Sim, é Possível Fazer Com Que as Crianças Usem Máscara. Saiba Como.

Especialistas falam sobre como se pode fazer cumprir as regras, sobretudo quando não estamos por perto.

Publicado 26/08/2020, 15:38 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Fotografia de Juanmonino / Getty Images

Quando Dylan Ekins, de 5 anos, for para o jardim de infância na Flórida este mês, vai usar uma máscara. Dylan e o seu irmão mais velho, Carter, de 8 anos, têm uma coleção de máscaras que incluem desenhos impressos, imagens de super-heróis e até personagens de filmes.

Estabelecer esta coleção não foi um problema, mas para a mãe, Katie, fazer com que os filhos usem as máscaras tem sido um desafio.

“Conversámos sobre isso com o Dylan e explicámos que ele vai ter de usar uma máscara”, diz Katie. “Ele não está contente.”


Os especialistas dizem que o uso de máscara, a lavagem consistente das mãos e o distanciamento social são a trindade que pode ajudar a manter as crianças e a comunidade protegidas contra a disseminação de COVID-19. É por isso que muitas das escolas que vão receber os alunos para as aulas presenciais exigem máscaras e distanciamento social.

Mas como os pais sabem, as crianças nem sempre seguem naturalmente as regras.

“Quando nascemos, não sabemos seguir regras ou lidar com expectativas”, diz Samanta Boddapati, especialista em saúde psiquiátrica e comportamental do Hospital Pediátrico Nationwide de Ohio. “Portanto, precisamos de pensar sobre uma forma de orientar e ensinar as crianças, para que elas compreendam realmente algumas destas novas expectativas.”

Este outono, independentemente de os nossos filhos frequentarem aulas presenciais, creches ou programas extracurriculares, os especialistas fornecem alguns conselhos sobre como podemos tornar as novas regras escolares um pouco mais fáceis de seguir.

Despertar o herói que há nas crianças
Algumas crianças orientam-se naturalmente por regras e obedecem voluntariamente às regras em geral. “Mas outras crianças são mais desafiadoras e não gostam que lhes digam o que fazer, seja usar uma máscara, praticar o distanciamento social ou escovar os dentes”, diz Alyson Schafer, psicoterapeuta e orientadora parental. “Não é que a criança tenha um ódio particular em relação a usar máscara, ao distanciamento ou a escovar os dentes – não gosta é de ser controlada e que lhe digam o que fazer.”

Em vez de se colocarem no papel do adversário, Alyson diz que os pais devem procurar obter a cooperação de uma criança, em vez de forçarem a sua obediência. Uma forma de o fazer é apelar ao sentido natural de bondade e altruísmo da criança. Devemos explicar que os adultos precisam da ajuda das crianças para manterem a comunidade segura e que esta é a oportunidade para as crianças serem verdadeiros heróis.

“As crianças têm um sentimento forte de justiça social e querem que as coisas sejam justas para todos”, diz Alyson. “Os pais podem ajudar a ligar os pontos para as crianças. Devemos dizer coisas como: ‘Usamos máscaras e ficamos a dois metros de distância porque não queremos espalhar os nossos germes pelas outras pessoas que podem não ser tão saudáveis. Usamos máscaras porque queremos ajudar todos, não apenas nós próprios.’”

A forma como o dizemos também é importante. “Quanto mais calmos, confiantes e seguros estivermos, maiores serão as probabilidades de as crianças seguirem o exemplo.”

Mas não podemos sobrecarregar as crianças com estas conversas. Em vez disso, Samanta Boddapati recomenda que se verifique rotineiramente quais são as regras.

“Tenha estas conversas – sobre as razões pelas quais está a usar máscara – quando estiver a sair de casa”, diz Samanta. “Assim, não se trata apenas de pedir a uma criança para usar máscara – é uma expectativa que temos enquanto família quando estamos em público.” (E sim, isto significa que também devemos seguir as regras!)

Pratique com paciência
Mesmo as crianças que não têm propriamente problemas com o uso de máscara podem hesitar quando lhes for solicitado para usarem uma máscara durante um dia inteiro na escola. E para as crianças que estão longe dos seus amigos há vários meses, provavelmente vai ser difícil respeitar o distanciamento social. Mas os especialistas dizem que, se as crianças já estiverem habituadas a estas regras, estarão numa posição favorecida para manterem esse hábito.

