As Crianças Podem Sentir Solidão – e Durante Uma Pandemia Isso é Ainda Mais Preocupante

Descubra também formas de ajudar as crianças a sentirem-se menos isoladas durante os protocolos de quarentena.

Publicado 20/01/2021, 17:34
Fotografia de Westend61 / Getty Images

Sze Quak acordou uma manhã a ouvir a sua filha de sete anos, Alice, a cantar sozinha no seu quarto. “Ela inventou uma música sobre querer que o coronavírus acabasse depressa e o regresso à escola”, diz Sze. Alice, filha única, está confinada em casa em Fullerton, na Califórnia, e frequenta aulas virtuais desde março. “Antes da COVID-19, ela não gostava muito de ir à escola. Agora, está a implorar para regressar às aulas.”

Sze mantém a filha ocupada com atividades como desenho, artesanato ou andar de bicicleta, e também organiza encontros semanais via Zoom para a filha poder conversar com as amigas. “Quando a solidão se tornou insuportável, marcámos um encontro com uma amiga dela num parque”, diz Sze. “Nós ficamos em segurança e não tiramos as máscaras.”

Embora o confinamento seja necessário para evitar que uma pandemia mortal se propague, o isolamento forçado pode ter um impacto negativo na saúde mental de algumas crianças. Num estudo de junho de 2020, publicado na Journal of American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, investigadores descobriram que as crianças e adolescentes têm mais propensão para sentir índices elevados de depressão e ansiedade durante e após um isolamento forçado.

“O isolamento é um componente de relevo nos problemas de saúde mental”, diz a terapeuta Sarit Fassazadeh. “Somos seres sociais por natureza. Dependemos uns dos outros para interagir neste mundo. Quando somos privados dessa ligação, podemos sentir efeitos significativos na saúde física e mental.”

À medida que a pandemia continua, as crianças podem sentir-se ainda mais isoladas dos amigos e da família. Eis alguns dos sinais reveladores de solidão nas crianças e o que os pais podem fazer para as ajudar a sentirem-se menos isoladas.

Ligação entre solidão e depressão

A solidão nas crianças não é um fenómeno novo. Uma sondagem de 2019, feita pelo Gabinete Nacional de Estatística do Reino Unido, descobriu que uma em cada 10 crianças entre os 10 e os 15 anos relatou ter sentido longos períodos de solidão. Os encerramentos recentes de escolas, os requisitos de distanciamento social e o clima rigoroso de inverno diminuíram ainda mais a capacidade de socialização das crianças.

“Se nos sentirmos sozinhos, podemos sentir de vontade de sair e encontrar algum contacto social”, diz Sam Goldstein, neuropsicólogo e coautor de Lonely, Sad and Angry: How to Help Your Unhappy Child. “O problema surge quando as pessoas sentem solidão e não encontram um forma de lidar com isso. Sentem-se desamparadas ou sem esperança.”

De acordo com Sam, a ansiedade provocada pela pandemia pode levar a uma solidão prolongada, que por sua vez pode levar a uma depressão no futuro. A solidão nos primeiros anos de desenvolvimento também pode afetar o quão sociável uma pessoa poderá vir a ser na idade adulta. Num estudo de 2020 da Nature Neuroscience, cientistas descobriram que o isolamento social na infância tem um impacto prejudicial nas células do córtex pré-frontal, a parte do cérebro que regula o comportamento social na idade adulta.

Detetar os sinais de solidão

Sarit Fassazadeh diz que, muitas vezes, as crianças não têm o vocabulário para verbalizar os seus sentimentos. James J. Crist, psicólogo clínico e autor de What To Do When You’re Cranky and Blue, acrescenta que as crianças têm mais dificuldades em falar sobre os seus sentimentos. “As crianças provavelmente não conseguem assumir que se sentem sozinhas. Geralmente fazem birras, são mais irritáveis ou têm um pavio mais curto.”

Os outros comportamentos comuns de “birra”, sobretudo durante o tempo solitário em confinamento, podem incluir queixinhas excessivas, falar num tom agressivo, arremessar objetos, agredir os irmãos e chorar. Os pais também podem tentar detetar sinais mais subtis, como alterações nos hábitos alimentares, regressão no uso da casa de banho, perturbações no sono e letargia acima do normal.

Para determinar se os filhos estão a fazer birras devido à solidão ou por outro motivo, os pais podem ajudar as crianças a identificar os seus sentimentos. Inicie uma conversa com perguntas do género: Pareces um pouco triste ultimamente. Sentes-te triste, zangado ou preocupado por teres de ficar tanto tempo fechado em casa? Sentes falta dos teus amigos?

