A Relação das Crianças com os Professores é Mais Importante do que Nunca

Eis como ter a certeza de que o seu filho não está sentado na última fila virtual.

Publicado 28/01/2021, 14:43 WET
Fotografia de FatCamera / Getty Images

Na primavera passada, quando a pandemia forçou a maioria dos alunos a ter aulas à distância, as crianças perderam as ligações físicas vitais com os professores. Os cumprimentos matinais, as conversas nos corredores e as correções dos trabalhos de casa aos quais os alunos estavam habituados desapareceram.

No outono, sobretudo nos EUA, a maioria das crianças começou o novo ano escolar em casa. As crianças tiveram novos professores, mas poucas oportunidades para os conhecer: sem contactos reais face a face e com muitos alunos a desligarem as suas câmaras durante as aulas virtuais.

“Este ano, os professores têm de lecionar sem as vantagens das relações pré-existentes, e isso tem sido extremamente difícil”, explica Jessica Lahey, professora com mais de 20 anos de experiência e autora de The Gift of Failure e do novo The Addiction Inoculation.

Assim, as pistas emocionais ligadas à construção e fortalecimento de laços entre professor e aluno – algo que Jessica Lahey descreve como sendo o “ingrediente secreto da educação” – estão em risco.

Com pandemia ou não, os alunos têm melhor desempenho quando têm uma boa relação com o professor. Os estudos têm demonstrado que uma relação de apoio entre professor e aluno tem impactos positivos que vão para além da sala de aula, ao passo que uma relação negativa pode impedir o desenvolvimento escolar e socioemocional da criança. (Eis um artigo sobre como os pais podem melhorar o desenvolvimento socioemocional das crianças.)

Estes mesmos estudos revelam que os efeitos – positivos e negativos – das relações entre aluno e professor são amplificados entre os alunos de maior risco. “Para muitos dos alunos que vivem na pobreza ou em comunidades de risco, a relação entre aluno, professor e pais é a chave para os tirar dessa situação”, explica Sonya Thomas, fundadora da PROPEL, uma rede de apoio que visa ajudar pais de estratos sociais mais baixos a navegar pelo sistema escolar público e a combater as elevadas taxas de abandono escolar.

Sonya Thomas diz que, quando crianças, professores e pais têm relações positivas, abrem-se oportunidades para uma educação superior e para o sucesso profissional no futuro. O objetivo é criar um ambiente onde todos os alunos – não importa as suas origens ou estatuto socioeconómico – prosperem. E embora o regresso presencial à sala de aula permaneça incerto, pais e alunos podem trabalhar para melhorar as relações entre aluno e professor, mesmo com os desafios do ensino à distância

Como identificar se o seu filho tem uma boa relação com o professor

Uma boa relação entre professor e aluno é aquela em que a criança se sente motivada e encorajada, explica Jessica, referindo uma investigação do psicólogo Edward Deci que descobriu que esta ligação é um componente-chave para a motivação.

Para os alunos com aulas virtuais, estas ligações podem ser difíceis de alcançar. Mas os especialistas como Alysia Roehrig, professora na Universidade Estadual da Flórida cuja investigação se concentra em psicologia educacional, dizem que uma criança que está ansiosa para assistir às aulas, que fala com orgulho sobre as tarefas nas quais está a trabalhar ou que partilha as coisas que está a aprender fora da sala de aula provavelmente se sente apoiada.

Ainda assim, não devemos confundir ligação com amizade: o nosso filho não precisa de ser o “animal de estimação” do professor. Na verdade, Alysia diz que as crianças que têm professores “calorosos, mas exigentes” têm sentimentos mais elevados de ligação. Alysia também refere estudos que mostram que estas crianças têm melhores resultados comportamentais e de aprendizagem.

Isto acontece porque a capacidade de aprendizagem de uma criança está ligada ao seu estado emocional. Quando o nosso filho não tem uma ligação emocional positiva com os professores, a experiência tem um efeito negativo correspondente. “Quando as crianças estão ligadas de uma forma real e profunda... aprendem mais”, diz Jessica. “Por outro lado, quando as crianças estão entediadas ou não se importam com o professor ou com a matéria, ou acham o ambiente de aprendizagem é enfadonho, os centros de aprendizagem no cérebro simplesmente não são ativados.”

Alysia diz que o perigo reside na falta de ligação dos nossos filhos com os educadores, algo que pode ter resultados negativos duradouros. Identificar uma má relação significa observar e ouvir as dicas dos nossos filhos sobre a forma como a escola os faz sentir. O entusiasmo deles sobre um determinado assunto muda drasticamente? Eles mencionam a falta de respostas às suas perguntas? Reclamam abertamente sobre a maneira como o professor fala com eles? Existe uma ansiedade pronunciada quando se fala sobre as aulas em casa?

