Cultura

12 Livros de 2017 A Não Perder

Dois dos mais fervorosos amantes de livros da National Geographic falam dos seus livros favoritos do ano Sexta-feira, 5 Janeiro

Por Simon Worrall

Na qualidade de curador da Book Talk, da National Geographic, Simon Worrall entrevista autores de livros sobre ciência, animais, aventura, história e as maravilhas do mundo. Na qualidade de diretora editorial e editora da National Geographic Books, Lisa Thomas passa os dias a trabalhar com autores para criar “aqueles” livros. Worrall e Thomas encontraram-se para falarem sobre os seus livros preferidos do ano.

Simon Worrall: Lisa, quais foram os livros que te arrebataram este ano?

Lisa Thomas: O nosso livro do ano é The Photo Ark de Joel Sartore. O Joel tem vindo a fotografar todos os animais em cativeiro do mundo. Vai a meio caminho e já conta com uma coleção extraordinária. O que é curioso é que ele fez belíssimas comparações entre as espécies. As histórias que ele conta sobre as fotografias dos animais e os desafios que enfrenta são cativantes. É um livro extraordinário! E a ti?

SW: Vou começar com um livro chamado Cannibalism: A Perfectly Natural History, de Bill Schutt, que apresentei na Book Talk em fevereiro. Há algo de profundamente repugnante, mas fascinante na ideia de comer outras pessoas. É o tabu supremo. Serias capaz ou não? Mas uma das coisas que aprendi é que no reino animal o canibalismo é extremamente comum. Além disso, nem todas as culturas partilham este tabu. Na China antiga, por exemplo, era comum aparecerem partes do corpo humano nas ementas imperiais, ao lado do porco agridoce ou do pato coberto com mel. "Passe-me a coxa humana, por favor."

LT: [Risos] Quando falas da linha entre aquilo que nos torna ou deixa de tornar humanos, lembro-me de um estupendo livro publicado na primavera: Almost Human, de Lee Berger, que conta a história dos Homo naledi que descobriu na África do Sul. A forma como tratamos a morte e o que fazemos com os nossos mortos é uma parte do que nos torna humanos. O Lee encontrou os esqueletos numa caverna onde, aparentemente, os cadáveres eram depositados deliberadamente. O que eu acho fascinante é que estamos só a tocar a superfície. Nunca tínhamos pensado em procurar cadáveres em cavernas. Fazíamos pesquisas em leitos de lagos secos e outros locais similares. É todo um novo mundo de locais a explorar que se abre para nos ajudar a compreender as nossas origens.

SW:  A minha segunda escolha é um livro chamado  The Amazing Story of the Man Who Cycled from India to Europe For Love, que apresentámos na Book Talk em abril (leia mais sobre a história). É uma maravilhosa história de amor de um homem chamado Pradyumna Kumar “PK” Mahanandia, que nasceu “intocável” numa aldeia remota da Índia oriental, uma zona que serviu de inspiração para o Livro da Selva de Rudyard Kipling.

Sendo um “intocável”, Mahanandia nunca esperou fugir a uma vida de pobreza e discriminação. Mas era um artista talentoso e obteve uma bolsa para ir para um escola de artes em Deli. Para fazer face às despesas, quando andava na escola, desenhava retratos de turistas na principal praça da cidade.

Um dia, olhou para cima e à sua frente estava uma bela sueca a olhar para ele. Esta pediu-lhe para pintar um retrato e voltou no dia seguinte para outro. Apaixonaram-se. Ela era, afinal, uma condessa sueca a percorrer a rota hippie. Depois de ela regressar a casa, comunicaram por carta, mas ele percebeu que, para que acontecesse algum coisa, tinha de conseguir ir da Índia à Suécia para a pedir em casamento. Por isso, seguiu pela Ásia e pela Europa fora de bicicleta, a pé e à boleia para a encontrar. Casaram e o livro deverá ser adaptado ao cinema.

LT: Que história fantástica! A ideia de alguém que vai até aos confins do mundo atrás de uma paixão encontra eco num livro que publicámos este ano: Shark, de Brian Skerry. O Brian é um extraordinário fotógrafo subaquático, autor de três artigos com chamada de capa na revista National Geographic sobre diferentes espécies de tubarões.

