Como as dores de cabeça derivadas da COVID-19 são diferentes das outras – e como lidar com elas

Os especialistas dizem que há três tipos de dores de cabeça que podem ocorrer devido à infeção por coronavírus. Descobrir exatamente qual é a dor que está a afetar uma pessoa é a chave para encontrar o tratamento certo.

Por Tara Haelle
Publicado 6/10/2022, 12:12
angiograma

Um angiograma feito no Centro Médico da Universidade da Virgínia revela a vasculatura cerebral de um paciente. As dores de cabeça relacionadas com uma infeção por SARS-CoV-2 podem resultar em lesões microvasculares que envolvem o nervo trigémeo.

Fotografia por Joe Mcnally, Getty Images

Enquanto sobrevivente de uma lesão cerebral traumática que aconteceu há pouco mais de uma década, Heather Schroeder sabe bem o que é ter dores de cabeça. Heather controlou as suas enxaquecas intermitentes com medicamentos e injeções de Botox desde que sofreu um acidente de equitação. Mas quando Heather apanhou COVID-19 em julho de 2021, as dores de cabeça que sofreu foram “um inferno”.

“Ao contrário de uma dor de cabeça relacionada com o meu TCE (Trauma Cranioencefálico), esta abatia-se como se fosse um cobertor a ser atirado sobre a minha cabeça. Não era um processo de ficar com dor de cabeça. De repente, tinha uma dor de cabeça e era excruciante”, diz Heather Schroeder, uma mulher de 52 anos que vive em Knoxville, no Tennessee. “Uma enxaqueca normal para mim pode ir dos oito ou nove em 10, com vómitos, sensibilidade à luz e mau estar depois da dor de cabeça. Mas esta dor era de 20 em 10.”

Não havia medicamentos que combatessem as dores de cabeça, diz Heather. As dores persistiram durante duas semanas e privaram-na de sono – permitindo-lhe apenas dormir 15 a 45 minutos de cada vez. “Muitas pessoas que conheço passaram os confinamentos da COVID a ver televisão ou a ler”, diz Heather Schroeder. “Eu passei o confinamento com uma compressa fria na cabeça a tentar aguentar as dores que sentia.”

Heather Schroeder está longe de estar sozinha. Numa revisão feita recentemente, aproximadamente metade de todas as pessoas com uma infeção aguda por COVID desenvolveu dores de cabeça, e as dores de cabeça foram o primeiro sintoma em cerca de 25% das pessoas. Apesar da classificação da COVID-19 enquanto doença respiratória, cerca de um em cada cinco pacientes com casos moderados ou graves de COVID-19 relatam que foram os sintomas neurológicos – incluindo dores de cabeça, confusão mental, perda de paladar e olfato – que os incomodaram mais.

Estas percentagens provavelmente estão subestimadas. “Os relatos sobre dor de cabeça variam dependendo se são avaliados em pacientes internados ou ambulatoriais”, diz Mia Tova Minen, chefe do departamento de pesquisa em cefaleia e neurologista da Universidade de Saúde Langone de Nova Iorque. “Provavelmente isto não é devidamente comunicado pelos pacientes hospitalizados, em parte porque há muitos outros sintomas que podem ser o foco desses pacientes.”

Tipos de dores de cabeça da COVID-19

Uma dor de cabeça é geralmente um sintoma inicial de COVID e é tipicamente bilateral – acontece em ambos os lados da cabeça, ou “na cabeça inteira”, como algumas pessoas descrevem. A dor varia de moderada a grave, mas várias pessoas disseram à National Geographic que são dores muito piores do que as sentidas nas dores de cabeça anteriores; outras classificaram a dor como semelhante à de enxaquecas anteriores. Mas entre 47 e 80% das pessoas com histórico de dores de cabeça descreveram a sua dor de cabeça derivada da COVID como sendo diferente das anteriores – como uma dor súbita e intensa.

Heather Schroeder, por exemplo, diz que as suas enxaquecas costumavam começar lentamente, dando-lhe tempo para reduzir a exposição à luz e tomar medicação. Mas a sua dor de cabeça COVID surge num instante, e as suas enxaquecas desde a infeção já não são as mesmas. “As minhas dores de cabeça são muito menos controláveis e, no outono e início da primavera, são muito mais frequentes do que nunca.”

