Como Falar com as Crianças Sobre Vacinas

As vacinas para a COVID-19 estão a chegar. Ajude as crianças a compreender como é que as vacinas funcionam no corpo.

Por Nicholas St. Fleur
Publicado 16/12/2020, 10:43 WET
Fotografia de vgajic / Getty Images

À medida que o mundo se aproxima da vacinação contra a COVID-19, os nossos filhos podem ter algumas perguntas sobre o que são vacinas e como podem ajudar a acabar com a pandemia. Uma das melhores abordagens? Sermos calmos e diretos com as crianças.

“Se os adultos tiverem uma atitude prática em relação às vacinas, as crianças provavelmente ficam menos nervosas com isso”, diz Laura Faherty, investigadora de políticas de saúde na organização sem fins lucrativos RAND Corporation e professora assistente de pediatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Boston. (Relacionado: Como falar com as crianças sobre COVID-19.)

Quando Laura explica o que são vacinas aos seus dois filhos pequenos e aos seus pacientes, começa por relacionar as vacinas com tratamentos médicos com os quais já estejam familiarizados. “Costumo dizer que existem alguns medicamentos que tomamos quando estamos doentes para nos ajudar a sentir melhor”, diz Laura. “As vacinas são como os remédios que tomamos para evitar doenças.”

Por que razão precisamos de vacinas?

Laura Faherty diz que devemos começar a conversa com as crianças salientando o quão espetaculares são os seus corpos. “Os nossos corpos são fortes e fazem um ótimo trabalho a manterem-nos protegidos contra germes”, diz Laura.

Depois, podemos usar a seguinte analogia: O nosso sistema imunitário é o sistema de defesa do nosso corpo, e as células imunitárias são os soldados do nosso corpo. Os soldados lutam contra vários invasores, como vírus e bactérias, que querem assumir o controlo do nosso sistema imunitário e torná-lo seu prisioneiro, razão pela qual os nossos corpos adoecem.

Mas, por vezes, estes soldados (células imunitárias) precisam de um professor. As vacinas treinam o nosso sistema imunitário para se defender contra invasores perigosos – também conhecidos por agentes patogénicos – para manter o nosso corpo saudável.

“Depois de sermos vacinados, os soldados do nosso sistema imunitário aprendem a combater uma infeção específica, portanto, se formos expostos a esse germe no futuro, não adoecemos”, diz Tanya Altmann, professora assistente de pediatria no Hospital Infantil Mattel da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e porta-voz da Academia Americana de Pediatria.

Como funcionam as vacinas no corpo?

Primeiro, devemos começar por introduzir o conceito de células. Devemos explicar que há vários tipos diferentes de células que se movem no interior do nosso corpo. Os glóbulos vermelhos fornecem oxigénio aos nossos tecidos e órgãos; e as plaquetas ajudam o corpo a sarar.

Os glóbulos brancos combatem as infeções. Compreender o seu funcionamento é fundamental para compreender o que as vacinas fazem no corpo. Dois dos principais tipos de glóbulos brancos são as células B e as células T.

“As células B, quando são expostas a uma vacina, libertam o que chamamos anticorpos”, diz Sallie Permar, diretora do departamento de pediatria da Faculdade de Medicina Weill Cornell e do Hospital de Nova Iorque-Presbyterian. “Estes anticorpos ligam-se a um vírus ou bactéria e, de seguida, evitam que estes infetem outra célula ou que se propaguem pelo corpo.”

Sallie Permar diz que as células T ajudam a ativar as células B, para que estas consigam produzir muitos anticorpos, e desenvolvem células especiais que matam as células que já foram infetadas com um vírus. As células T também têm boa memória, portanto, depois de lutarem contra um invasor, lembram-se de como o devem derrotar caso este regresse novamente.

Algumas vacinas contêm formas enfraquecidas de um vírus vivo ou bactéria que não têm força suficiente para adoecer gravemente uma pessoa que tenha um sistema imunitário saudável. Isto dá ao nosso sistema de defesa um inimigo fácil para treinar, e quando uma forma mais perigosa desse germe tenta infetar o corpo, os soldados já foram testados em combate para o enfrentar.

Porque é que as vacinas costumam ser administradas através de injeção?

Muitas crianças (e adultos) odeiam injeções, mas explicar aos nossos filhos as razões pelas quais os médicos as utilizam pode ajudar a tornar o processo menos assustador.

Apesar de existirem algumas vacinas nasais e orais, as vacinas aplicadas através de uma injeção com agulha no braço já demonstraram ser a melhor forma para ensinar ao nosso sistema imunitário como se pode defender.

Laura Faherty costuma dizer às crianças que a maioria das vacinas são administradas através de uma injeção porque, se as ingeríssemos, os nossos estômagos iriam pensar que eram comida e transformavam-nas em papa. “Quando as vacinas são colocadas nos nossos corpos através de uma injeção, o medicamento permanece forte e ajuda o nosso corpo a impedir que os germes nos façam adoecer.”

Por que razão tomamos algumas vacinas todos os anos e outras só uma vez?

Idealmente, só devíamos precisar de uma dose para ficarmos protegidos para o resto das nossas vidas. Mas não é necessariamente isso que acontece. “Com algumas vacinas ou algumas infeções, os nossos soldados precisam de lembretes”, diz Tanya Altmann. “Quando damos ao nosso corpo mais doses de uma vacina e mais lembretes, ele mantém os seus soldados fortes e lembra-se de como deve combater uma infeção em específico.”

Por vezes – como acontece agora com as vacinas para a COVID-19 da Pfizer-BioNTech e da Moderna – são necessárias várias doses. Esta primeira dose pode fazer com que os nossos soldados produzam alguns anticorpos, explica Tanya, mas é necessária uma segunda dose para colocar realmente os anticorpos em modo de defesa, e para nos certificarmos de que a armadura do nosso corpo está no seu melhor.

O que é imunidade de grupo?

As vacinas não servem apenas para nos protegermos a nós próprios – podem proteger comunidades e nações inteiras. Quando um número suficiente de pessoas é vacinado contra uma doença mortal, a propagação dessa doença é limitada, protegendo assim outras pessoas que podem não estar vacinadas. A isto chama-se imunidade de grupo.

Podemos usar a escola como exemplo para tentar explicar isto às crianças. “Pode haver um aluno numa turma que – devido à forma como o seu corpo é composto, ou porque tem uma doença específica, ou porque está a tomar medicamentos – não pode ser vacinado”, diz Tanya Altmann.

“Mas se todos os outros nessa turma forem fortes e saudáveis e puderem ser vacinados, podem ajudar a proteger esse aluno.”

Se expandirmos o exemplo da sala de aula para uma cidade, um estado ou até mesmo um país, podemos mostrar aos nossos filhos como é que as vacinas contra a  COVID-19 podem ajudar a proteger-nos a todos e – juntamente com a utilização de máscara e distanciamento social – acabar com a pandemia.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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