A maioria das crianças não fica animada quando tem muitos trabalhos de casa ou quando um professor é demasiado exigente, mas se os pais repararem num comportamento recorrente onde a criança se sente atormentada, com medo ou envergonhada, vale a pena investigar. “As crianças sabem quando os professores as respeitam”, diz Jessica. “E quando isso não existe, a aprendizagem simplesmente não acontece.”

Como apoiar relações positivas

A boa notícia é a de que os pais podem melhorar as relações dos filhos com os professores, mesmo durante uma pandemia.

Procure semelhanças. No cerne de qualquer ligação existem semelhanças reconhecidas. Os alunos podem não fazer ideia daquilo que têm em comum com os professores, porque num ambiente virtual as conversas casuais são mais difíceis.

“Quando alunos e professores sabem que partilham semelhanças – nas ideias, nos gostos, nas preferências – têm relações mais fortes e comunicam melhor”, diz Jessica.

Se os pais sentirem que os filhos podem beneficiar de uma ligação mais próxima com os professores, podem pedir aos filhos para enviarem uma carta que diga “coisas que você talvez não saiba sobre mim”. Os pais podem fazer o mesmo com uma nota que atualiza o professor sobre a forma como o filho está a lidar com os estudos. Isto estabelece uma abordagem de “estamos todos juntos nisto”, diz Alysia, que também sugere que se mencionem os pontos fortes e fracos das crianças e quaisquer dificuldades escolares que possam fornecer informações ao professor que vão para além do que se vê (ou não) no ecrã.

Mais comunicação é sempre uma coisa boa, diz Gahmya Drummond-Bey, professora e coordenadora de programas educacionais. “Realmente ajuda quando os pais incentivam os meus alunos a escreverem cartas ou um bilhete, mesmo que seja apenas sobre como foi o dia deles. Isso dá-me algo para responder e ajuda a construir a nossa ligação.”

Incentive a participação virtual. Nem todas as crianças se sentem confortáveis para ligar a câmara ou para falar num ambiente virtual, mas os pais podem pensar noutras formas em que as crianças podem comunicar sem receios.

Alysia diz que o seu filho não gosta quando as perguntas dele aparecem na janela de conversação da aula virtual, portanto, em vez disso, Alysia incentiva o filho a enviar as perguntas diretamente para o professor, ou a usar reações emoji no ecrã, para mostrar que está a participar. Definir metas para fazer isto regularmente (“vamos fazer um plano para ligar a câmara uma vez esta semana”) e reservar um tempo para debater como foi essa sensação pode ajudar a incentivar as crianças a participar mais.

As crianças também podem sugerir aos professores para fazerem grupos de trabalho mais pequenos. Alysia diz que os estudos demonstram que os alunos têm mais propensão para ligar as suas câmaras em grupos mais pequenos, facilitando assim as interações.

Encoraje o seu filho defender-se. Se as crianças tiverem problemas com um colega, se não conseguirem a nota que esperavam, ou não compreenderem a matéria de uma disciplina, ajude-as a encontrar formas de se expressarem.

Pode parecer mais fácil para os pais intervirem em nome dos filhos, mas os especialistas dizem que ensinar os filhos a expressarem uma preocupação de forma respeitosa (incluindo praticar o que vão dizer com antecedência) capacita as crianças para o futuro.

“Ensinar as crianças a defenderem-se, a dizerem aos adultos o que querem e precisam, é uma das aptidões mais importantes que transmitimos”, diz Jessica. “Quando os meus alunos conseguem passar de ano, quando conseguem levantar a mão para falar, quando conseguem pedir para se encontrarem comigo fora da aula e conseguem argumentar comigo a favor dos seus direitos e necessidades, sei que cumpri o meu dever para com eles.”

Reconheça quando deve intervir. Nem todas as relações complicadas podem ser resolvidas pelos alunos, diz Alysia. Por exemplo, relações onde os pais suspeitam que há preconceitos implícitos – sejam raciais, socioeconómicos ou de género.

Nos EUA, os estudos têm demonstrado que as crianças negras são frequentemente julgadas de forma mais severa pelos professores do que as crianças brancas. Neste caso, os pais devem intervir. “Isto é real”, diz Alysia. “Não podemos realmente mudar as coisas se não estivermos cientes das mesmas.”

Os pais também devem reconhecer que, embora os esforços para melhorar uma relação sejam um bom primeiro passo, é necessária a adesão de um professor para que as melhorias se tornem realidade. Se um professor for intransigente, não tenha receio de procurar ajuda noutro lugar. Tente falar com o diretor de turma ou com a direção da escola.

“Deve ser uma parceria”, diz Sonya Thomas, referindo-se à relação pai-aluno-professor. “É importante que trabalhemos de forma colaborativa e que tenhamos uma parceria que capacite tanto pais como professores, para que possamos fazer deste processo uma experiência de qualidade para os nossos filhos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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