O marido de Heather, Jesse Trucks, também sofreu um TCE devido a lesões desportivas e, tal como a esposa, foi vacinado quatro meses antes de contrair COVID-19. Jesse Trucks também desenvolveu dores de cabeça, que descreveu como distintas das resultantes da sua lesão cerebral. “As dores na cabeça devido à COVID pareciam uma broca de dentista a atingir um nervo”, diz Jesse. As dores de cabeça de Jesse Trucks normalmente formavam uma faixa em torno da frente da sua cabeça, mas a dor de cabeça da COVID fica estacionada na base do pescoço e na parte de trás da cabeça, prolongando-se durante dez dias.

As dores de cabeça relatadas por pessoas com casos de COVID aguda enquadram-se em três categorias principais, de acordo com Jennifer Frontera, neurologista da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque: dores de cabeça tipo enxaqueca, dores do tipo-tensão e dores de cabeça diárias persistentes. Cada uma corresponde a tipos de diagnósticos de cefaleia já existentes.

Algumas pessoas com COVID descrevem uma dor de cabeça semelhante à enxaqueca, com latejar num lado da cabeça, muitas vezes acompanhada por náuseas, vómitos e sensibilidade à luz e ao som. Vários estudos, porém, identificaram as características mais comuns das dores de cabeça da COVID como sintomas semelhantes aos das dores de cabeça do tipo tensional, que ocorrem em ambos os lados e têm um “um aperto semelhante ao de ter um elástico na cabeça”, diz Jennifer Frontera. Entre 70 a 80% das pessoas dizem que a dor é sentida em ambos os lados e na frente da cabeça, e descrevem-nos como uma sensação de “pressão” ou “aperto”. A sensibilidade à luz ou ao som e náuseas ou vómitos, por outro lado, ocorrem em menos de metade das pessoas que sofrem de dores de cabeça por COVID.

Mas algumas destas dores de cabeça do tipo tensional desencadeadas pela COVID têm outra característica que justifica a terceira categoria: duram dias, semanas ou até meses. E assemelham-se a “novas dores de cabeça diárias persistentes”, um diagnóstico para uma dor de cabeça que simplesmente não desaparece e geralmente é desencadeada por uma infeção viral, um procedimento médico, um evento stressante de vida ou até mesmo uma viagem de avião, diz Mia Tova Minen. Apesar de só ser formalmente diagnosticada como uma nova dor de cabeça diária persistente após 90 dias, Mia Tova Minen diz que os médicos geralmente reconhecem estas dores de cabeça e podem começar os tratamentos mais cedo.

As chamadas “novas dores de cabeça diárias persistentes” podem ser menos responsivas aos tratamentos padrão para as enxaquecas e dores de cabeça tradicionais do tipo tensional, levando muitos especialistas em dores de cabeça a vinculá-las às dores de cabeça contínuas que as pessoas descrevem durante um surto de COVID, diz Mia Tova Minen.

Num estudo feito com mais de 900 pacientes com COVID, as dores de cabeça duraram em média 14 dias, mas um em cada cinco pacientes ainda continuou a ter dores três meses depois; e um em cada seis pacientes ainda tinha dores nove meses depois. Quanto pior for a dor de cabeça durante uma infeção aguda, maior é a probabilidade de as pessoas virem a sofrer da mesma.

Causas da dor de cabeça da COVID-19

Os investigadores ainda estão a desvendar os mecanismos específicos de uma dor de cabeça derivada da COVID-19, mas algumas possibilidades incluem uma lesão direta provocada pelo vírus, uma resposta à inflamação – à medida que o corpo combate a infeção – menos oxigénio no sangue, desidratação, problemas de coagulação do sangue ou problemas com as células endoteliais que formam a camada interna dos vasos sanguíneos. Nenhum destes fatores, no entanto, explica todas as dores de cabeça da COVID.

“Provavelmente, há mecanismos ligeiramente diferentes em jogo”, diz Jennifer Frontera. “Os dados patológicos mais convincentes dizem respeito à lesão microvascular.” Os efeitos negativos da COVID-19 nos vasos sanguíneos são bem reconhecidos e podem afetar o nervo trigémeo, o maior nervo craniano e responsável pelas sensações faciais e atividades motoras, como mastigar e deglutir. Localizado perto da têmpora, na frente das orelhas em ambos os lados da cabeça, cada gânglio trigémeo – um grupo de nervos – tem três ramos ao longo das partes superior, média e inferior da face.

“Há uma associação entre dor de cabeça e perda de olfato e paladar, portanto um dos mecanismos pode dever-se a algum tipo de dano nessa via olfativa”, diz Mia Tova Minen. “A COVID pode estar a entrar pelo nariz e pode haver inflamação na cavidade nasal. Isso ativa os ramos do nervo trigémeo, o que pode provocar as dores de cabeça.”

