Árvores que Viajaram ao Espaço Vivem Agora na Terra. Saiba Onde Encontrá-las.

Crescidas a partir de centenas de sementes que foram à lua na Apollo 14, estas curiosidades arbóreas quase se perderam na história.segunda-feira, 15 de julho de 2019

Por Catherine Zuckerman

Desde 1977, um imponente plátano recebe os visitantes no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA. Parece um plátano igual aos outros, uma árvore entre muitas, no calmo e folhoso campus nos subúrbios de Maryland.

Mas o que muitas pessoas não sabem, quando desfrutam da sua sombra ou admiram a sua folhagem a mudar com as estações, é que esta árvore veio da lua.

O plátano de Goddard é uma de dezenas de “árvores lunares” espalhadas pelos Estados Unidos, cultivadas a partir de sementes que viajaram com o astronauta Stuart Roosa, na missão Apollo 14, em 1971. Roosa foi o piloto do módulo de comando, o que significa que permaneceu em órbita lunar, enquanto o comandante Alan Shephard e o piloto do módulo lunar Edgar Mitchell visitaram a superfície da lua. Durante esse período, Roosa tinha centenas de sementes dentro do seu kit pessoal.

As sementes, para além de serem uma experiência científica e, em parte, uma ação de relações públicas, representam um projeto conjunto entre o Serviço Florestal dos EUA e a NASA. Antes de ser astronauta, Roosa tinha sido bombeiro paraquedista no Serviço Florestal, e levar as sementes para o espaço ajudou a consciencializar o público para o papel desta agência federal, dando ao mesmo tempo aos cientistas da NASA uma oportunidade para investigarem uma questão importante: Como é que a microgravidade afeta as plantas?

Depois de amarar na Terra, a tripulação, juntamente com as sementes, ficou de quarentena. O período de quarentena, protocolo padrão para a época, tinha como objetivo evitar que qualquer micróbio lunar – potencialmente nocivo – se espalhasse pelo nosso planeta. Houve um breve momento de pânico quando o recipiente que continha as sementes rebentou dentro de uma câmara de vácuo. Mas as sementes sobreviveram ao incidente, e a maioria germinou normalmente.

Nos anos que se seguiram, as mudas foram plantadas nos Estados Unidos, muitas delas em 1976, integradas nas comemorações do bicentenário do país. Talvez ofuscadas por esse aniversário histórico, as plantações receberam pouca atenção nacional e, para além de algumas cerimónias locais, praticamente desapareceram.

Ponto de viragem
Cerca de 20 anos mais tarde, Dave Williams recebeu um email. Williams, cientista planetário em Goddard, tinha sido encarregue de arquivar os dados lunares e planetários no site da agência que, como muitos outros sites na década de 1990, estava no seu início.

Entretanto, uma professora do terceiro ano, do estado do Indiana, chamada Joan Goble, estava a ler o site à procura de informações sobre uma árvore curiosa que tinha encontrado. Quando viu o nome de Williams, que estava listado com os dados que o cientista estava a catalogar, decidiu contactá-lo por email. Joan explicou que um projeto escolar sobre árvores locais a levou a si e aos seus alunos a um acampamento de escuteiras perto da escola. Estava lá uma árvore, escreveu Joan, e tinha uma pequena placa de madeira a dizer “árvore lunar”. Joan perguntou a Williams se ele a poderia esclarecer sobre a situação, e dizer se existiam mais árvores lunares.

"Eu disse que nunca tinha ouvido falar delas!", diz Williams, que ficou tão contente com a pergunta que, como projeto pessoal, começou a procurar o significado das árvores lunares. "Eu perguntei em Goddard – existem certamente muitos veteranos que trabalharam no programa Apollo", diz. "Perguntei a todas as pessoas, e ninguém tinha ouvido falar das árvores lunares.”

