Um segundo asteroide pode ter atingido a Terra durante o destino final dos dinossauros

Uma possível cratera enterrada sob a costa de África Ocidental pode ter originado da colisão de uma rocha espacial com a Terra na época do impacto cataclísmico de Chicxulub.

Por Maya Wei-Haas
Publicado 19/08/2022, 10:53
secção transversal de um impacto de asteroide

Esta ilustração mostra a secção transversal de um impacto de asteroide, semelhante ao evento que aconteceu há cerca de 66 milhões de anos e levou à extinção de três quartos de todas as espécies da Terra. Outra cratera de impacto pode ter sido descoberta na costa de África Ocidental, adicionando uma nova reviravolta a esta história de extinção.

Fotografia por Illustration by CLAUS LUNAU, Science Source

Num instante catastrófico, há cerca de 66 milhões de anos, o curso da vida na Terra mudou para sempre. Uma rocha espacial com cerca de 10 quilómetros de diâmetro atingiu a costa da península mexicana de Yucatán – e deu início a um cataclismo global. Os gigantescos tsunamis que se seguiram atingiram as costas ao longo de milhares de quilómetros. Os incêndios florestais fustigaram vastas faixas de terra. E a vaporização de rochas ao longo do fundo do mar libertou gases que levaram o clima a sofrer grandes oscilações– levando à extinção de cerca de 75% de todas as espécies, incluindo todos os dinossauros não-aviários.

Mas esta história pode estar incompleta. Enterrados sob camadas de areia na costa de África Ocidental estão indícios de que a gigantesca rocha espacial que atingiu Yucatán podia não estar sozinha.

Os investigadores descobriram uma possível cratera com cerca de 8.5 quilómetros de diâmetro, que foi revelada por levantamentos sísmicos no fundo do mar, de acordo com um novo estudo publicado na Science Advances. A cratera, com o apelido Nadir em homenagem a um vulcão submarino nas proximidades, parece ter sido esculpida pelo impacto de uma rocha espacial com pelo menos 400 metros de diâmetro – e pode ter-se formado na mesma época que a cratera Chicxulub, a enorme cicatriz na superfície da Terra deixada pelo asteroide que matou os dinossauros.

“Há muitas pessoas que questionam como é que o impacto de Chicxulub – embora enorme – conseguiu ser tão destrutivo globalmente?” diz a autora do estudo Veronica Bray, cientista planetária da Universidade do Arizona. “Este evento pode ter ajudado.”

O objeto que criou a cratera Nadir seria consideravelmente mais pequeno do que o asteroide responsável por Chicxulub, ou seja, os seus efeitos provavelmente foram regionais. Porém, se for confirmada, a segunda colisão de um meteorito em rápida sucessão pode ter dado um golpe adicional na catástrofe global em finais do Cretáceo. Num cenário hipotético, ambos os asteroides podem ter vindo de um único corpo parental que se fraturou em dois antes de colidir com a atmosfera da Terra, perfurando mais de 5.4 quilómetros de solo.

Apesar de serem necessárias análises adicionais para confirmar a idade e a identidade da potencial cratera, e para determinar se está associada ao asteroide que gerou Chicxulub, os cientistas estão cautelosamente otimistas com o potencial de um novo local de impacto.

O registo de impactos antigos da Terra está lamentavelmente incompleto graças à agitação geológica do planeta. As faixas superficiais são recicladas no manto do planeta, enquanto que outras áreas são repavimentadas com rocha vulcânica fresca, e outras são até removidas pelo movimento dos glaciares. Existem cerca de 200 crateras de impacto confirmadas no planeta, fator que impede os cientistas de compreender a fundo como é que estas colisões afetaram a antiga Terra – e o papel que podem desempenhar no futuro do nosso planeta.

“A Terra faz um ótimo trabalho a destruir as crateras de impacto”, diz Jennifer Anderson, geóloga experimental que estuda crateras de impacto na Universidade de Winona, que não participou no estudo. “Devido à geologia ativa do planeta, qualquer descoberta de uma nova cratera de impacto na Terra é sempre importante.”
 

Surpresa sísmica

Tal como acontece com muitas descobertas, a potencial cratera foi encontrada por acaso. O geólogo Uisdean Nicholson, da Universidade Heriot-Watt, em Edenborough, estava interessado em reconstruir a forma como a América do Sul se separou de África há cerca de 100 milhões de anos.

Para encontrar pistas, Uisdean Nicholson examinou as características debaixo do fundo do mar entre os dois continentes, colaborando com as empresas comerciais WesternGico e TGS para obter os dados sísmicos. Esta análise rastreia a forma como as ondas sísmicas ricocheteiam no subsolo e revela as características subterrâneas. Quase de imediato, Uisdean Nicholson reparou em algo estranho.

Especialista em levantamentos sísmicos, Uisdean Nicholson já tinha visto dados de muitas características que criam protuberâncias e depressões nas camadas subterrâneas da Terra, como cúpulas de sal que se erguem através de rochas circundantes mais densas. Mas as oscilações dos dados perante os seus olhos sugeriam algo mais cataclísmico. “Nunca vi uma coisa assim.”