Laura Johansen, investigadora clínica de saúde pública em Charlotte, na Carolina do Norte, reparou que a dor de cabeça que desenvolveu quando sofreu de COVID-19 em outubro de 2020 “alinhava-se praticamente com a perda de paladar e do olfato, e piorava juntamente com esses sintomas”, uma associação comum na investigação. Tal como acontece com a maioria das dores de cabeça derivadas da COVID, a dor que Laura Johansen sentia estava concentrada no topo e na frente da sua cabeça.

“Parecia que uma dor de cabeça de sinusite tinha chocado com uma enxaqueca”, diz Laura Johansen. “Durou cerca de quatro dias e, uma vez instalada, ficou solidamente estacionada – sem fluxos e refluxos, apenas uma dor contínua.” Embora Laura tenha tomado paracetamol, não serviu de muito.

O paracetamol é um dos tratamentos mais comuns recomendados pelos médicos, assim como medicamentos anti-inflamatórios não esteroides, metamizol, triptanos ou uma combinação entre estes, mas só 25% das pessoas sentiu um alívio completo; e metade disse obter algum alívio com estes medicamentos. Mia Tova Minen diz que os especialistas em dores de cabeça geralmente tratam as dores de cabeça do tipo tensional ou dores de cabeça diárias persistentes com gabapentina, um medicamento que também é usado para tratar convulsões e dores nos nervos.

“Como é óbvio, se uma pessoa não estiver a responder aos analgésicos básicos de venda livre, provavelmente convém marcar uma consulta com um especialista em dores de cabeça”, diz Jennifer Frontera. “Em primeiro lugar, para ter a certeza de que não há mais nada a acontecer e, de seguida, definir que tipo de dor de cabeça está a sentir. Os tratamentos são diferentes para as dores de cabeça do tipo enxaqueca, do tipo tensional ou das dores diárias persistentes.”

Dores de cabeça derivadas da COVID longa

Embora as dores de cabeça relacionadas com a COVID diminuam com os outros sintomas na maioria das pessoas, até 45% dos casos continuam a sofrer com dores de cabeça depois de os outros sintomas diminuírem.

Travis Littlechilds, analista de sistemas que vive em Londres, teve a sua dor de cabeça da COVID quase todos os dias nos últimos quatro meses. A sua dor de cabeça durante a infeção ativa foi semelhante a uma enxaqueca, diz Travis, “mas era extra sensível à pressão”. Curvar-se ou tossir era particularmente doloroso. Embora as suas dores de cabeça tenham perdido intensidade, a sensação é aproximadamente a mesma: uma forte pressão diretamente na parte de trás da cabeça que piora com o movimento.

Outros pacientes com casos de COVID longa relataram da mesma forma que a dor de cabeça que desenvolveram durante a infeção nunca desapareceu. Numa meta-análise de 36 estudos que envolveram mais de 28.000 pessoas, as dores de cabeça duraram até dois meses para uma em cada seis pessoas e até três meses para uma em cada dez. Para 8% dos pacientes, a dor de cabeça durou pelo menos seis meses. A maioria das investigações sobre dores de cabeça da COVID não aborda se os sintomas diferem entre pessoas vacinadas ou não vacinadas, mas há pelo menos um estudo recente que descobriu que, para as pessoas que foram vacinadas ou receberam doses de reforço, as dores de cabeça estavam entre os sintomas menos graves.

As pessoas com mais probabilidades de desenvolver dores de cabeça por COVID longa são pessoas com histórico de dores de cabeça, que tiveram dores de cabeça como primeiro sintoma, cuja dor de cabeça por COVID durou mais do que os outros sintomas de COVID ou cuja dor de cabeça não respondeu a analgésicos. As pessoas com dores de cabeça pós-COVID tendem a responder bem aos medicamentos como amitriptilina e nortriptilina, diz Jennifer Frontera.

Heather Schroeder, cuja doença era principalmente a dor de cabeça e a fadiga – sem um aperto no peito ou espirros – teve a sorte de não desenvolver uma dor de cabeça por COVID longa, e Heather e o marido continuam a tomar precauções para evitar outra infeção.

“Nunca mais quero ter uma dor de cabeça daquelas”, diz Heather. “Olho para trás e pergunto-me como é que sobrevivi à experiência. Curiosamente, não me lembro bem dos dias… mas consigo lembrar-me perfeitamente da dor.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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