Os adoçantes de baixas calorias podem não ser tão saudáveis quanto pensávamos

Alguns adoçantes artificiais perturbam os micróbios nos nossos intestinos – possivelmente de formas que aumentam o risco de obesidade, diabetes e doenças cardíacas.

Por Sanjay Mishra
Publicado 13/09/2022, 11:01
 adoçantes artificiais

Os adoçantes artificiais, que podem ser entre centenas a milhares de vezes mais doces do que a cana-de-açúcar, geralmente não são processados pelo corpo humano, razão pela qual fornecem poucas ou nenhumas calorias.

FOTOGRAFIA POR Tristin Spinski, National Geographic

Todos conhecemos a sensação de beber um refrigerante “sem calorias”, a sensação de saborear o doce sem a culpa ou as calorias associadas ao açúcar. Porém, um novo estudo sugere que estes adoçantes artificiais podem não ser tão inofensivos quanto se pensava; e podem até aumentar o risco de diabetes ou obesidade.

Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que existia uma ligação entre os adoçantes artificiais e a obesidade nos humanos, contudo, até agora, essa ligação só tinha sido demonstrada em ratos de laboratório. Agora, no primeiro ensaio do seu género, cientistas em Israel testaram estes químicos em humanos. Os resultados mostram que os adoçantes artificiais, para além de perturbarem os micróbios que vivem nos nossos intestinos – e que são vitais para o fornecimento de nutrientes essenciais; na sintetização de vitamina K e digestão de fibras alimentares; entre outras coisas – alguns também podem afetar a rapidez com que o nosso corpo remove o açúcar do sangue após uma refeição. Quanto mais tempo a glicose permanecer no sangue, maior é o risco de diabetes, doenças cardiovasculares e doença renal crónica.

Os adoçantes com poucas calorias interrompem a atividade dos micróbios que vivem no intestino humano. Os adoçantes têm efeitos semelhantes aos do açúcar, mas as suas estruturas químicas são bastante diferentes, diz Michael Goran, professor de pediatria e diretor do programa de Nutrição e Obesidade do Hospital Infantil de Los Angeles.

“Os adoçantes são usados na esperança de nos darem um sabor doce sem termos de pagar o preço calórico”, diz Eran Elinav, imunologista do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, que liderou o estudo mais recente. “Mas os adoçantes não nutritivos não ficam inertes nos humanos.”

Todos os humanos albergam um conjunto único de micróbios – bactérias, vírus e fungos – que vivem naturalmente nos nossos corpos, nos intestinos, no nariz, na boca, na pele e nos olhos. O número de células que compõem esta vasta comunidade microbiana é aproximadamente igual ao número de células presentes no corpo humano. Esta comunidade, ou microbioma, é semeada no nascimento e, para além de ajudar na digestão, também protege contra patógenos e ajuda o sistema imunitário.

A disrupção no microbioma acontece porque os adoçantes não nutritivos, apesar de terem zero ou poucas calorias para os humanos, servem como nutrientes para alguns micróbios, que depois proliferam. Isto provoca um desequilíbrio nas populações microbianas que pode provocar inflamação intestinal crónica ou cancro do cólon.

“Os adoçantes são projetados para não terem calorias para nós, mas não para os nossos micróbios intestinais, que continuam a conseguir prosperar através dos adoçantes”, diz Michael Goran, professor de pediatria e diretor do programa de Nutrição e Obesidade do Hospital Infantil de Los Angeles.

O estudo israelita confirma que os adoçantes não nutritivos podem perturbar o microbioma intestinal no espaço de duas semanas de exposição e sugerem que os seus efeitos no metabolismo de açúcar podem variar de pessoa para pessoa.

“É um estudo convincente a mostrar como estes adoçantes estão realmente a afetar o corpo humano. E também têm efeitos semelhantes aos do açúcar, apesar de serem tipos de compostos diferentes”, diz Michael Goran.

David Katz, especialista em nutrição e fundador do Centro Yale-Griffin de Pesquisa Preventiva da Universidade de Yale, concorda com as palavras de Michael Goran. “É um estudo elegante, elaborado e poderoso que estabelece decisivamente que os adoçantes não nutricionais prejudicam o metabolismo da glicose, provocando danos específicos no microbioma”, diz David Katz.

História azeda dos adoçantes artificiais

O nosso gosto inato por comestíveis doces e a tendência para evitar substâncias amargas é uma adaptação evolutiva que nos levou a comer alimentos de alto valor energético numa época em que os alimentos nutritivos eram escassos. Os açúcares naturais, como a glicose, frutose, cana-de-açúcar ou açúcares do leite, são digeridos para produzir energia – que é medida em calorias – e ajudam os nossos órgãos a funcionar. Os adoçantes não nutricionais, que podem ser entre centenas a milhares de vezes mais doces do que a cana-de-açúcar, geralmente não são metabolizados pelo corpo humano, razão pela qual fornecem poucas ou nenhumas calorias.

