São Tomé e Príncipe: A Riqueza da Pérola do Equador Abaixo da Linha de Água

Águas do arquipélago fervilham de vida, mas esta é ainda relativamente desconhecida e está ameaçada.

Por Nuno Vasco Rodrigues
Cardume de Peixes-soldado Myripristis jacobus, uma imagem comum nos recifes de São Tomé e Príncipe.
Cardume de Peixes-soldado Myripristis jacobus, uma imagem comum nos recifes de São Tomé e Príncipe.
fotografia de Nuno Vasco Rodrigues

Outrora nome incontornável no comércio internacional do cacau e café, São Tomé e Príncipe é hoje um dos países economicamente mais pobres do mundo. Em contrapartida, possui uma riqueza natural imensurável, terras extremamente férteis e um mar fervilhante de vida. Grande parte da população local vive da agricultura ou do que o mar oferece, sendo o peixe a principal fonte de proteína animal para os são-tomenses.

Apesar desta ligação ao mar, a vida marinha local é ainda relativamente desconhecida do ponto de vista científico. Balthazar Osório, no final do século XIX, foi responsável por algumas publicações científicas sobre a ictiofauna (fauna piscícola) de São Tomé, seguindo-se expedições pontuais no século XX e início do século XXI, algumas delas incluindo também a Ilha do Príncipe, que trouxeram importante informação adicional e permitem hoje afirmar São Tomé e Príncipe como um hot-spot de biodiversidade marinha.

Em novembro de 2015, numa expedição a São Tomé, três investigadores (dois portugueses e um brasileiro) especialistas em peixes, fizeram descobertas surpreendentes, nomeadamente de espécies novas para a região e de interações ecológicas nunca reportadas. Contribuíram ainda para a criação de plataformas de comunicação e educação inovadoras e inéditas para a região, com vista a dar apoio aos tomadores de decisão, em particular no que à conservação marinha diz respeito.

Garoupa de São Tomé Serranus pulcher, espécie descrita apenas em 2016.
Garoupa de São Tomé Serranus pulcher, espécie descrita apenas em 2016.
fotografia de Nuno Vasco Rodrigues

A motivação para esta expedição tinha surgido uns anos antes, após algum tempo de permanência de um dos investigadores naquele país, onde encontrou um cenário preocupante ao nível da gestão das pescas. O desembarque de pescado de dimensões muito reduzidas - frequentemente abaixo da idade de maturação - e o baixo número de indivíduos pertencentes a espécies tipicamente predadoras, eram o resultado “normal” da atividade pesqueira na região, que embora quase exclusivamente artesanal, evidenciava um ecossistema desequilibrado e um cenário clássico de sobrepesca. Também os mergulhos exploratórios feitos nesse período evidenciavam fortes indícios dessa sobrepesca: recifes de corais destruídos, redes e outros utensílios de pesca abandonados no fundo marinho, para além da quase ausência dos típicos predadores desta região como as garoupas, pargos-lucianos e tubarões, outrora bem mais abundantes nestas águas, como comprovado pelo mesmo em 2005, numa primeira viagem àquele país.

Em cerca de duas semanas de trabalho, e através da combinação de metodologias distintas (porém complementares), os cientistas recolheram dados científicos que permitiram recentemente publicar o livro “Peixes marinhos costeiros de São Tomé e Príncipe”, a primeira obra do género dedicada à fauna marinha do país. Esta publicação é, porém, o capítulo final de um projeto que permitiu ainda a publicação de dois artigos científicos e um póster ilustrativo das principais espécies comerciais daquela região.

A base de trabalho para os primeiros dias foi o Ilhéu das Rolas, uma ilha de pequena dimensão, a sul de São Tomé, que apresenta uma elevada heterogeneidade de habitats subaquáticos (recifes de coral, recifes rochosos, coluna de água, fundos arenosos) e onde foi possível explorar diferentes profundidades em mergulho (entre a superfície e os 50 metros), nas diversas horas do dia (e da noite!), graças à existência de um centro de mergulho, um dos parceiros no projeto. Os trabalhos visavam registar o maior número de espécies de peixes possível, tendo em conta as diferentes preferências de habitat, profundidade ou modo de vida que cada uma naturalmente apresenta.

