Como um livro por dia mantém afastado o stress da pandemia

Chama-se ‘biblioterapia’ – e tem benefícios para a saúde mental das crianças.

Por Yelena Moroz Alpert
Publicado 13/05/2021, 11:48
Criança lê um livro

  

Fotografia de SeventyFour / Getty Images

Meghan Ely e o seu filho de oito anos, Oliver, viajam todas as noites. Por vezes viajam de comboio até ao castelo de Hogwarts, outras vezes visitam a metrópole excêntrica de Homem-cão.

“Ansiamos por este ritual”, diz Meghan. “A leitura dá-nos a oportunidade de terminar o dia com uma nota positiva, independentemente do que aconteceu.”

Depois de mais de um ano de ensino à distância e de stress sobre as crianças devido à pandemia, a leitura tornou-se numa forma de escape muito bem-vinda para famílias como a de Meghan Ely. “Ler histórias, sobretudo de fantasia, é uma ‘vacinação social’ contra todas as restrições, pois ajuda as crianças a encontrar uma forma de sair do que a COVID-19 trouxe”, afirma Prisco Piscitelli, diretor do Departamento de Educação para a Saúde e Desenvolvimento Sustentável da UNESCO e coautor de um estudo de 2020 sobre a ligação entre leitura infantil e bem-estar. E depois de um estudo da Universidade de Stanford ter descoberto recentemente que a fluência em leitura está a diminuir em cerca de 30% durante a pandemia, sobretudo entre os alunos do segundo e terceiro ano, fazer com que as crianças regressem aos livros é agora mais importante do que nunca.

A imprevisibilidade do ano passado pode fazer com que as crianças se sintam ansiosas em relação a tudo o que as rodeia, desde a disponibilidade das vacinas à possibilidade de poderem fazer uma festa de aniversário, mas os estudos revelam que os mundos fictícios podem ajudar as crianças a lidar com os problemas da vida real e promover o bem-estar. Este tipo de “remédio” literário, oficialmente apelidado de “biblioterapia”, usa a literatura para melhorar a saúde mental – uma prática que remonta a milénios, até aos faraós egípcios e filósofos gregos.

E os livros infantis podem ser particularmente catárticos.

“São muito poucas as histórias infantis que não têm uma resolução”, diz a professora adjunta Michelle H. Martin, da Universidade de Washington, que é especialista em literatura para crianças e jovens adultos. “Podem não ter um final feliz, mas dão às crianças uma nova perspetiva. Neste momento, as coisas podem parecer assustadoras e terríveis, mas melhores dias virão.”

À medida que a pandemia de COVID-19 avança – juntamente com a incerteza que isso traz – descubra como os pais podem usar os livros para fomentar resiliência nas crianças.

Por que razão ler é mais importante do que nunca

“Pandemia” pode ter sido a Palavra do Ano de 2020, mas talvez devesse ter sido “sobrevivência”. Muitas famílias tiveram de se ajustar ao ensino em casa, às dificuldades financeiras e perdas, para além dos stresses do dia a dia – e tudo isto afetou emocionalmente as crianças.

Contudo, parece que os livros podem ser ferramentas poderosas de sobrevivência. “Há décadas que os orientadores usam os livros para ajudar as crianças a lidar com adversidades ou tempos difíceis”, diz Michele Borba, autora de Thrivers: Surprising Reasons Why Some Kids Struggle and Others Shine. Emparelhar a leitura de um livro com um problema – seja o processo de luto, solidão ou ansiedade – pode ajudar as crianças a processar as suas emoções através de narrativas e personagens.

Por exemplo, um livro com protagonistas corajosos e independentes – quer seja um clássico ou um livro de banda desenhada – pode promover autoconfiança nas crianças. Uma criança que está fazer o luto pode beneficiar de um livro como Badger’s Parting Gifts de Susan Varley, que fala sobre um grupo de animais da floresta que está a processar a perda de um amigo.

E depois de um ano de distanciamento físico de amigos e familiares, a literatura também pode ajudar as crianças a lidar com os sentimentos de solidão, enquanto as ensina a desfrutar da sua própria companhia. Alguém que sente falta dos amigos pode encontrar conforto em Full of Empty, de Tim J. Myers e Priscilla Myers, uma história sobre uma princesa solitária. Para uma criança que tem medo de sair da sua bolha COVID, O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett, é um conto sobre otimismo e coragem.

“Reconhecer que não faz mal estar sozinho é um momento muito produtivo”, diz Michele Borba, que recomenda que se procure a ajuda de bibliotecários para obter orientação sobre livros infantis. “Não estamos sozinhos. Estamos com o Bilbo Baggins. Estamos com a Katniss.”