A sacarina, o primeiro adoçante não nutritivo comercializado, foi descoberta por acaso em 1879 em derivados de alcatrão de carvão na Universidade Johns Hopkins. Graças ao presidente Theodore Roosevelt – que pensou que este açúcar artificial era uma forma “livre de culpa” para perder peso – a sacarina evitou uma proibição da agência Food and Drug Administration (FDA) dos EUA. Em 1977, quando a FDA tentou novamente banir a sacarina devido à suspeita de provocar cancro em ratos, os americanos reagiram – e enviaram milhões de cartas dirigidas ao Congresso, à FDA e ao presidente Jimmy Carter a protestar contra a proposta a proibição.

Contudo, foi exigido apenas um rótulo de aviso de cancro nos produtos que continham sacarina. Mas este alerta também foi descartado em 2000, quando os cientistas descobriram que os humanos metabolizam a sacarina de maneira diferente dos ratos, e que não representava risco de cancro para os humanos.

Os substitutos para o açúcar com poucas ou zero calorias permanecem em milhares de bebidas e alimentos pelo mundo inteiro e geraram 21,3 mil milhões de dólares de receitas em 2021. Este número deve aumentar à medida que a demanda por estes adoçantes – principalmente nos países de baixo e médio rendimento – continua a aumentar. Nos Estados Unidos, uma sondagem nutricional feita ao nível nacional em 2017 descobriu que 80% das crianças e mais de metade dos adultos consumem adoçantes com poucas calorias uma vez por dia. Os adultos obesos usam adoçantes de baixas calorias com mais frequência.

Esquerda: Superior:

Uma sondagem nutricional feita nos EUA em 2017 descobriu que 80% das crianças e mais de metade dos adultos nos Estados Unidos consumem adoçantes com poucas calorias uma vez por dia.

Direita: Inferior:

A perturbação do microbioma acontece porque os adoçantes não nutricionais, apesar de terem zero ou poucas calorias para os humanos, servem como nutrientes para alguns micróbios, que depois proliferam. Isto provoca um desequilíbrio nas populações de micróbios nos intestinos, algo que pode provocar inflamação intestinal crónica ou cancro do cólon.

Esquerda: Superior:

“É razoável considerar que a variedade de açúcares não nutricionais tem algum tipo de impacto fisiológico”, diz Karl Nadolsky, endocrinologista da Universidade do Michigan. “Porém, projetar isto em resultados e preocupações clínicas é um salto muito grande.”

Direita: Inferior:

“O consumo de açúcar continua a constituir um risco de saúde muito grave e está comprovado que promove a obesidade, diabetes e tem outras implicações para a saúde, e as nossas descobertas não suportam ou promovem o consumo de açúcar”, diz Eran Elinav, imunologista do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel.

Adoçantes artificiais, desde os ratos aos humanos

Há mais de uma década que Eran Elinav está interessado em descobrir as ligações entre nutrição, micróbios intestinais e o risco de desenvolvimento de doenças comuns, como a obesidade e diabetes, na esperança de desenvolver uma medicina personalizada baseada em microbiomas.

Em 2014, Eran Elinav e os seus colegas descobriram que a sacarina, a sucralose e o aspartame aumentam a glicose no sangue dos ratos para níveis significativamente mais elevados do que os registados em ratos alimentados com açúcar.

Quando os micróbios intestinais recolhidos de ratos alimentados com adoçantes artificiais foram administrados em ratos que não tinham bactérias intestinais próprias e que nunca receberam adoçantes artificiais, os seus níveis de glicose no sangue dispararam como se estivessem a consumir adoçantes artificiais.

Eran Elinav diz que, nos ratos, alguns destes adoçantes não nutritivos são detetáveis e afetam os micróbios intestinais, que têm uma incrível capacidade de metabolizar muitos destes compostos. Eran decidiu testar se o mesmo se aplicava aos humanos: será que os micróbios intestinais alterados poderiam perturbar o metabolismo da glicose?

A equipa de Eran Elinav começou por examinar 1.375 voluntários para perceber se havia algum tipo de consumo de adoçantes com zero calorias nas suas vidas diárias. Os investigadores identificaram 120 adultos que não tinham sido expostos anteriormente e deram-lhes um dos quatro adoçantes mais usados durante duas semanas – sacarina, sucralose, aspartame e estévia. Os voluntários foram depois monitorizados durante uma terceira semana. Os cientistas compararam as suas respostas de glicose no sangue com as de voluntários que não receberam adoçantes artificiais.

Em 14 dias após os voluntários receberem qualquer um dos quatro adoçantes artificiais testados, os cientistas observaram diferenças significativas nas suas populações de bactérias intestinais. “Identificámos mudanças muito distintas na composição e função dos micróbios intestinais e nas moléculas que segregam no sangue”, diz Eran Elinav. Isto sugere que os micróbios intestinais respondem rapidamente aos adoçantes artificiais.

