Falar com as Crianças Sobre 2020

Ajude as crianças a processar o ano exaustivo que passou, preparando-as para o futuro.

Publicado 5/01/2021, 15:42 WET
Fotografia de John Moore / Getty Images

Sejamos honestos, o ano de 2020 foi... especial.

“O ano inteiro, do início ao fim, foi um zoo”, diz Ashok Shimoji-Krishnan, psiquiatra de crianças e adolescentes na Kaiser Permanente em Factoria, Washington. Desde a pandemia à convulsão social, passando por uma eleição presidencial nos EUA que foi diferente de todas as outras, todos nós sentimos estas coisas. “As crianças em particular tiveram de se adaptar a muitas mudanças”, diz Ashok.

Independentemente de os seus filhos se terem sentido um pouco, ou muito, em baixo, acredite que não está sozinho.

Para os adultos, parte da preparação para qualquer novo ano – por muito normal ou não que seja – geralmente significa fazer um balanço dos últimos 12 meses. Este ano, as crianças também podem querer fazer o mesmo. Processando o ano em conjunto, os pais podem ajudar os filhos a descortinar as coisas difíceis, sentir algum controlo e saírem mais fortes desse processo.


“Isto também ajuda as crianças a perceber que não precisam de lidar sozinhas com os sentimentos mais complexos”, diz Catherine Bagwell, professora de psicologia no Oxford College da Universidade Emory. “Os pais estão lá e estarão lá para as ajudar.”

Falar é importante para construir um 2021 mais brilhante

Enquanto as crianças se preparam para um ano que provavelmente estará repleto de incertezas, ajudá-las a falar sobre tudo o que aconteceu em 2020 permite-lhes controlar a imprevisibilidade e desenvolver aptidões para o futuro. “Isso pode ajudar as crianças a desenvolverem recursos emocionais e cognitivos que depois podem usar quando estiverem numa situação semelhante, ou quando se sentirem ansiosas e inseguras.”

Catherine acrescenta que os pais não devem recear abordar tópicos difíceis – essa abordagem pode realmente reduzir os medos que as crianças já têm. “As crianças foram definitivamente afetadas por tudo o que está a acontecer. Portanto, evitar falar sobre algumas coisas pode criar mais ansiedade e stress nas crianças.”

As conversas complicadas também podem ser gratificantes. “O movimento Black Lives Matter, por exemplo, aumentou obviamente a sensibilização sobre justiça social e racial de formas desafiadoras, mas em geral de formas realmente positivas para as crianças”, diz Catherine. “Este é um contexto para termos conversas difíceis sobre o que valorizamos na sociedade.”

Como começar a conversa

Admita que 2020 foi difícil. Quando os pais reconhecem que o ano foi difícil, ou mais difícil do que esperavam, os filhos sabem que não estão sozinhos”, diz Ashok Shimoji-Krishnan. “Isso dá às crianças a sensação de que os pais estão lá para elas.”

Faça perguntas específicas. Para fazer com que as crianças se abram, vá direto aos detalhes. Perguntas do género “como foi o ano?” podem ser demasiado vagas, sobretudo para as crianças que não sabem por onde começar. Em vez disso, tente perguntar como foi ter aulas na cozinha em vez da sala de aulas, ou o que as crianças acharam dos protestos raciais. E não sinta pressão para lhes oferecer soluções. “Para muitas crianças, basta serem ouvidas para ficarem confortadas”, diz Ashok.

Aceite os desacordos. “Devemos reconhecer às crianças que as pessoas têm opiniões diferentes sobre todas as grandes questões de 2020”, diz Catherine. No entanto, as discordâncias podem dar origem a coisas boas. “É bom podermos ter opiniões diferentes – e podermos falar sobre elas.” Portanto, se uma família vizinha preferir outro candidato presidencial, ou se os membros de uma família discordarem sobre um grande problema, são oportunidades para as crianças explorarem o que é importante para elas e porquê.

Procure as coisas positivas. Depois de reconhecer as questões mais difíceis, converse sobre como a sua família superou alguns dos desafios e celebre esses sucessos. Para além de enquadrar os desafios de uma forma mais positiva, isto ajuda as crianças a perceber que existem desafios na vida, mas que também encontramos formas de os superar, diz Ashok. “Isto ajuda a desenvolver a autoestima, a criatividade e o envolvimento das crianças em desafios enquanto algo que pode ser resolvido, em vez de se retraírem.”

Descubra o que deve ser valorizado. Por mais difícil que tenha sido o ano, as crianças podem encontrar satisfação em coisas que agora são diferentes. “Antes de 2020, avançávamos sem destino”, diz Catherine. “Este é o momento para nos concentrarmos nas coisas que realmente valorizamos.” Para as crianças, pode ser um novo passatempo, ou passar mais tempo ao ar livre. Para as crianças mais velhas, pode ser o envolvimento em questões de justiça social.

Fomente debates positivos. Todas as pessoas tiveram desilusões em 2020, desde férias canceladas a tradições anuais adiadas. Mas estes desafios também apresentam oportunidades para se debater um 2021 mais brilhante. “A chave nestes debates é permitir que as crianças liderem o máximo possível”, diz Ashok. Por exemplo, se um evento desportivo foi cancelado, incentive os seus filhos a terem ideias de como fariam esse evento funcionar com segurança se fossem eles a mandar. Depois, fomente a criatividade das crianças – lugares para ver o evento em balões de ar quente? Fatos espaciais para proteger todos os jogadores? “Isso dá às crianças uma sensação de controlo sobre a situação, e dá-lhes a liberdade para dizerem que podem criar novas soluções para um problema.”

Admita que não sabe tudo. Não faz mal não ter as respostas todas. Reconhecer que estamos confusos e zangados mostra aos nossos filhos que os sentimentos de incerteza são normais. Catherine diz que, mesmo que o trajeto para 2021 ainda não seja perfeitamente evidente, podemos encorajar as crianças a perceberem que conseguem lidar com isso.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler