Variante mortal da varíola dos macacos está a aumentar na África Central

Os especialistas estão a pedir medidas mais vigorosas para travar uma variante encontrada na República Democrática do Congo que é 10 vezes mais mortal do que a estirpe global.

Depois de perder uma filha devido à varíola dos macacos, Blandine Bosaku, de 18 anos, que está grávida, recebeu tratamento com antibióticos numa clínica rural no norte da República Democrática do Congo. Quando uma mulher grávida adoece com varíola dos macacos, a doença pode ser transmitida ao feto, reduzindo as probabilidades de sobrevivência do bebé. Os especialistas em saúde pública estão a pedir mais vigilância sobre as doenças nestas zonas remotas de África para detetar melhor os primeiros sinais de um surto.

Fotografia por Brent Stirton
Por Rene Ebersole
Publicado 21/10/2022, 11:37

Uma mulher grávida de oito meses coberta dos pés à cabeça com lesões. Crianças pequenas com febre e feridas dolorosas. Um pai a pedir dinheiro para comprar antibióticos para o filho doente de cinco anos depois de ter sepultado outras duas crianças infetadas com varíola dos macacos.

Estas memórias atormentam Divin Malekani, ecologista da Universidade de Kinshasa, na República Democrática do Congo (RDC), que faz consultoria em projetos da Wildlife Conservation Society, uma organização sem fins lucrativos, para ajudar a reduzir a exposição humana a doenças transmitidas por animais. “Vi muitos casos de pessoas doentes com varíola dos macacos”, diz Divin Malekani, referindo-se a uma viagem que fez no ano passado a uma província remota no noroeste do país.

O rio Sangha é uma rota comercial muito conhecida pelo transporte de mercadorias e carne de caça, com macacos, roedores e veados a serem caçados e vendidos em mercados nas aldeias da República do Congo e no país vizinho dos Camarões. Alguns investigadores dizem que a chave para reduzir o risco de as doenças infeciosas “transbordarem” da vida selvagem para as pessoas passa por proteger as florestas da invasão humana.

Fotografia por Brent Stirton

A varíola dos macacos, uma doença viral relacionada com a varíola que tem duas variantes conhecidas, foi nomeada em 1958 depois de ter sido identificada numa colónia de macacos de pesquisa num laboratório em Copenhaga. (Os cientistas acreditam que são os roedores, e não os primatas, o principal reservatório da doença.)

A forma mais moderada desta doença é a Clade II, também conhecida por variante da África Ocidental, que se tornou global em maio. Até ao momento, esta variante já infetou mais de 70.000 pessoas, matando pelo menos 30, em mais de uma centena de países e territórios, sendo que a esmagadora maioria são homens homossexuais. Os casos, tanto nos EUA como globalmente, estão a diminuir graças à vacinação e a alterações no comportamento sexual.

Enquanto isso, outra variante – dez vezes mais mortal – está a fustigar a África Central.

Os Centros de Controlo de Doenças de África relatam que este ano a maioria dos 3.500 casos suspeitos de Clade I (ou estirpe da Bacia do Congo), incluindo mais de 120 mortos, são na RDC. A Nigéria, onde começou o surto de Clade II, teve cerca de 700 casos suspeitos, com menos de 10 mortos.

Os especialistas em saúde consultados pela National Geographic sobre o aumento constante da variante Clade I na África Central dizem que os países devem preocupar-se com a ameaça que representam para as comunidades globais e tomar medidas mais fortes para impedir que esta e outras doenças transmitidas por animais se propaguem pelo mundo inteiro.

“Se a estirpe da África Ocidental se pode propagar pela Europa, América e por outras partes do mundo, a estirpe mais virulenta e patogénica da Bacia do Congo também pode chegar aos mesmos locais”, diz Dimie Ogoina, especialista em doenças infeciosas da Universidade Niger Delta, na região sul da Nigéria. “As partes internacionais interessadas na saúde devem ser deliberadas na ajuda dada para lidar com a varíola dos macacos e outras doenças em África. Porque se não o fizermos, isto vai regressar para nos atormentar.”

Alertas ignorados

Dimie Ogoina tem algum conhecimento sobre a varíola dos macacos, porque é o pediatra que, em setembro de 2017, confirmou a doença num menino de 11 anos – o primeiro caso de varíola humana na Nigéria em quase 40 anos. É também o investigador que alertou, há quatro anos, que parecia haver uma alteração alarmante não apenas na forma como o vírus era transmitido, mas também em quem estava a ser infetado.

