porque decidiu trabalhar com esta espécie?
Decidi trabalhar com esta espécie porque tive oportunidade para tal. Nunca sonhei ou tive preferência por elefantes, mas quando apareceu a oportunidade não pensei duas vezes. Quem não gostaria de trabalhar com elefantes? É simplesmente fascinante e não me arrependo.

Quais são os maiores desafios que teve no seu trabalho?
As mulheres que trabalham na Ciência, são frequentemente questionadas e precisam de fazer um esforço duplicado para que o seu valor e o seu trabalho seja levado a sério. Isso acontece em todo lado e a todos os níveis: academia, no trabalho, nas comunidades locais e no campo. Eu abordo esse desafio falando abertamente sobre preconceitos inconscientes baseados em género no trabalho, com colaboradores da comunidade e com estudantes (nacional e internacionalmente).

Como podem as comunidades locais coexistir melhor com as espécies animais?
Essa é a resposta que todos procuramos e precisamos. A coexistência entre pessoas e fauna não tem de ser alcançada de uma única maneira, depende de contexto, cultura entre outras coisas. Uma das primeiras coisas que aprendi como conservacionista é que o pragmatismo funciona, a ideologia nem sempre. Precisamos de ouvir e tomar decisões práticas para cada área, decisões baseadas na realidade do lugar. As visões, ideias e desejos das comunidades devem ser respeitados e as suas vozes amplificadas para que a convivência continue a ser possível.
Coexistência é um termo bonito, não é fácil, mas vale a pena. As pessoas precisam da natureza, para serem saudáveis, para prosperar. No entanto, temos que navegar com cuidado onde as pessoas vivem e onde há natureza. O mais importante é que tenhamos consciência que a natureza também precisa de espaço e recursos assim como nós precisamos e temos que aceitar isso.

“Diversidade étnica e racial na ciência representa plenitude, verdade e riqueza de conhecimento.”

Como é que a diversidade étnica e racial se reflete na ciência?
Se a ciência tem como base a diversidade de pensamentos e elementos então porque não está a ser feita por diversas raças e etnias? Pense num puzzle, cada peça tem diferentes formas e cores, mas no final quando postas todas juntas mostram a grandeza e beleza detalhada. Assim é a ciência, identificando peças e pondo-as juntas na tentativa de entender melhor e prever como o universo biológico, físico, social, etc. funciona. Caso faltem algumas peças o puzzle fica incompleto - o conhecimento não é completo nem reflete a verdade e pior, se todas as peças forem iguais em forma e cor, não há desafio em pôr as peças juntas e é difícil ver a imagem completa então nem conhecimento pode ser alcançado ou ser verdadeiro.
Diversidade étnica e racial na ciência representa plenitude, verdade e riqueza de conhecimento.

Que expectativas tem para a conservação dos elefantes?
Embora a tendência geral seja de declínio populacional, o que até deu às espécies de elefantes diferentes status de conservação, em certos lugares a população de elefantes está a aumentar. No entanto, tudo parece frágil e continuará sendo até que ameaças sejam eliminadas: da demanda do marfim, fragmentação de habitats e interação negativa entre pessoas e elefantes.
Para proteger a biodiversidade e os ecossistemas, precisamos mais do que apenas garantir a integridade dos limites da paisagem. Precisamos de saber o que temos, precisamos de ver o valor do conhecimento abrangente da biodiversidade e a criação de uma imagem detalhada da vida para a gestão e proteção da biodiversidade. Espero que tenhamos mais defensores e vozes locais para os elefantes. Campeões, líderes e locais que olhem para tudo e em todas as áreas: pesquisa, conservação, política, tomada de decisões, etc. A criação e o apoio de uma nova geração de especialistas em biodiversidade, investigadores e conservacionistas locais é de extrema importância porque são eles que garantirão a sobrevivência da biodiversidade, especialmente dos elefantes.

Se pudesse pedir um desejo em prol do Planeta, qual seria?
Que as pessoas comecem a pensar e a ver a natureza e as pessoas juntas, não apenas como forma de ganhar dinheiro, mas como forma de vida, de convivência. Para isso, precisamos de perceber que as pessoas e a vida selvagem fazem parte do mesmo sistema e ambas precisam de aprender a viver juntas. Precisamos de reconectar-nos com a natureza, connosco como parte dela e ela como parte de nós. Tudo o que fazemos na natureza tem consequências para o bem-estar humano.

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