Para testar a forma como os adoçantes artificiais afetam a capacidade do corpo em controlar os picos de açúcar no sangue após o consumo de açúcar às refeições, os níveis de glicose no sangue dos voluntários foram monitorizados depois de estes consumirem uma bebida de teste de glicose. Normalmente, os níveis de glicose no sangue devem atingir o pico dentro de 15 a 30 minutos e depois regressar ao normal passadas duas a três horas. Se os níveis de glicose permanecerem elevados, isto sinaliza que o corpo não está a processar e a armazenar o excesso de glicose adequadamente, um fenómeno conhecido por intolerância à glicose.

No estudo israelita, a sucralose e a sacarina levaram o corpo dos voluntários a ficar intolerante à glicose – algo que, se for sustentado, pode provocar o aumento de peso e diabetes. O aspartame e a estévia não afetaram a tolerância à glicose nos níveis ingeridos testados.

“As respostas glicémicas induzidas pela sacarina e sucralose, possivelmente pelo microbioma intestinal, podem ser mais pronunciadas”, diz Eran Elinav.

Para confirmar que o distúrbio nas populações microbianas perturbava os níveis de glicose no sangue, os cientistas administraram micróbios fecais das fezes de participantes humanos em ratos livres de germes. Este estudo descobriu que os micróbios dos voluntários com níveis elevados de açúcar no sangue também suprimiram o controlo da glicose nos ratos.

“Os micróbios intestinais – e as moléculas que segregam na nossa corrente sanguínea – estão muito alterados nos consumidores dos quatro tipos de adoçantes não nutritivos”, diz Eran Elinav. “Cada um dos grupos respondeu de uma forma única.”

Apesar de o estudo não ter acompanhado os voluntários a longo prazo, este trabalho é o primeiro a mostrar que o microbioma humano responde aos adoçantes não nutritivos de uma forma altamente individual. Isto pode interromper o metabolismo do açúcar em alguns, se não em todos os consumidores, dependendo dos seus micróbios e dos adoçantes que consomem. “O estudo é muito abrangente em termos de microbioma”, diz Michael Goran.

“Este estudo, porém, mais do que oferecer respostas, levanta novas questões”, diz Dylan Mackay, especialista em nutrição humana da Universidade de Manitoba, no Canadá, e diabético. Como os voluntários foram monitorizados por estarem livres de uma exposição prévia aos adoçantes não nutricionais, não se sabe se uma desregulação semelhante da glicose seria observada nas pessoas que consomem regularmente estes adoçantes, ou se pode haver algum grau de adaptação, diz David Katz. Também não está claro se as diferenças observadas entre os indivíduos podem dever-se a fatores genéticos, epigenéticos ou ao estilo de vida.

Será que devíamos mudar para o açúcar?

Alguns cientistas acreditam que as mudanças no microbioma intestinal após uma curta exposição a adoçantes não nutricionais não são suficientes para soar o alarme. “É razoável considerar que a variedade de açúcares não nutricionais tem algum tipo de impacto fisiológico”, diz Karl Nadolsky, endocrinologista da Universidade do Michigan. “Porém, projetar isto em resultados e preocupações clínicas é um salto muito grande.”

“Ainda não temos qualquer tipo de conhecimento sobre a persistência destes resultados”, diz Dylan Mackay. “Será que isto é algo que acontece quando somos expostos pela primeira vez a estes adoçantes não nutricionais? E será que continua para sempre?”

Os próprios autores do estudo alertam que pode ser necessário estudar a exposição a diferentes adoçantes artificiais a longo prazo para avaliar completamente os potenciais efeitos na saúde devido aos microbiomas alterados. Contudo, os cientistas também enfatizam que os seus resultados não devem ser interpretados como um apelo para consumir mais açúcar como uma alternativa aos adoçantes não nutricionais.

“Por um lado, o consumo de açúcar continua a constituir um risco de saúde muito grave e está comprovado que contribui para a obesidade, diabetes e tem outras implicações para a saúde, e as nossas descobertas não apoiam ou promovem o consumo de açúcar”, diz Eran Elinav. “Por outro lado, os impactos dos adoçantes que mostramos significam que devemos estar cautelosos.”

Este estudo fornece evidências bastante decisivas sobre os efeitos nocivos a curto prazo e sobre os mecanismos que podem provocar os mesmos efeitos adversos a longo prazo, diz David Katz. “Mas isto não significa que os adoçantes não nutricionais devam ser substituídos pelo açúcar, ou seja, revela que as abordagens alternativas para reduzir a ingestão de açúcar devem ser priorizadas.”

“Precisamos de soluções melhores para saciar o nosso desejo por gulodices”, diz Eran Elinav. “Para mim, pessoalmente, beber simplesmente água é o melhor.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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