Ligações fora dos livros

Para além de poderem ajudar as crianças a lidar com os sentimentos mais complexos, os pais também podem recorrer aos livros como um ponto de partida para conversas mais difíceis sobre todos os tipos de questões. (“Lembras-te de como o [nome do personagem] teve um problema com [espaço em branco]?”)

“Os livros podem ajudar os pais a abordar os temas quando acontecem coisas difíceis”, diz Michelle H. Martin. Por exemplo, quando Michelle leu o livro Song of the Trees de Mildred Taylor com a sua filha de oito anos, ambas falaram sobre racismo através dos olhos de uma das personagens.

Da mesma forma, em Ramona Forever, de Beverly Cleary, o pai de Ramona Quimby, uma menina de oito anos, está a trabalhar em dois turnos enquanto tenta procurar um emprego melhor. “Quando os pais se sentiam infelizes, parecia que tudo corria mal.” Michelle diz que este nível de realismo é o que permite às crianças pensar em questões da vida real que podem ser relevantes durante e após a pandemia.

Quando as crianças se reveem nas páginas de um livro, a experiência pode ser encorajadora. “Os livros dão às crianças uma sensação de poder”, diz Michelle. “Os livros têm o poder de mencionar coisas que incomodam as crianças. Este tipo de capacitação pode ser bom para a saúde mental – porque deixa de parecer que somos impotentes e que não podemos fazer nada.”

Como começar uma família de leitores, independentemente dos horários

Judith Viorst, autora de Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day, não poderia ter previsto quantos dias terríveis, horríveis ou nada bons nos aguardavam em 2020. Mas, para lidar com isso, seguem-se quatro dicas para adicionar livros à rotina diária dos seus filhos – para tornar os dias difíceis um pouco menos difíceis.

Junte os livros com atividades. Para consolidar os laços de leitura familiar, envolva-se em atividades relacionadas com livros, como fazer biscoitos com constelações enquanto lê Mae Among the Stars, ou construa uma árvore de agradecimento depois de ler Thank you, Omu! (As crianças podem até trocar folhas com os amigos.)

Outra ideia: “Fazer uma representação do livro à medida que o lê e utilizar acessórios mencionados no livro pode tornar a experiência de leitura mais envolvente”, diz Tara Mathien, professora clínica assistente de estudos da primeira infância na Universidade da Flórida.

Crie proximidade com livros e cobertores. Já reparou que as crianças gostam de construir fortes? Isto acontece porque um recanto é igual a segurança. Michele Borba diz que os pais podem colocar um lençol sobre a mesa da cozinha, para criar uma tenda de leitura que seja grande o suficiente para todos. “Não pare de ler para os seus filhos quando eles aprenderem a ler”, acrescenta Michelle Martin.

Alternativamente, ler numa cama fofa é um atrativo infalível. “Quando eu dava aulas na escola primária, deixava sempre as crianças espalharem-se pela sala para encontrarem um canto aconchegante, em vez de se sentarem nas suas carteiras”, diz Noelle Easterling, mãe doméstica que lecionou durante mais de 10 anos. “Agora faço o mesmo com a minha filha.”

Tara Mathien diz que os pais podem incorporar estes momentos de criação de laços na rotina diária da família: “Algo como ler um livro juntos na hora de dormir torna-se numa rotina pela qual a criança aguarda, com a qual pode contar e se sente segura.”

Comece uma jornada literária. Para as crianças mais velhas, Ewelina Czyz, professora de inglês do 10º ano, adora uma boa “caça ao livro” na qual os alunos alternam entre livros para experimentarem títulos novos. Podemos criar uma configuração semelhante em casa, colocando uma série de livros em salas diferentes e, de seguida, fazendo com que os nossos filhos troquem de lugar a cada 10 minutos. Também podemos convidar jovens amigos da nossa bolha de segurança para trazerem livros que eles gostem e fazer uma festa literária.

“Dar às crianças a oportunidade de experimentarem livros diferentes abre géneros que as crianças poderiam não conhecer de outra forma”, diz Ewelina. Para obter recomendações e descobrir clubes virtuais de leitura, procure as bibliotecas locais que criam links na aplicação Zoom para pré-adolescentes e adolescentes.

Dê uma oportunidade à tecnologia. Nos dias em que a leitura não está em cima da mesa (nem no YouTube), os livros digitais podem ser ótimas opções. Por exemplo, a aplicação Libby permite a utilização do cartão da biblioteca para obter acesso gratuito a ebooks e audiolivros.

“As crianças que ouvem livros podem tornar-se leitores extraordinários”, diz Michele Borba. “É algo que fomenta a sua capacidade de concentração e ensina a ser autossuficiente.” E se as crianças tiverem dificuldades em ler, os audiolivros podem ser um caminho para os livros físicos, como Peixe Fora D’Água de Lynda Mullaly Hunt, um conto sobre uma aluna brilhante do sexto ano que enfrenta os seus próprios desafios de leitura.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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