Como evitar que os seus filhos tenham medo de insetos

As abelhas e outros insetos podem suscitar emoções fortes nas crianças. Ajude-as a superar os seus receios mostrando-lhes a importância destes seres.

Publicado 21/05/2021, 11:09 WEST
Abelha aproxima-se de uma flor

   

Fotografia de Phil Savoie / NPL / Minden Pictures

A filha de 11 anos de Rhiannon Giles Durham tem medo de abelhas e aranhas: receia picadas e dentadas, mas reconhece que, se as criaturas forem tratadas com respeito, provavelmente não representam muito perigo. Mas o filho de seis anos de Rhiannon tem medo de todos os insetos (exceto borboletas). Basta a visão de criaturas como moscas ou mosquitos para começar a fugir.

O medo de insetos é comum nas crianças. Mas, de acordo com a psicóloga Nina Kaiser, ajudar as crianças a superar qualquer receio na infância é um passo para as ensinar a lidar com qualquer preocupação à medida que crescem. “A infância é uma época perfeita para ensinar competências que ajudem as crianças a lidar com as preocupações ou medos, preparando-as para lidar com o que despoleta essas fobias”, diz Nina.

Para além disso, os insetos estão por todo o lado! De facto, um estudo de 2016 da Universidade Estadual da Carolina do Norte descobriu que os lares americanos partilham o seu espaço com até cem espécies de insetos. “Estamos rodeados de insetos”, diz a entomologista Eleanor Spicer Rice, autora de Ants: Workers of the World. “Se conseguirmos descobrir o que estão a fazer e aprender mais sobre eles, o nosso mundo torna-se um lugar mais vibrante e interessante.”

E isso, diz Eleanor, pode ajudar as crianças a tornarem-se defensoras ambientais.

“Os insetos ajudam a sustentar vida e são um dos maiores aliados na criação de um ecossistema harmonioso e funcional. Ensine as crianças sobre a importância do papel desempenhado pelos insetos na natureza, começando pelo seu próprio reconhecimento e compreensão.”

Independentemente de o seu filho tentar assassinar todas as abelhas inocentes, ou perder a cabeça quando vê borboletas, compreender as razões pelas quais as crianças se comportam desta forma pode ajudar os pais não só a dissipar os receios dos filhos, como também a mostrar-lhes o quão importantes são os insetos. Descubra o que os peritos dizem sobre a ciência por detrás da fobia de insetos na infância e dicas para ajudar as crianças a ultrapassar esses receios.

Porquê o medo de insetos na infância

Embora o receio de uma criatura que pode picar ou morder seja saudável e faça sentido, a aversão completa de uma criança a seres minúsculos que não lhes querem fazer mal pode ser uma coisa frustrante. Contudo, os especialistas dizem que este medo provavelmente está programado no nosso cérebro.

“O medo é uma emoção humana muito básica que, do ponto de vista evolucionário, desempenha um papel protetor”, diz a psiquiatra de crianças e adultos Rashmi Parmar.

Basicamente, os nossos cérebros alertam-nos para qualquer tipo de noção de perigo para nos proteger. Por exemplo, quando o cérebro percebe que uma vespa pode picar, a resposta para qualquer inseto grande que voe pode ser a mesma. Rashmi diz que isto é algo que pode desencadear a resposta cerebral de “lutar ou fugir”, que liberta cortisol, a hormona do stress. O resultado é o aumento do batimento cardíaco e do fluxo sanguíneo para os músculos, algo que ajudou os nossos antepassados a lutar ou a fugir de ameaças – e provavelmente vai entrar em ação sempre que qualquer tipo de inseto rastejar em direção ao seu filho.

“Os movimentos rápidos e pouco familiares podem fazer com que os insetos sejam ainda mais imprevisíveis e ameaçadores”, diz Nina Kaiser.

Estes momentos de terror – bem como as diversas patas de um inseto, olhos esbugalhados e corpos estaladiços (e entranhas viscosas) – podem desencadear uma resposta de aversão que pode ser mal interpretada como medo, diz Rashmi. De facto, um estudo conduzido pelo Instituto de Tecnologia da Georgia (em parceria com a empresa Orkin) descobriu que, quando os participantes viam imagens de insetos, a ínsula do cérebro respondia – trata-se de uma área do córtex cerebral que está associada à aversão.

Como é o medo de insetos

A maioria das crianças provavelmente irá sentir algum tipo de hesitação quando está perto de insetos, algo que ultrapassam à medida que crescem. Mas Nina diz que este tipo de receio se manifesta de forma semelhante independentemente da idade.

As crianças podem parecer desconfortáveis, com medo ou zangadas, e tentar ativamente evitar ou fugir de insetos. “Algumas crianças podem ficar quietas, congelar ou ‘desligar’”, acrescenta Nina. “Outras crianças podem manifestar-se com gritos, perder o controlo, ou até fugir e esconder-se.”

Ainda assim, Nina acredita que a resposta de uma criança mais nova vem da emoção – ou seja, um inseto é apenas “assustador” – ao passo que a reação de uma criança mais velha já engloba aversão. (“Aquele inseto pode picar-me” ou “Aquele inseto têm andado a rastejar no lixo.”)