O livro apresenta muitas das suas histórias sobre os tubarões-brancos que se têm vindo a juntar na costa da Nova Inglaterra em cada vez maior número e as razões para o fenómeno. O que é surpreendente é que ele fotografou comportamentos que nunca tinham sido testemunhados antes, como um tubarão a alimentar-se a cerca de três metros de uma praia popular entre turistas. Nunca ninguém pensou que os tubarões-brancos frequentassem águas tão superficiais para comer! Além disso, o Brian tirou deslumbrantes fotografias aéreas, nas quais podemos ver a praia e filas de focas concentradas ao longo da costa — e a inconfundível silhueta de um tubarão-branco ameaçadoramente perto.

SW: A minha terceira escolha foi muito popular na Book Talk de abril: The Stranger in the Woods, de Michael Finkel (editado em Portugal pela chancela Elsinore com o título Fora do mundo : a extraordinária história do último verdadeiro eremita. Tradução de Paulo Tavares). É uma extraordinária narrativa humana, bastante insólita e estranha, sobre um homem chamado Christopher Knight, que saiu da casa onde vivia em Massachusetts em 1986, foi de carro até ao Maine e desapareceu de vista, passando a viver numa tenda no meio de uma floresta impenetrável.

Por estranho que pareça, estava apenas a cinco quilómetros da loja de conveniência mais próxima. Mas não deixava de estar no meio de um bosque denso e espinhoso. Aproveitou uma pequena clareira para montar a tenda e viveu ali durante três décadas! Sobreviveu a roubar cabanas de férias de um lago próximo.

É uma história que suscita questões interessantes. Porque é que alguém se torna eremita? Seria simplesmente um misantropo? Talvez tivesse alguma coisa para nos ensinar. E o que nós achamos curioso é que ele descobriu um novo uso para a sua revista preferida, a National Geographic.

LT: [risos] E qual era?

SW: Levava-as das cabanas, juntava-as em maços bem apertados, cavava um buraco e empilhava-as no solo para criar a base perfeita para a tenda.

LT: Genial! [Risos] A minha história de sobrevivência preferida de 2017 foi The Lost City of the Monkey God, de Douglas Preston. É absolutamente extraordinária. Seria de esperar que, na era moderna, já não houvesse cidades perdidas e que, se encontrássemos uma, não tivéssemos dificuldade em lá chegar.  Adorei a forma como Douglas Preston desenvolveu a história. A descoberta da Ciudad Blanca, Cidade Branca, e a forma como a tecnologia — as imagens de satélite — ajudaram a identificá-la e mostraram aos cientistas onde poderia situar-se. Depois, a ironia de ver as ruinas no mapa e o incrível desafio de chegar ao local. Só as cobras já eram arrepiantes e ainda tiveram de enfrentar a selva e as doenças. É uma verdadeira aventura de capa e espada, um livro viciante.

SW: A minha escolha seguinte é A Brief History of Everyone Who Ever Lived, do geneticista britânico Adam Rutherford. Trata-se de um maravilhosa história sobre genes e sobre o que nos torna humanos. A imprensa tabloide adora histórias sobre o chamado gene guerreiro, o gene de Alzheimer, um gene que nos pode tornar velocistas de classe mundial ou fazer apaixonar por alguém com o mesmo QI. Rutherford mostra que a maioria destas ideias é um absurdo. O autor explica, acima de tudo, a forma como a paleogenética — a capacidade de analisar amostras de ADN de seres há muito falecidos — revolucionou a nosso entendimento sobre a espécie humana.

Podem tirar-se lições importantes do livro. A mais importante é a de que somos todos da mesma família. Por exemplo, a diferença entre um etíope preto e um sul-africano preto é muito maior do que a diferença entre os dois e uma pessoa branca, digamos, do Alabama.

Outra pergunta que lhe fiz teve que ver com um daqueles terríveis atiradores em massa, o Adam Lanza, que, em 2012, alvejou e matou várias crianças no Connecticut.  Na altura, saiu um artigo a dizer que a origem do mal poderia ser encontrada nos genes. Rutherford afirmou que não tem nada que ver com os genes. O único denominador comum de todos os tiroteios não são os genes, mas o acesso às armas.

LT: Referes-te a uma ciência que ainda está a dar os primeiros passos. Publicámos um livro fascinante neste outono: The Psychobiotic Revolution. É um estudo sobre a relação entre os micróbios do intestino e do cérebro. Eu não sabia, mas 90 por cento da nossa serotonina está localizada no intestino grosso! O livro é da autoria de John Cryan e Ted Dinan, dois investigadores irlandeses que cunharam o temos psicobiótico.