Uisdean Nicholson entrou em contacto com outros cientistas, incluindo Veronica Bray, para perguntar se achavam que podia ser uma cratera de impacto, e todos concordaram – as características consistem numa depressão cercada por uma orla com um pico proeminente ao centro, algo comum nestes tipos de crateras.

Ao analisar a forma e o tamanho da estrutura, a equipa modelou como esta se pode ter formado. Os resultados sugerem que a cratera originou do impacto de uma rocha espacial com cerca de 400 metros de largura, que rasgou a atmosfera e atingiu a superfície do mar a quase 72.400 km por hora. Ao mergulhar no oceano, diz Veronica Bray, “deve ter passado pela água como se nem estivesse lá”.

A equipa estima que a colisão pode ter libertado a energia de 5.000 megatoneladas de TNT, vaporizando quase instantaneamente a água e as camadas abaixo do fundo do mar. Depois, uma onda de choque terá varrido a superfície, transformando qualquer rocha sólida em líquido. Em poucos minutos, o fundo do mar terá recuperado num pico central e depois desmoronado sobre si mesmo. O resultado seria um monte no meio de uma depressão em forma de tigela – exatamente o que os cientistas acreditam ter descoberto enterrado na costa oeste de África.

Ao correlacionar as camadas de sedimentos nesta área com as amostras datadas de outros locais, os investigadores estimam que estas características se formaram há cerca de 66 milhões de anos – apelativamente perto do impacto de Chicxulub.


Um golpe duplo ao nível planetário?

Estudar as consequências ambientais do evento que originou Nadir pode ajudar-nos a compreender melhor os danos provocados por futuros impactos no planeta. O hipotético asteroide que criou Nadir terá sido comparável em tamanho ao asteroide Bennu, que tem uma probabilidade de 1 em 1.750 de colidir com a Terra nos próximos três séculos, tornando-o num dos asteroides com mais probabilidades de atingir o nosso planeta. Um evento deste género não seria coisa pouca, provocando tsunamis ao longo de centenas de quilómetros. Ou, como diz Veronica Bray, “tem tamanho suficiente para destruir uma cidade ou duas”.

Não se sabe o que esta descoberta significa para a nossa compreensão dos eventos imediatamente após o impacto de Chicxulub e o fim do reinado dos dinossauros. A energia libertada no evento de Nadir e as suas consequências ambientais podem ter sido ofuscadas pela colisão do asteroide de Chicxulub com a Terra, que tinha 10 quilómetros de diâmetro, e pelo cataclismo global que se seguiu.

“É um campeonato completamente diferente”, diz Martin Schmieder, especialista em estruturas de impacto da Universidade de Ciências Aplicadas de Neu-Ulm, na Alemanha, que fez a revisão do estudo antes da sua publicação.

Contudo, o impacto de Nadir pode ter “piorado ainda mais as coisas” num ecossistema já de si devastado, diz Veronica Bray. E também é preciso determinar se houve outros impactos nesse mesmo período. Os autores do estudo salientam que, com 65.4 milhões de anos, a cratera de impacto Boltysh na Ucrânia é um pouco mais recente que Chicxulub.

Na Terra e noutros mundos, já foram documentados aglomerados de colisões de fragmentos de cometas ou asteroides. Por exemplo, perto de onde Jennifer Anderson vive, na região Centro-Oeste dos EUA, um trio de crateras data de há aproximadamente 460 milhões de anos. Estas crateras fazem parte dos vários impactos que ocorreram durante o período Ordoviciano, e que os cientistas associam a uma possível colisão no cinturão de asteroides que projetou uma série de meteoritos em direção ao nosso planeta ao longo de milhões de anos.

Contudo, conseguir identificar estes aglomerados no registo irregular de antigas colisões com a Terra apresenta um desafio. Estima-se que um impacto do tamanho de Nadir aconteça a cada 100.000 anos, diz Martin Schmieder. “Basicamente, é algo que pode acontecer a qualquer momento.”

Em relação à potencial cratera Nadir, são necessários mais estudos para determinar a sua formação.

“Esta é uma descoberta muito interessante”, diz Gareth Collins, cientista planetário especializado em crateras de impacto no Imperial College de Londres, embora alerte que ainda há muito para aprofundar sobre esta descoberta. São necessárias amostras diretas para confirmar a origem da cratera, bem como uma datação mais exata para o possível impacto que a formou.

Os autores do estudo já solicitaram fundos de emergência para perfurar a formação Nadir e recolher amostras das rochas na cratera que possivelmente sofreram choques, foram derretidas e misturadas, bem como das camadas de sedimentos mais acima. O espesso leito de areia e lama no topo desta estrutura pode ter preservado as características da cratera, e pode também ajudar a revelar o estado da vida oceânica nos anos que se seguiram ao impacto – fornecendo uma série de novos dados sobre o que acontece ao nosso planeta quando este é atingido por um asteroide.

“Mas como é óbvio”, diz Veronica Bray, “só teremos certezas quando investigarmos a fundo”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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