Os pais devem resistir ao impulso de castigar ou ignorar os sentimentos dos filhos. Em vez disso, devem modelar a empatia reconhecendo que as coisas são diferentes e difíceis, isto cria um espaço seguro para as crianças falarem sobre o que sentem. “Quando se sentem compreendidas, as crianças têm tendência para se acalmar e sentem-se mais à vontade para se abrirem connosco”, diz James Crist.

O passo seguinte é ajudar as crianças a mudarem as suas atitudes em relação à solidão e a pensarem de forma mais positiva. Para ajudar as crianças a reenquadrar a realidade, os pais podem responder com: É triste não poderes ver os teus amigos mais vezes. Mas isto não vai durar para sempre. Parece que já passou muito tempo, mas isso não significa que seja verdade. Faça perguntas do género: Quais são os pontos positivos de estares mais tempo em casa? O que podes fazer em casa para te sentires um pouco menos sozinho?

“Fale sobre as coisas que as crianças sentem falta e das coisas que querem fazer quando for seguro”, diz Mariko Fairly, conselheira comportamental e fundadora da Parenting Fairly, cujos filhos de quatro e seis anos fizeram uma lista de desejos pós-COVID que incluem ir às lojas Target e à Disneyland.

Atividades para combater a solidão

“As crianças sentem-se bem consigo próprias quando têm algo construtivo para fazer”, diz James. Mantenha os seus filhos ocupados durante o dia com atividades que eles gostem, como arte ou música. Pode aproveitar esta oportunidade para lhes ensinar aptidões para a vida, como lavar a roupa ou preparar o jantar. Sze Quak diz que neste verão a sua filha Alice aprendeu a fazer baos chineses (pãezinhos com carne) e compota de figo.

James diz que os pais com vários filhos devem tentar passar algum tempo com cada um deles. Durante a pandemia, os irmãos estão a passar mais tempo uns com os outros, algo que pode levar a um vínculo mais forte, ou a mais rivalidade e conflitos. “Por vezes, as birras são uma forma inconsciente de chamar a atenção dos pais”, diz James, aconselhando os pais a reservarem 30 minutos para fazer o que as crianças quiserem. “Isso ajuda as crianças a sentirem-se mais ligadas aos pais. Se tiverem uma ligação mais forte, é menos provável que se sintam sozinhas.”

As investigações têm demonstrado que as ligações sociais que começam durante a nossa infância com os nossos pais são importantes para o nosso bem-estar. “O tempo que investimos a desenvolver uma ligação segura com os nossos filhos”, diz Sam Goldstein, “cria um ‘amortecedor’ poderoso e resiliente que os apoia nos tempos difíceis”.

Os especialistas em parentalidade concordam que, durante a pandemia, é aceitável permitir que os nossos filhos passem mais tempo do que o normal em frente a um ecrã. Isto é particularmente verdadeiro se eles estiverem online a interagir com os amigos, diz James. “Dê-lhes um pouco mais de flexibilidade, desde que continuem a fazer os trabalhos de casa, exercício físico e tarefas domésticas.”

Se os encontros virtuais com os amigos ou as videochamadas com os avós não forem suficientes e o seu filho desejar um encontro pessoal, Mariko Fairly recomenda uma “visita à janela”. “É difícil manter as crianças separadas, pelo que conversar à janela parece mais seguro”, diz Mariko. “Fornecer às crianças uma sensação de ligação é importante para evitar a solidão. Precisamos de ser criativos para manter as ligações sociais enquanto estamos distanciados.”

Nos EUA, com as escolas encerradas, Mariko planeia dar continuidade à adorada tradição dos “dias de espírito escolar” da sua família onde os seus filhos andam de pijama o dia inteiro ou fazem um penteado maluco no “Dia do Cabelo Louco”.

“Espero contar com a ajuda de alguns dos amigos dos meus filhos para podermos falar por videochamada ou enviar fotografias uns para os outros”, diz Mariko. “Quando os meus filhos partilham uma experiência com outras pessoas, isso ajuda-os a sentirem-se mais ligados aos amigos.”

Mariko também incentiva os filhos a terem ideias sobre como podem alegrar o dia das pessoas de quem gostam. “Escrever uma carta ou fazer um desenho e enviá-lo pelo correio é uma forma de dizer a uma pessoa de que estamos a pensar nela, e isso pode fazer com que essa pessoa retribua o gesto”, diz Mariko.

Expressar gratidão e apreço por cartas ou desenhos também pode ajudar a afastar a solidão. Um estudo de 2015, publicado no European’s Journal of Psychology, descobriu que a gratidão está associada a um aumento da felicidade e à redução dos sentimentos de solidão. “Esta experiência difícil pode dar origem a gratidão”, diz Sarit Fassazadeh. “Estamos gratos por termos as coisas que temos – o apreço é uma coisa muito poderosa.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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