Bodião-crioulo-africano Clepticus africanus, espécie endémica de São Tomé e Príncipe.
Bodião-crioulo-africano Clepticus africanus, espécie endémica de São Tomé e Príncipe.
fotografia de Nuno Vasco Rodrigues

No final dos mergulhos, recorriam ao lançamento do BRUV (Baited Remote Underwater Video, Vídeo Subaquático Remoto Iscado) e exploravam para além das profundidades que o mergulho convencional permitia. O registo videográfico era feito através de uma pequena câmara - protegida por uma caixa estanque com capacidade de resistir às elevadas pressões existentes até 500 metros abaixo da linha da água - direcionada para um isco, iluminado por uma potente fonte de luz. Perto do final do dia e aproveitando as últimas horas de luz, os investigadores concentravam-se num pequeno cais onde funcionários do resort do ilhéu e aldeãos locais regateavam o preço do peixe com pescadores que ali exibiam o resultado do dia, capturado com linha de mão desde as suas pirogas de madeira movidas a remos. Nesse processo, cada espécie era analisada e fotografada, sempre com autorização do mestre da embarcação. Com o pôr-do-sol vinha o trabalho “de escritório”: análise das imagens recolhidas e compilação e processamento dos dados registados. Os últimos dias foram passados na Ilha de São Tomé e dedicados essencialmente à amostragem em mercados de peixe locais e pontos de desembarque de pescado.

Alguns meses depois surgem os primeiros resultados do trabalho na revista Acta Ichthyologica et Piscatoria:  num artigo assinado pelos três investigadores, são descritas dez novas espécies para a comunidade de peixes local. Estas espécies, embora já conhecidas para a ciência, não estavam referenciadas para aquela região insular africana. Incluíam, por exemplo, a Castanheta dos Açores (Chromis limbata), encontradas num mergulho a cerca de 40 metros, o Imperador (Beryx decadatylus), observado e fotografado no mercado de peixe de São Tomé, duas espécies de mantas (Mobula tarapacana e Mobula thurstoni), capturadas por pescadores locais, e até o maior peixe do mundo, o Tubarão-baleia (Rhincodon typus), observado num mergulho, na zona oriental da ilha de São Tomé.

Castanhetas dos Açores Chromis limbata, uma das novas espécies reportadas para a região.
Castanhetas dos Açores Chromis limbata, uma das novas espécies reportadas para a região.
fotografia de Nuno Vasco Rodrigues

As principais espécies comerciais dos peixes da região, fotografadas nos mercados e zonas de desembarque de pesca durante a expedição, deram também origem, no final de 2016, a um póster destinado à população geral. Centenas de cópias foram distribuídas gratuitamente, tanto em São Tomé como no Príncipe, pelas instituições governamentais locais, ONGs, escolas e associações de pescadores.

Mais recentemente, os investigadores assinaram um artigo na Cahiers de Biologie Marine no qual reportam novos tipos de interações de limpeza entre peixes recifais. Nesta publicação, descrevem o comportamento que certas espécies de peixes (limpadores) exibem em relação a outras (clientes), removendo parasitas ou muco e beneficiando assim de uma refeição, numa simbiose de benefício mútuo. O fenómeno ecológico é sobejamente conhecido em termos ecológicos, porém, as especificidades que o mesmo apresenta nesta região eram ainda uma incógnita.

O principal objetivo da expedição é alcançado no final de 2018, após três anos de trabalho: a publicação do livro “Peixes marinhos costeiros de São Tomé e Príncipe”. Nesta obra, em formato de guia fotográfico, são apresentadas as espécies de peixes marinhos costeiros mais comuns nas águas do arquipélago e as suas principais características.

Capa do livro Peixes marinhos costeiros de São Tomé e Príncipe.
Capa do livro Peixes marinhos costeiros de São Tomé e Príncipe.
fotografia de Nuno Vasco Rodrigues

O curto espaço de tempo e a escassez de recursos empregue nesta expedição permitiu, ainda assim, recolher imensos dados, alguns deles de caráter inovador e de relevância científica. A aposta em expedições semelhantes, idealmente com mais recursos, permitirá alcançar um conhecimento mais profundo acerca da vida marinha local. Num país em que os recursos marinhos assumem um papel tão importante, é imperativo criar ferramentas que permitam a sua conservação. Mas para tal, é preciso conhecê-los. Antes que seja tarde demais.

 

 

Nuno Vasco Rodrigues é Assistente de Curador no Oceanário de Lisboa, Investigador no MARE IPLeiria e Fotógrafo subaquático.

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