Devemos habituar as crianças a usarem máscara algumas vezes por dia, aumentando gradualmente o tempo que as usam. Para o distanciamento social, devemos usar a ideia de uma brincadeira para as ajudar a lembrarem-se do que é uma distância de “um metro e oitenta”.

“Sabemos que as crianças aprendem melhor enquanto brincam”, diz Alyson. “Podemos criar um jogo divertido com os nossos filhos para os ensinar a respeitar a distância, ou adivinhar quanto é um metro e oitenta, e jogar até que eles tenham um domínio sobre a questão.” Por exemplo, um jogo como o Rei Manda ensina a ouvir e a ter comportamentos inibitórios.

Depois, podemos passear com as crianças e dar-lhes o poder de decidir se estão dispostas a usar máscara e a distanciarem-se socialmente. Por exemplo, um passeio para ir comer um gelado pode exigir a regra do uso de máscara e de distanciamento social. Se as crianças recusarem, não faz mal. Mas sem máscara, não há gelado.

“Os pais não estão a controlar o comportamento dos filhos, estão a controlar a situação”, diz Alyson.

Esta liberdade de escolha é crucial. Desta forma, a criança decide seguir as regras de forma independente, e não o faz apenas porque mandámos. Com o passar do tempo, os pais podem aumentar a duração dos passeios.

Lidar com as pressões dos outros
Em junho, quando Carter Ekins teve de usar máscara de forma consistente no seu acampamento de verão, Katie percebeu que as preocupações do filho não eram sobre conforto. “Ele estava muito nervoso em relação à máscara”, diz Katie. “Ele achou que ficava com um ar estranho.”

A família passou horas a experimentar várias máscaras diferentes para encontrar as que o faziam parecer “fixe”, lembra Katie. Este desejo de pertencer é um desejo humano inato, diz Alyson.

“Somos movidos pela necessidade de sermos aceites. E fazemos isso imitando as normas do grupo e observando os comportamentos e atitudes modelados pelos outros.”

Katie Ekins diz que, assim que Carter viu que as outras crianças da sua idade também usavam máscaras no acampamento – e percebeu que era um requisito para se divertir – ele sentiu-se melhor com as regras. E isso até o ajudou a tornar-se num aliado poderoso para o seu irmão mais novo.

“Ele até começou a dizer ao irmão que aquilo não era assim tão mau”, diz Katie.

Ainda assim, algumas das crianças com quem os nossos filhos podem entrar em contacto podem não seguir as regras do uso de máscara ou de distanciamento social. Devemos capacitar as crianças para lidarem com as situações em que não estamos por perto, fornecendo conselhos e criando uma lista de situações possíveis e, de seguida, fazendo perguntas sobre como podem lidar com isso.

“É difícil pensar no momento”, diz Alyson. “É melhor planear e ensaiar cenários para que, quando confrontados com uma situação em que alguém não segue as regras, possam responder de uma forma sensata e com a qual a criança se sinta confortável.”

Alyson sugere algumas respostas humorísticas ou que apelem ao sentido de bondade das outras crianças quando estas se aproximam demasiado:
- “Tenho um familiar que está em risco, por isso tenho de ter muito cuidado.”
- “Desculpa a minha fobia de germes – sou mesmo assim.”
- “É frustrante quando nos esquecemos da máscara, não é? Também já me aconteceu.”
- “Para dizer a verdade, comi demasiado alho.”

“Devemos ter em mente o que o nosso filho está a tentar fazer”, acrescenta Alyson. “Ser severo ou crítico vai suscitar uma atitude defensiva. O objetivo é ser gentil e educado e, ao mesmo tempo, permanecer em segurança.”

Resumindo, o importante é que todos – crianças e adultos – façamos simplesmente o melhor que conseguirmos enquanto navegamos por estes tempos de incerteza. Samanta Bodapatti diz que, “ter conversas simples, verificar como se sentem as crianças, validar algumas das suas preocupações e modelar alguns dos comportamentos que gostaríamos que elas tivessem pode ajudar bastante as famílias neste momento”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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