Williams pesquisou online e pediu ajuda ao departamento histórico da NASA – encontrou uma investigação que mostrava os locais de cerca de meia dúzia de outras árvores lunares, bem como alguns recortes antigos de notícias que mencionavam as árvores lunares da Apollo 14. E também se deparou com um telegrama de 1976, do presidente Gerald Ford, enviado para várias cerimónias de plantações de árvores no dia do bicentenário dos EUA, parte da qual dizia: “Envio saudações calorosas àqueles que participam nesta cerimónia única, dedicando uma pequena árvore que foi levada da terra para a lua, a 31 de janeiro de 1971, a bordo da Apollo 14. Esta árvore, que foi transportada pelos astronautas Stuart Roosa, Alan Shepard e Edgar Mitchell, na sua missão à lua, é um símbolo vivo das nossas admiráveis conquistas humanas e científicas.”

Williams partilhou o que sabia com Joan, e depois teve uma ideia.

"Estava a pensar que esta história era muito interessante", diz Williams, e construiu uma página no site da NASA onde os leitores poderiam aprender mais sobre as árvores lunares da Apollo. E também convidou as pessoas a ajudarem-no na sua busca. “No final da página, dizia: se conhece uma árvore lunar perto de si – porque não existiam registos de onde tinham sido plantadas – envie-me um email. E comecei a receber respostas!”

A página de Williams sobre as árvores lunares continua bem de saúde, com uma contagem atual de 80 árvores verificadas. Algumas entradas, como um pinheiro plantado na Casa Branca, estão marcadas com um asterisco para assinalar que a árvore morreu. Outras, como um abeto que brotou com sucesso no Edifício do Capitólio do Estado, em Salem, no estado do Oregon, incluem um link com informações mais abrangentes sobre a árvore e a sua localização.

Semear lá em cima
Para além de mostrarem que muitas das sementes parecem estar a crescer bem na Terra, as árvores lunares nunca foram formalmente estudadas, não fornecendo por isso muita informação sobre os efeitos botânicos de uma excursão à volta da lua. Felizmente, a NASA não se ficou pelas mudas.

Por exemplo, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, os investigadores estão a fazer experiências com plantações que estão a ser cultivadas na Estação Espacial Internacional (EEI).

“O maior desafio que temos agora é a água e como regar as plantas”, diz Gioia Massa, cientista do projeto de ciências biológicas no espaço. A solução atual exige que os astronautas reguem as plantas à mão, espremendo o líquido através de uma seringa, no substrato de argila, onde as sementes estão a crescer. "É tudo manual, e é muito trabalhoso", diz Massa.

Mas as recompensas são boas ou, neste caso, picantes. Desde 2015, os astronautas são livres de comerem o que cultivam, diz Massa, e agora, na EEI, estão a apreciar mostarda mizuna – uma planta folhosa que tem um travo apimentado.

“Os astronautas podem comer metade do que produzem”, diz Massa, “e o resto é usado na ciência”.

Uma das coisas estudadas por Massa e pela sua equipa é a segurança alimentar. No ambiente fechado de uma nave espacial, o ecossistema consiste em seres humanos, plantas e microrganismos, e gerir esse equilíbrio é fundamental. Massa também estuda os perfis químicos e nutricionais das plantas, e estuda se o futuro cultivo de plantas em Marte pode incluir o uso de terra e minerais do planeta vermelho.

Outro potencial fator-chave para a agricultura fora da Terra envolve a capitalização de um processo chamado evapotranspiração.

"Isto significa que a água que as plantas estão a absorver é evaporada das suas folhas, como um tipo de vapor de água extremamente puro", diz Massa. “É algo que podemos recolher e reutilizar, fazendo destas plantas um componente verdadeiramente crucial para os futuros sistemas de suporte à vida. Especialmente a longo prazo, quando estamos a tentar começar a ser independentes da Terra.”

Mas claro que, pode demorar muito tempo até que os humanos – e as árvores – prosperem em Marte. Mas enquanto isso não acontece, os aspirantes a astronautas podem visitar uma árvore lunar e talvez se sintam um pouco mais perto dessa grande aventura fora do nosso mundo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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