Arthur Bengo, de 28 anos, ficou infetado com varíola dos macacos depois de comer um macaco doente que tinha caçado para alimentar a sua família, no norte da República Democrática do Congo. Conforme a febre aumentava, Arthur Bengo desenvolveu lesões dolorosas que deixaram cicatrizes no seu rosto e corpo. Os Centros de Controlo de Doenças de África relatam que este ano já se registaram mais de 3.500 casos de varíola dos macacos na RDC, incluindo mais de 120 mortes.

Fotografia por Brent Stirton

Quando este surto emergiu, os especialistas acreditavam que a doença se estava a comportar da mesma forma observada noutras partes de África, afetando principalmente pessoas que tinham interagido com animais selvagens infetados com varíola dos macacos, muitas vezes enquanto caçavam, preparavam carne ou tinham contacto de proximidade com uma pessoa que contraíra a doença através de um animal. Normalmente, estes surtos desvaneciam.

Contudo, inesperadamente, Dimie Ogoina e os seus colegas repararam numa tendência invulgar: a maioria das pessoas diagnosticadas com varíola dos macacos na sua clínica não vivia em áreas rurais – eram jovens profissionais da classe média que viviam em cidades movimentadas, e as suas lesões estavam fortemente concentradas nos genitais. A comunidade científica duvidou das descobertas de Dimie Ogoina. “O que estávamos a observar era fora do normal”, diz Dimie. “Portanto, as pessoas não estavam dispostas a aceitar.”

Avançando rapidamente até ao surto global de varíola dos macacos de 2022, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA informaram recentemente que os homens representam 99% dos casos de varíola dos macacos nos Estados Unidos, e 94% destes pacientes reconheceram contactos recentes de intimidade ou sexuais entre homens.

Alguns especialistas em doenças dizem que os céticos perderam uma oportunidade importante para acabar com o surto antes de este ganhar tração. “A varíola dos macacos deve ser encarada como se fosse o canário na mina de carvão, porque precisamos de monitorizar muito melhor as doenças nas populações de alto risco”, diz Anne Rimoin, investigadora de doenças infeciosas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que estuda a varíola dos macacos há duas décadas na RDC. “Os lugares mais difíceis e dispendiosos para o fazer ficam nas áreas rurais e remotas de África”, diz Anne. “Mas com o crescimento das populações humanas, mobilidade e comércio, estes vírus podem facilmente acabar à nossa porta.”

Anne Rimoin tem vindo a alertar há anos que os casos de varíola dos macacos estão a aumentar, particularmente na RDC, onde a doença foi descoberta pela primeira vez em humanos na década de 1970 – num bebé de nove meses. Anne e os seus colegas publicaram um estudo em 2010 que revelava que a taxa de incidência de varíola dos macacos neste país tinha aumentado 20 vezes durante os 30 anos desde que terminaram as vacinações contra a varíola, que suprimiam simultaneamente a varíola dos macacos. Os investigadores disseram que ignorar este aumento podia desperdiçar a oportunidade de “combater o vírus enquanto o seu alcance geográfico ainda é limitado”.

“Os casos de varíola dos macacos têm continuado a aumentar nos últimos 12 anos na RDC, bem como noutros países da África Central e Ocidental”, diz Anne Rimoin. Embora o modo de transmissão da Clade I – que ainda passa da vida selvagem infetada para as pessoas – seja diferente da forma como a doença se propagou da África Ocidental para o mundo, isso pode mudar. “Podemos não estar a ver isso agora, mas não significa que não iremos ver. Se houve alguma coisa que a pandemia de COVID-19 nos ensinou”, diz Anne, “é que uma infeção em qualquer lugar tem potencial para uma infeção em todo o lado”.

Prevenir transbordos

Mais de 60 anos depois de a varíola dos macacos ter sido descoberta em macacos de laboratório, os cientistas ainda continuam a tentar identificar os animais selvagens onde o vírus vive, cresce e multiplica.

Em 2012, Divin Malekani, ecologista da Universidade de Kinshasa, juntou-se a uma equipa de investigação que tentava reduzir o número de animais suspeitos. Os cientistas capturaram ou compraram a caçadores mais de 350 mamíferos numa área da RDC onde as infeções por varíola dos macacos ultrapassavam em média as 660 pessoas por ano. Os investigadores encontraram anticorpos contra a varíola em sete animais, incluindo em esquilos, num arganaz africano e num rato Cricetomys – animais que são fontes de alimento. Na RDC, de acordo com as Nações Unidas, cerca de 27 milhões de pessoas – um quarto da população – lutam contra a fome. Muitas não têm escolha a não ser caçar para sobreviver.

