Mapas Engenhosos Levaram o Cosmos aos Alunos do Século XIX

Quando retroiluminados, estes mapas interativos transportavam uma turma à vastidão do espaço.segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Parte de um kit de material de estudo de geografia usado em 1887, esta carta mostra o Sol, a Lua e as estrelas. Pequenas linguetas de metal fixavam cinco badanas que podiam ser abertas para obter mais detalhes.
Parte de um kit de material de estudo de geografia usado em 1887, esta carta mostra o Sol, a Lua e as estrelas. Pequenas linguetas de metal fixavam cinco badanas que podiam ser abertas para obter mais detalhes.
fotografia de CORTESIA DE DAVID RUMSEY MAP COLLECTION

Para os alunos do século XIX, a carta celeste multicolor terá dado uma nova vida à astronomia. Através de imagens expressivas, badanas e corrediças ocultas, e um uso inteligente de efeitos de luzes, a carta foi pensada para ajudar os professores a ilustrar a posição da Terra no universo.

A carta celeste fazia parte de um kit de material de estudo, chamado Estudo Geográfico de Yaggy, pensado para auxiliar os professores, em 1887, por Levi Walter Yaggy, um inventor que se tornou editor, que detinha várias patentes relacionadas com mapas e era proprietário de uma editora em Chicago. Acondicionado numa caixa de contraplacado revestida com tecido, o kit continha uma variedade de mapas e cartas que reproduziam o mundo, as suas regiões climáticas e os seus povos. Cada mapa tinha aproximadamente 60 por 91 centímetros.

“É como se abríssemos uma caixa de tesouros”, diz Matthew Edney, um historiador em cartografia da Universidade de Southern Maine. “Não há nada igual.”

Na altura, era comum o uso de mapas de parede, diz Edney, mas a combinação de material pedagógico no estudo da geografia era pouco habitual. No fundo da caixa, por exemplo, há um mapa de relevo em 3D dos Estados Unidos feito de papier mâché ou gesso. “É pouco rigoroso”, diz Edney, porque a altura precisa das montanhas e outras características do relevo só foram alvo de medições sistemáticas décadas mais tarde.  “Mas não deixa de ser um objeto único para a época”. Outros mapas ilustravam as regiões climáticas da Terra e os substratos rochosos abaixo do solo.

A segunda edição do kit, produzida em 1893, sob a designação de Portefólio Geográfico de Yaggy, incluía novos painéis com imagens expressivas da flora, fauna e povos de diferentes regiões climáticas.
A segunda edição do kit, produzida em 1893, sob a designação de Portefólio Geográfico de Yaggy, incluía novos painéis com imagens expressivas da flora, fauna e povos de diferentes regiões climáticas.
fotografia de CORTESIA DE DAVID RUMSEY MAP COLLECTION
Elementos do povo inuit em caiaques atingem com uma lança um urso polar, sob as Luzes do Norte, nesta ilustração da região do Ártico que integrava o mesmo kit.
Elementos do povo inuit em caiaques atingem com uma lança um urso polar, sob as Luzes do Norte, nesta ilustração da região do Ártico que integrava o mesmo kit.
fotografia de CORTESIA DE DAVID RUMSEY MAP COLLECTION

Mas a carta celeste é o elemento mais invulgar e interativo de todos. Tem cinco painéis fixos por pequenas linguetas de metal. Cada painel pode ser aberto para apresentar um diagrama com maior detalhe. Um dos painéis mostra as fases da Lua, por exemplo, enquanto outro inclui uma corrediça para ilustrar as diferentes posições do Sol relativamente à Terra em função das estações. A carta celeste foi pensada para pôr em evidência determinados aspetos, quando iluminada por um intenso ponto de luz, colocado na parte de trás, conforme se pode observar nos exemplos retratados na galeria de fotografias acima.

O Estudo Geográfico de Yaggy apresentava-se nesta pasta de portefólio.
O Estudo Geográfico de Yaggy apresentava-se nesta pasta de portefólio.
fotografia de CORTESIA DE DAVID RUMSEY MAP COLLECTION

Um guia acompanhava o portefólio, com sugestões para os professores e até exemplos de diálogos de utilização do kit para ensinar geografia aos alunos mais jovens, até mesmo antes destes saberem ler um manual escolar. O guia sugeria usar a carta celeste nas primeiras aulas para estabelecer a posição da Terra no cosmos antes da abordagem da sua geografia.

Embora a carta fizesse uma introdução razoável às bases da astronomia, não estava isenta de algumas incorreções, refere Edney. A carta mostrava o cosmos de uma perspetiva impossível, por exemplo: mostrando as estrelas tal como aparecem no hemisfério norte da Terra e o sistema solar como seria visto a partir de um ponto no espaço algures acima do Sol. Para além disso, as órbitas dos planetas estão desenhadas em círculos, quando na realidade são elipses, e os intervalos entre elas não estão à escala.

O mapa de Yaggy das regiões climáticas do planeta reflete o flagrante pensamento racista que dominou na era vitoriana e que defendia que as zonas temperadas eram mais favoráveis à civilização e ao progresso, enquanto os trópicos eram conducentes a sociedades primitivas.
O mapa de Yaggy das regiões climáticas do planeta reflete o flagrante pensamento racista que dominou na era vitoriana e que defendia que as zonas temperadas eram mais favoráveis à civilização e ao progresso, enquanto os trópicos eram conducentes a sociedades primitivas.
fotografia de CORTESIA DE DAVID RUMSEY MAP COLLECTION

Existem aspetos adicionais do kit que não resistem ao escrutínio da era moderna, como uma carta que mostra o mundo dividido em duas zonas climáticas, cada uma habitada por um determinado tipo de flora e fauna, e cada uma conducente a determinado tipo de cultura. A carta reflete o pensamento racista que dominava na era vitoriana e que defendia que os climas temperados, tais como os da Europa e da América do Norte, eram terreno fértil para o desenvolvimento das civilizações avançadas, enquanto os climas tropicais de Árica e da América do Sul encorajavam o ócio e a autoindulgência e eram conducentes apenas a culturas “primitivas”, uma assunção totalmente incorreta à luz de qualquer modelo científico e antropológico da era moderna.

É impossível determinar quantas cópias do Estudo Geográfico de Yaggy foram produzidas ou qual a extensão da sua utilização, diz Edney, mas o lançamento de uma segunda edição em 1893 sugere que gozava de razoável popularidade. O kit pode ser visto numa exposição a decorrer atualmente, da qual Edney foi curador, na Osher Map Library and Smith Center for Cartographic Education em Portland, no estado de Maine. As imagens reproduzidas neste artigo foram digitalizadas recentemente e publicadas online pela David Rumsey Map Collection.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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