Como os Pais Podem Ajudar os Filhos a Fazer a Diferença

Eis como pode despertar a paixão do seu filho para salvar o mundo.

Thursday, November 5, 2020
Por Heather Greenwood Davis
Fotografia de Wavebreakmedia / Getty Images

As notícias estão repletas de histórias sobre crianças pioneiras em algumas das maiores questões dos nossos tempos: uma adolescente do Michigan que ajudou a chamar a atenção para a crise da água em Flint; crianças que organizaram uma manifestação anti-armas em Washington D.C., após um tiroteio numa escola em Parkland, na Flórida; uma manifestação global de crianças de todas as idades pelas alterações climáticas.

“As crianças prestam atenção a estas questões”, diz Jessica Taft, professora de Estudos Latino-Americanos na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que escreve sobre ativismo juvenil. “Se olharmos para as pesquisas ao longo do tempo, as crianças têm estado sempre atentas ao que está a acontecer no mundo, porque isso é importante para elas.”

As crianças não puderam votar nas eleições presidenciais dos EUA, mas há questões com as quais se preocupam profundamente – e os pais que capacitam os seus filhos para expressarem as suas vozes estão a ajudá-los a adquirir competências essenciais para a vida.

“Quando as crianças se sentem capacitadas para falar sobre um problema, conseguem encontrar a sua própria voz e desenvolvem aptidões socioemocionais”, diz o psicoterapeuta Rwenshaun Miller. “Estas aptidões podem ajudar as crianças a resolver conflitos, a gerir o stress, a resistir às pressões sociais negativas e a melhorar a sua tomada de decisão.”

E tomar uma atitude em relação às questões que são importantes – seja quando estão a tentar convencer os pais, ou quando defendem os colegas – também pode fazer com que as crianças sintam menos ansiedade e sintomas de depressão, porque sentem que estão a fazer uma diferença positiva no mundo.

“Há muitas coisas que as crianças aprendem com este processo”, diz Caroline Paul, autora de You Are Mighty: A Guide to Changing the World. “As crianças estão a recrutar pessoas para a sua causa. Estão a alcançar pessoas que são muito diferentes delas. E também estão a aprender o que muitas vezes acabam por ser lições de história, sociologia ou filosofia. Quando as crianças decidem que querem agir por uma causa em que acreditam, os pais devem ficar contentes.”

Se o seu filho deseja simplesmente participar num debate ou protestar contra algo que acredita que não está correto, o apoio dos pais é fundamental para fortalecer a capacidade da criança encontrar a sua voz. Descubra como pode começar.

Fomentar o diálogo em casa
Aos três anos de idade as crianças já compreendem o conceito de justiça. Portanto, não deve ser surpresa para os pais quando uma criança chama a atenção para algo que ela acredita não estar correto.

“As crianças podem participar em conversas sobre política desde tenra idade e começar a construir a sua análise crítica, o seu conhecimento sobre como as coisas funcionam e as suas aptidões para um diálogo e debate democrático”, diz Jessica Taft.

Rwenshaun Miller sugere que primeiro se descubra o que uma criança sabe sobre um determinado tema e, de seguida, usar isso como base para acrescentar à conversa. Seja honesto com as crianças sobre o que sente. “Enquanto pais, queremos ter a certeza de que os nossos filhos se sentem à vontade para discutir temas difíceis”, diz Miller. “Os pais podem abordar o que sentem e os sentimentos dos filhos, e podem dizer que não há problema em sentirem-se tristes ou confusos. Muitas vezes, enquanto adultos, não conseguimos passar a mensagem às crianças de que também sentimos as mesmas emoções.”

Caroline Paul acrescenta que os pais devem abordar as conversas sobre ativismo com a mesma sensibilidade com que abordariam uma conversa sobre sexo: faça com que seja apropriado para a idade e concentre-se nas preocupações que o seu filho apresenta. Ignorar as perguntas apenas faz com que as crianças encontrem respostas através de colegas desinformados ou nas redes sociais.

“Pensamos que os estamos a proteger”, diz Caroline. “Na verdade, eles estão a absorver parte do que está a acontecer, mas que realmente não compreendem. Esta é a nossa oportunidade enquanto adultos de dar realmente algum significado ao que as crianças estão a captar.”

E se a opinião do seu filho não estiver alinhada com a sua? Jessica Taft diz que ouvir antes de oferecer um conselho, e honrar as opiniões das crianças, irá manter uma comunicação forte entre pais e filhos. “Depois, os pais podem fazer perguntas que fomentem um pensamento crítico, para compreenderem melhor a posição das crianças, e não apenas perguntas que levem as crianças a pensar como os pais.”

“Participe na conversa para perceber as razões que levam o seu filho a pensar de determinada maneira”, diz Jessica. “Isto deve ser feito com a intenção de compreender o que as crianças estão a pensar, e não necessariamente para mudar o que estão a pensar.”

Pratique antecipadamente
Falar abertamente sobre o que pensamos pode ser difícil, sobretudo quando estamos perto de pessoas que podem discordar da nossa forma de pensar. Mas quanto mais as crianças praticarem um diálogo num ambiente “seguro”, mais fácil será para elas falarem sobre as questões em que acreditam quando agirem de forma independente.