A cidade de Oesso, nas margens do rio Sangha, na República do Congo, é um importante centro de comércio de carne selvagem. Animais e outros bens são transportados em canoas de madeira, automóveis e motorizadas. Os vendedores locais oferecem a carne a metade do preço do que esta é obtida nas grandes cidades, onde um surto se pode propagar rapidamente, infetando milhões.

Fotografia por Brent Stirton

A possibilidade de haver carne selvagem infetada com varíola dos macacos a chegar a um mercado em Kinshasa, a maior cidade de África, onde é consumida como uma iguaria – um gostinho de casa – preocupa Divin Malekani e outros especialistas. Os países precisam de ajudar as pessoas a reduzir o consumo de carne selvagem, para evitar o aparecimento de pandemias, diz Sarah Olson, epidemiologista da Wildlife Conservation Society. “Isto não vai fechar o génio novamente na lâmpada, mas pode reduzir a futura transmissão de varíola dos macacos e de outras doenças da vida selvagem para as pessoas.”

Ao conciliar os países em preparação para responder às doenças infeciosas, a Organização Mundial de Saúde está a tomar medidas para criar um tratado pandémico internacional que seja vinculativo juridicamente. Alguns investigadores estão preocupados com o facto de o foco estar demasiado concentrado no tratamento da doença quando esta chega aos humanos, em vez de nos esforços para impedir que os patógenos “transbordem” dos animais para as pessoas.

Os eventos de transbordo acontecem porque os humanos interferem na natureza. O abate de florestas para a extração de madeira, agricultura e sustentar cidades penetra em ecossistemas repletos de vida selvagem. Quando as pessoas comercializam animais selvagens como alimento, animais de estimação e para fins medicinais, correm o risco de exposição a patógenos. E para as pessoas empobrecidas que vivem nas regiões mais remotas de África, os cuidados médicos – quando existem – podem ser demasiado dispendiosos.

Conseguimos evitar os eventos de transbordo, diz Aaron Bernstein, diretor interino do Centro do Clima, Saúde e Ambiente Global da Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, se protegermos as florestas, banirmos ou regularmos rigorosamente o comércio de vida selvagem e melhorarmos as condições agrícolas. Outro passo crucial: ajudar as pessoas que vivem nos pontos de foco de doenças a ter acesso a oportunidades de emprego e a fontes de alimentos para além da carne selvagem.

“Vamos precisar sempre de vacinas, testes, medicamentos e infraestruturas de saúde pública”, diz Aaron Bernstein, “mas se nos focarmos apenas nisso, é o mesmo que tentar lidar com as alterações climáticas a construir diques, enquanto deixamos as emissões de gases de efeito estufa escapar pelo telhado”. É isso que está a acontecer com as doenças infeciosas, acrescenta Aaron. “Estamos basicamente a dizer que vamos gastar milhares de milhões de dólares a tentar conter estas coisas depois de elas acontecerem, sem reconhecer a raiz do problema.”

Henriete Bakete Wanda, de 13 anos, está em isolamento num quarto hospitalar onde está a receber tratamento com antibióticos para uma infeção por varíola dos macacos, depois de a sua mãe ter rapidamente reconhecido os sintomas e procurado ajuda. Uma em cada 10 pessoas infetadas com a virulenta estirpe Clade I da varíola dos macacos acaba por morrer da doença.

Fotografia por Brent Stirton

Enquanto isso, na RDC, formadores do Fundo Internacional de Conservação e Educação estão a viajar de aldeia em aldeia, onde mostram vídeos com habitantes locais a falar sobre as suas experiências com a varíola dos macacos e formas de evitar a doença.

Um homem conta que a febre do seu bebé estava tão alta que ele sentiu como se estivesse a dormir ao lado de uma fogueira. No hospital, o bebé desenvolveu lesões que se espalharam pelo corpo inteiro, incluindo rosto, mãos e pés. A doença ficou tão grave que o bebé faleceu, deixando os pais perplexos. Outros aldeões partilham histórias semelhantes sobre a intensidade da estirpe mais mortal da varíola dos macacos – crianças com “inchaços” no rosto e gargantas tão inchadas que mal conseguem comer ou beber.

“Se tivéssemos de lançar os dados, na verdade até tivemos sorte com a variante que se espalhou pelo mundo inteiro”, diz Sarah Olson. “Ainda há uma oportunidade para compreender o que está a acontecer com a outra variante do vírus antes de as coisas descarrilarem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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