Colher alimentos pode aproximar as crianças da natureza

Esta prática milenar tem benefícios para a saúde mental – e pode ajudar as crianças mais exigentes a provar coisas novas.

Publicado 29/04/2021, 10:51
criança apanha fruta

Criança colhe cuidadosamente framboesas.

Fotografia de Inti St. Clair / Getty Images

Quando Violet Brill, de 16 anos, olha pela sua janela, não vê apenas árvores e vegetação – vê um banquete completo. O seu pai, o reconhecido especialista em plantas Steve “Wildman” Brill, apresentou-a ao mundo dos alimentos silvestres quando ela ainda era bebé, levando-a nas suas excursões para colher alimentos desde os dois meses de idade.

“Comecei simplesmente a aprender”, diz Violet, “mais ou menos como as crianças aprendem a reconhecer aipo ou cenouras”.

As folhas de dente-de-leão, que têm um gosto a endívias ou chicória, são mais saborosas quando são jovens. As flores também podem ser comidas, mas devem ser cozidas primeiro.

Fotografia de Koxae Sun / Shutterstock

Até ao advento da agricultura, há cerca de 12.000 anos, os nossos antepassados caçadores-coletores dependiam da vegetação selvagem para fins nutritivos e medicinais. Nos milénios que se seguiram, as quintas e mercearias substituíram esse conhecimento primordial. Mas, na última década, começou a surgiu um interesse renovado pela procura de plantas comestíveis – um interesse que floresceu bastante durante a pandemia.

“Penso que tivemos muito tempo para abrandar, sair de casa e olhar à nossa volta”, diz Adele Nozedar, autora de Foraging for Kids. “O crescimento do forrageio de alimentos foi exponencial no ano passado.”

Steve Brill concorda. “As pessoas cozinham muito mais e estão cada vez mais interessadas na natureza, na ecologia e no ambiente.”

Porquê colher alimentos?

As crianças são “forrageadoras” por natureza. Leve-as para a floresta e elas ficam felizes a colher folhas caídas, frutos de arbustos ou a remexer na vegetação rasteira à procura de tesouros escondidos. “A coleta é definitivamente uma porta de entrada para a natureza”, diz Violet Brill. “As crianças aprendem rapidamente que não se trata apenas de um monte de coisas verdes. Todas estas plantas têm um propósito.”

As amoras crescem em praticamente todos os continentes.

Fotografia de nitrub / Getty Images

Ao encorajar o amor pela natureza, a coleta também encoraja o amor pelo ambiente. “Ter uma forte ligação com a terra significa que temos mais probabilidades de a querer proteger”, diz Dave Hamilton, autor de Family Foraging. “E não se pode ficar muito mais ligado à terra do que a comer os seus frutos.”

Para além disso, a coleta também pode ser uma coisa positiva para os pais daquelas crianças mais exigentes com a comida: quando as crianças procuram e escolhem a sua própria comida, é mais provável que invistam nela. A procura por alimentos silvestres incentiva as crianças a provarem alimentos novos e nutritivos – sobretudo as crianças que tendem a torcer o nariz quando veem um vegetal no prato.

Por exemplo, Dave Hamilton lembra-se de levar um grupo de rapazes para acampar e de lhes pedir para apanharem fedegosas suficientes para o jantar. Os rapazes regressaram com verduras para três dias, que Dave transformou em pesto.

“Eles adoraram”, diz Dave. “Há algo de fortalecedor em encontrarmos a nossa própria comida, sobretudo para as crianças.”

A Allium tricoccum é uma cebola selvagem encontrada no leste e centro-oeste dos Estados Unidos e no Canadá. Por vezes, estas plantas são chamadas alho-porro selvagem e sabem ligeiramente a alho.

Fotografia de Rudy Malmquist / Getty Images

Colher alimentos – e as brincadeiras ao ar livre que acompanham esta atividade – é muito divertido. Quando partimos numa aventura de forrageio, nunca sabemos o que podemos encontrar. Talvez seja uma enorme amoreira repleta de bagas, ou uma oliveira cheia de azeitonas, ou até mesmo uma lagartixa a contorcer-se debaixo de um tronco húmido enquanto procuramos cogumelos. E também é uma forma segura e socialmente distante de melhorar o humor das crianças, proporcionando-lhes a oportunidade de estarem em contacto com a natureza. (Este artigo mostra como o contacto com a natureza tem benefícios cognitivos e emocionais para as crianças.)

Princípios básicos

Aprender a colher alimentos nunca foi tão fácil. Seguem-se algumas dicas para começar com a sua família.

Mantenha as coisas simples. Comece por aprender a reconhecer algumas das plantas mais fáceis de identificar e que não tenham “sósias” perigosas. Os dentes-de-leão, a erva-alheira e as bananas-da-terra costumam crescer em quintais com vegetação e em parques locais, por isso são particularmente abundantes. As outras plantas silvestres, como sumagre, vinagreiras e amoras encontram-se em abundância nas florestas, campos e até mesmo à beira da estrada.

Tanto as folhas como as flores da azeda, ou erva-azeda-amarela, são comestíveis e têm um sabor ligeiramente azedo.

Fotografia de Frau-Doktor / Alamy

“Não sinta que precisa de fazer uma refeição completamente silvestre”, diz Dave Hamilton. “Podemos colher as mesmas duas, três ou quatro plantas nos primeiros anos. Existem pequenos passos para o fazer.”

Leve equipamento. Colher alimentos não requer um equipamento sofisticado, mas é aconselhável vestir-se para a aventura. Calças compridas ou usadas enfiadas nas meias e um par de botas impermeáveis protegem das silvas e de carraças. Um par de luvas de jardinagem pode ajudar a colher plantas espinhosas como urtigas e frutos silvestres, e uma tesoura ou tesoura de jardim são úteis para cortar verduras.

Guarde a sua colheita em sacos de papel ou em sacos de plástico reutilizáveis que possam ser fechados – os sacos de papel são mais indicados para, por exemplo, cogumelos, que precisam de respirar. Por fim, é essencial ter um bom guia de identificação de plantas – um livro ou uma aplicação para telemóvel.

Comece um diário de colheita. Registar as aventuras de forrageio reforça o reconhecimento das plantas e ajuda as crianças a lembrarem-se onde e quando é que podem encontrar determinadas plantas. Nos seus diários, as crianças podem fazer desenhos das plantas que colhem; leve uma pequena lupa para examinar as características de uma planta ou tire fotografias com o seu telemóvel.

As crianças podem documentar como as mesmas plantas mudam ao longo das estações do ano, podem fazer uma contagem das várias plantas que recolhem e mapas dos locais de forrageio. E também podem guardar folhas prensadas ou simplesmente anotar o que pensam sobre a experiência.

E lembre-se, a segurança está primeiro! Qualquer coletor veterano lhe dirá que nunca devemos permitir que os nossos filhos comam qualquer planta selvagem, a não ser que tenhamos a certeza absoluta do que se trata. Fazer uma excursão guiada de coleta de alimentos pode ser uma excelente forma de desenvolver alguns conhecimentos básicos.

Durante a excursão, tire fotografias das plantas referidas pelo seu guia e peça aos seus filhos para anotarem as características das plantas para que as consiga identificar da próxima vez. “Não há nada melhor do que ter alguém que nos diga o que devemos procurar porque tem isto ou aquilo”, diz Dave Hamilton.

Mas tenha atenção: forragear é viciante! “Assim que aprendemos a identificar uma planta, começamos a vê-la em todo o lado”, diz Violet Brill. Dave Hamilton concorda: “Depois de ficarmos com o bichinho do forrageio, não há como voltar atrás.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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