Por exemplo, em vez de falar pelas crianças numa conversa com o médico ou com os avós, incentive o seu filho a conduzir essas conversas para sentirem que a voz delas é importante.

De seguida, capacite as crianças para falarem abertamente sobre tópicos mais abrangentes, seja em casa ou com os amigos.

“Quando as crianças falarem, dê-lhes a sua atenção e mostre interesse no que têm para dizer”, diz Miller. “Fale com as crianças, em vez de para as crianças.”

Preparar as crianças para o facto de as pessoas poderem discordar delas também é importante, diz Jessica Taft. Praticar antecipadamente a forma como as crianças podem responder pode dar-lhes a confiança e as informações necessárias para usarem quando chegar o momento.

“Os pais podem ajudar os filhos a explicar melhor as suas posições. E podem ajudá-los a perceber porque é que pensam de determinada forma, quais são as evidências que suportam a sua posição, quais são os valores que fundamentam isso e como o podem explicar adequadamente aos outros, em vez de se concentrarem em tentar convencer as outras pessoas de que a sua posição é a correta.”

Ajude as crianças a agir em segurança
Embora o rótulo de “ativista” possa evocar imagens de atividades ilegais ou de revolta, Caroline Paul diz que os pais devem lembrar-se de que, na realidade, o ativismo trata-se de uma ação cívica. “Trata-se de tentar tornar a nossa comunidade ou o mundo num lugar melhor”, diz Caroline.

Nem todas as crianças vão querer expressar-se da mesma maneira, pelo devemos oferecer-lhes opções. “Temos de ensinar as crianças a reagir com estratégias que vão desde o voluntariado, angariação de fundos, boicotes e manifestações.” Os três pontos de partida que se seguem podem ser feitos em segurança durante a pandemia:

Mude um hábito pessoal. Nem todos os protestos requerem cartazes. “Podemos começar por mudar a nossa própria vida”, diz Caroline. As crianças preocupadas com as alterações climáticas podem começar por comer menos carne. As que estão incomodadas com as injustiças raciais podem ler livros mais inclusivos de diversos autores.

Encontre inspiração. Muitas das questões que são importantes para as crianças já têm movimentos associados, como o movimento Black Lives Matter e a Greve Climática Global. Peça às crianças para procurarem organizações como estas que tenham ramificações juvenis. Mesmo que as crianças não se juntem a estes movimentos, a pesquisa pode fornecer ideias que elas podem fazer por conta própria.

Angarie fundos ou fomente a sensibilização. As crianças podem sentir-se desamparadas quando ouvem falar sobre questões globais – sobretudo durante uma pandemia. Mas as ações locais que angariem dinheiro ou que fomentem a sensibilização podem fazer a diferença. Uma caminhada patrocinada, um concerto a solo no bairro, ou uma ação flash mob com distanciamento social podem ter um impacto e melhorar a saúde mental. Os grupos de colegas – na escola, nas aulas de dança ou nas equipas desportivas – também podem trabalhar em conjunto em iniciativas criativas que angariem fundos ou fomentem a sensibilização.

Não tenha medo de deixar os seus filhos protestar
Os especialistas dizem que, caso as crianças assim o desejem, os pais não devem descartar a participação dos seus filhos em protestos, mas alertam que é necessário fazer uma pesquisa. Miller diz que os pais devem certificar-se de que as crianças são capazes de articular o problema que determinada manifestação representa e as razões pelas quais desejam participar. Desta forma, os pais podem assegurar-se de que se trata de algo pelo qual as crianças sentem uma paixão – e não apenas algo que todas as crianças “fixes” estão a fazer.

Como é óbvio, a segurança é fundamental. “Não há nada de errado em convidar os seus filhos para participarem consigo em família numa atividade de movimento social, desde que sinta que está num espaço seguro”, diz Jessica Taft.

“Avalie antecipadamente o tom geral ou o clima dos panfletos de protesto e da publicidade nas redes sociais, e avalie novamente a situação quando chegar ao local”, acrescenta Jessica. “Parece um ambiente tranquilo? Existem outras crianças e famílias? As forças da autoridade têm os seus uniformes normais ou estão equipadas para uma situação violenta? Existem pessoas que estão contra o protesto?” Estes indicadores são sinais de alerta de que as coisas podem correr mal.

Para as crianças mais novas, os pais podem procurar oportunidades mais viradas para a família, como festivais que promovam atividades de artesanato e trabalhos manuais.

Caroline Paul diz que, independentemente de tudo isto, os pais não devem ter vergonha de se envolver e apoiar os seus filhos, seja a marchar ao lado das crianças num comício, ou montando uma banca para vender limonada no passeio.

“Seja qual for o tema, os nossos filhos querem participar – e isso é uma coisa boa”, diz Caroline. “Enquanto pais, estamos a ajudar a desenvolver alguns músculos nestas crianças para que elas os possam usar noutras áreas da vida. A ação cívica mostra às crianças que elas não são impotentes, mas sim que as suas ações têm significados e consequências – apesar de serem apenas crianças.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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