Cryan e Dinan contam a história de uma cidade no Canadá cuja água continha uma bactéria que infetou toda a população. As pessoas conseguiram recuperar, mas, cerca de oito anos depois, houve um surto de suicídios. Os investigadores descobriram uma correlação entre a infeção bacteriana que toda a gente sofreu e este aumento da taxa de suicídios. Compreender o que liga o nosso microbioma ao nosso cérebro pode desencadear ansiedade e depressão, e terá fortes implicações no que respeita ao que sabemos sobre o que temos dentro de nós e sobre a forma como afeta o nosso humor. Só agora começamos a compreender este fenómeno.

SW: A próxima escolha é um livro do zoologista John Bradshaw, The Animals Among Us. Bradshaw é zoologista, mas não estuda animais selvagens. Estuda animais de estimação e o significado que têm nas nossas vidas. Há 20 anos, quando se propôs fazer este trabalho, os outros zoologistas consideravam que se tratava de uma forma de estudo menor. Por isso, Bradshaw e outros fundaram uma sociedade e cunharam o termo "antrozoologia" para transmitir a ideia da interação entre os humanos e os animais de estimação. Bradshaw relembra-nos a razão por que temos animais de estimação. E não é só por os acharmos encantadores e adoráveis, mas porque se trata de uma relação enriquecedora.

Além disso, Bradshaw derrubou vários mitos. Por exemplo, tornou-se moda dar medalhas militares a cães por serem heróis. Mas ele discorda da ideia de que um cão possa ser um herói, porque, para se ser herói, é preciso conhecer o conceito de heroicidade e não apenas agir instintivamente. Também fez questão de dizer que, sobretudo para as crianças, cujo mundo gravita cada vez mais em torno do ecrã de telemóvel, ter um animal em casa é deveras importante!

LT: Uma vez que trouxeste a relação entre o homem e o animal à colação, vou falar sobre aves.  Há imensas pessoas nos EUA e no resto do mundo que se dedicam avidamente a observar pássaros. É uma indústria de 40 000 milhões de dólares nos EUA e há cerca de 50 milhões de pessoas que afirmam ser ornitófilas. Por isso, este ano atualizámos o nosso Field Guide to the Birds of North America, que conta com mais de 10 000 espécies.

2018 é o "Ano das Aves". Além disso, é o ano em que se comemora o centésimo aniversário do Tratado de Aves Migratórias, no qual a National Geographic, desempenhou um papel essencial. Em janeiro, a revista National Geographic irá publicar um ensaio do romancista Jonathan Franzen intitulado “Why Birds Matter” com chamada de capa. Será o primeiro de 11 artigos a serem publicados durante o ano. Além disso, a National Geographic irá organizar um grande simpósio sobre o tema em fevereiro.

SW: A minha última escolha é uma história de sobrevivência incrível e cativante: Alone, de Brett Archibald. Archibald é um empresário sul-africano, que caiu de um barco na Indonésia. Contava mais de 40 anos e encontrava-se em viagem com alguns amigos, surfistas como ele, nas ilhas Mentawai ao largo da costa de Sumatra. O barco estava atrasado, eles estavam com fome e pediram um calzone num tasco pouco recomendável. Quando o abriram no convés do barco, o cheiro era nauseabundo. O Brett comeu um pedaço pequeno e à uma da manhã levantou-se e começou a vomitar sem parar. Subiu para o convés para apanhar ar fresco, mas não conseguia parar de vomitar. "Se voltar a vomitar", disse para consigo, "vou desmaiar". E a verdade é que desmaiou logo a seguir e quando deu por si estava na água e as luzes dos barco tinham desaparecido.

LT: [Suspiros]

SW: Tudo aconteceu a meio da noite e ele acabou por ficar dentro de água durante 28 horas, muito mais tempo do que a ciência indica ser possível. É a história daquelas horas e da forma como combateu a exaustão, a desidratação e os ataques de águas-vivas venenosas, gaivotas e até um tubarão. Teve aluminações incríveis e conversas desesperadas com Deus. Sobreviveu, mas a experiência mudou-o completamente. É uma história impressionante!

LT: Tantos livros maravilhosos para ler este ano!

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