Curiosamente, as crianças mais novas não costumam ter tanto medo de insetos como as crianças mais velhas, porque ainda não assimilaram esse comportamento. Neste estágio de desenvolvimento, trata-se mais de curiosidade e de procurar pistas nas pessoas que as rodeiam para compreender se e como devem gostar ou recear algo, diz o psiquiatra Pavan Madan, que trabalha com crianças, adolescentes e adultos.

“As estratégias que envolvem distrações são as que funcionam melhor”, aconselha Pavan. Mostrar às crianças mais novas um objeto ou fazer-lhes cócegas pode ser o suficiente para as distrair de um inseto sem as assustar. Também se pode dar um carinho adicional às crianças para elas saberem que não há nada a temer.

Embora a aversão a insetos seja normal, Rashmi Parmar diz que os pais devem estar atentos a quaisquer tipos de ansiedades prolongadas que tenham impacto nas atividades diárias das crianças, como por exemplo quando uma criança se recusa a brincar ao ar livre ou a passear no jardim. É nestes momentos que provavelmente se deve consultar um profissional de saúde mental.

Evitar que as crianças percam o controlo

Expor as crianças desde muito cedo à natureza é uma boa forma de prevenir que o medo de insetos se instale. “Isto ajuda-as a aprender sobre insetos e sobre as suas funções na natureza, e pode mais tarde impedir um excesso de ansiedade”, diz Pavan.

Um estudo feito em 2018 com crianças em idade escolar mostrou que o conhecimento sobre insetos reduzia as fobias irracionais. Eleanor Rice aconselha os pais a ensinarem aos filhos sobre a importância dos insetos e biodiversidade – e que um ecossistema saudável depende de todos os tipos de criaturas, não apenas das mais enternecedoras. As abelhas podem picar, mas também polinizam plantas e dão-nos os alimentos dos quais dependemos. As formigas e as minhocas podem ser estranhas, mas também escavam túneis que providenciam água e nutrientes para as raízes. As aranhas podem morder, mas comem uma série de outros insetos nefastos.

Contudo, se uma criança demonstrar realmente aversão a insetos, os especialistas dizem que reconhecer o receio da criança – por muito irracional que possa parecer – é o primeiro passo para ela o superar.

Para as crianças mais novas, Nina diz que os pais podem segurar na mão da criança e dizer calmamente: “Sim, é um inseto! Estás um pouco assustado, mas não faz mal – o inseto não nos vai fazer mal. Vamos observá-lo a afastar-se.”

Para as crianças em idade escolar, Pavan diz que as crianças devem poder partilhar os seus sentimentos – e que os pais os devem validar: “Eu sei que as abelhas picam, e isso pode ser assustador. Mas se deixares as abelhas em paz, elas não te vão magoar.”

Depois, os pais devem tentar determinar o que a criança teme realmente. Com que rapidez se move o inseto? É uma criatura imunda? Pode picar ou morder? Os pais podem depois responder de forma lógica: Um inseto que não seja incomodado provavelmente não irá perturbar ninguém, e que os insetos têm mais a temer de nós do que nós deles. E, como é óbvio, salientar como são benéficos para manter o nosso planeta saudável.

Este trabalho deve ser feito gradualmente, sobretudo com as crianças mais receosas. Comece por falar sobre insetos ou a mostrar vídeos aos seus filhos, depois coloque as crianças numa situação em que compreendem que os insetos não são uma ameaça real. “Continue a tentar ficar mais ou menos perto de um inseto em casa ou no quintal”, diz Rashmi Parmar. “Esta distância pode ser reduzida lentamente ao longo do tempo, conforme for tolerada pela criança.”

Quando se trata de insetos, os pais também devem ter atenção aos seus próprios comportamentos – se os pais se assustarem facilmente quando veem um inseto, os filhos podem fazer o mesmo. “Mostre às crianças como se pode parar para prestar atenção ao tipo de inseto e ao que está a fazer, antes de as crianças perderem o controlo só porque estão perto de um inseto”, diz Eleanor.

Dito isto, os especialistas alertam que uma reação excessiva também pode alimentar a ansiedade de uma criança. “Se estivermos a recuar para tranquilizar os nossos filhos de que os insetos são inofensivos, podemos estar acidentalmente a passar a mensagem oposta, porque estamos a dar demasiada atenção e validação a esse receio”, diz Nina. “O truque é encontrar um equilíbrio entre evitar o inseto e a sensação de segurança.”

Resumindo, não faz mal os pais referirem aos filhos quais são os insetos com os quais devem ter cuidado. “Assim como ensinamos os nossos filhos a abordar cães estranhos com respeito e cuidado”, diz Eleanor, “podemos ensiná-los a ter cuidado com insetos de cores ou listas brilhantes, já que estes sinais costumam servir de alerta.”

“Nós precisamos dos insetos. Sem eles, não existíamos. Os insetos são belos, estranhos e muito interessantes de se conhecer”, diz Eleanor.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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