A narrativa das crianças em campos de refugiados

O cinema de animação foi o mote do trabalho da exploradora da National Geographic Fausta Cardoso Pereira que esteve cerca de quatro meses com crianças em campos de refugiados na Grécia.

Por Filipa Coutinho
Publicado 8/08/2022, 15:27
Fausta Cardoso Pereira

A investigadora portuguesa continua a desenhar e a implementar projetos de cooperação, desenvolvimento e sustentabilidade. Está atualmente a desenvolver trabalho para Moçambique, em conjunto com ONGs.

Fotografia por Ozias Filho

Quando lhe peço para descrever o seu trabalho em algumas frases, Fausta Cardoso Pereira explica que tem “um trabalho interdisciplinar, que vai desde a gestão até à arte, com pessoas de várias origens sociais, culturais e religiosas”. Por isto, considera-se privilegiada, “uma contadora de histórias que vive, ouve e observa as histórias que conta”.

Ouviu uma reportagem sobre um bosque em Dunquerque que serve de abrigo a cerca de 1000 curdos iraquianos, iranianos e sírios, que a inspirou a conceber este projeto. A entrevista relatava os refugidos de Calais que tentavam viajar para Inglaterra. As palavras de um dos testemunhos ficaram-lhe na memória: “Não sou um terrorista. Vim para a Europa para escapar ao terrorismo”. Foi com este eco que Fausta Cardoso Pereira quis contribuir para romper com a narrativa negativa e os estereótipos que os europeus têm sobre os refugiados.

Esquerda: Superior:

A jovem Nour anima uma sequência do filme "Nour's Book".

Direita: Inferior:

Storyboard do filme "Summer Nights in Afghanistan".

fotografias de Fausta Cardoso Pereira

Depois de ler o texto de um menino refugiado na Suécia em que dizia “Não sou apenas um refugiado. Sou o Marwan Akrawi.”, começou a questionar-se que histórias têm as crianças refugiadas para nos contar. E se pudessem contar as suas histórias por eles próprios, com as suas próprias mãos e sendo fiéis à sua narrativa?

Assim nasceu o seu projeto “Campo Aberto – uma nova narrativa de crianças em Campos de Refugiados”, gravado entre maio e agosto de 2021. Através de seis curtas animadas com objetos presentes no campo, como flores, recortes de papel e pedras, crianças dos 8 aos 18 anos deram palco ao seu olhar do mundo e às preocupações que as rodeiam enquanto aguardam por uma solução no espaço europeu.

O cinema animado foi uma solução óbvia para Fausta Cardoso Pereira pelo seu trabalho no passado, na gestão do projeto “Os Filmes do Recreio” - workshops de cinema de animação com crianças do Alentejo. Duas das vantagens eram o baixo orçamento e permitir que a visão e identidade das crianças não fosse corrompida.

O processo foi longo, desde o apoio de várias organizações não-governamentais, à formação das crianças sobre a linguagem da animação, e ao trabalho dos tradutores. A acrescentar as dificuldades logísticas e de saúde impostas pela pandemia de SARS-CoV-2. Da equipa de trabalho faziam parte uma realizadora de cinema de animação como formadora e um psicólogo responsável por assegurar um ambiente seguro entre equipa e as crianças. O projeto incluiu 38 pessoas da Síria, Afeganistão, Iraque, Irão e crianças curdas.

Animação do filme "Eyes full of Hope".

Fotografia por Fausta Cardoso Pereira

O início arrancava com exercícios de animação, “em que as crianças e jovens animavam objetos que traziam como flores, pedras, arroz, botões”. O propósito era “captar o interesse e perceberem que a animação é muito mais do que os cartoons que vêm na TV.” Fausta Cardoso Pereira esclarece que mais tarde, “seguia-se o processo de storytelling e storyboard” e na semana final, as crianças dedicavam-se a “ animar a história e à exibição dos filmes, no último dia, com a presença dos jovens e das famílias”.  

Segundo a investigadora, o maior desafio do projeto foi a língua e o grande mosaico de culturas no campo. Explica ainda que criaram “estratégias de comunicação para ultrapassar esta situação, com recurso a linguagem corporal e aprendizagem “learning by doing”. Como resultado acabaram todos por se “divertir imenso e, a equipa, aprendeu algumas palavras em árabe”. Fausta Cardoso Pereira partilha ainda que “a vontade destas crianças e jovens em construir histórias e contá-las com recurso a uma linguagem diferente, ajudou a ultrapassar todas as barreiras”.

“Por vezes os participantes já sabiam que história queriam contar”. Algumas crianças recordavam os seus países ou a jornada até entrarem na fronteira da Grécia. Alguns jovens foram treinados mais a fundo no mundo da animação com os programas “Premiere” e “After Effects”. E, de acordo com a investigadora, depois da equipa abandonar o campo, algumas crianças em Lesvos continuaram a fazer filmes animados.

À conversa com Fausta Cardoso Pereira, pergunto se pode partilhar uma das histórias dessas crianças, que mais a impressionou. Conta-me a história de Somaya, a protagonista do filme “Eyes full of Hope”. Quando começaram a “planear o storytelling, na narrativa que o grupo gostaria de contar, a Somaya, com lágrimas nos olhos, diz-nos que quer falar sobre os perigos e dificuldades que passou até chegar a Lesvos”. Nesse mesmo dia, a sua família tinha recebido a segunda recusa ao pedido de asilo, sendo que, geralmente, este cenário implica o envio das pessoas para os seus países de origem. “É quase impossível conseguir que um advogado desencadeie um terceiro pedido de asilo”, explica a investigadora. “Somaya disse-nos que quer que as pessoas compreendam, de uma vez por todas, porque é que ela, e outros como ela, saíram do seu país, porque é que estão em solo europeu. Este filme reflete uma mensagem política muito forte porque foi elaborado num momento crítico para esta criança”.

“A maioria (dos filmes) tem uma mensagem política.”

No final do projeto, os investigadores fizeram uma análise antropológica dos filmes e aperceberam-se que “a maioria tem uma mensagem política”. Por exemplo, os pássaros e as bombas são elementos comuns. Dois dos filmes utilizam a palavra “esperança” no título. A narrativa mostrou que a linha entre o storytelling e os traumas é muito ténue. E, felizmente, o ambiente seguro que foi criado para estas atividades de trabalho, permitiu-lhes expressarem emoções que habitualmente guardam para si próprios.

A investigadora está atualmente à procura de financiamento para voltar a trabalhar com a comunidade de refugiados na Grécia, agora com mais tempo para cada grupo de crianças e com o apoio de um tradutor.

Fausta Cardoso Pereira é storyteller, vencedora do prémio Antón Risco (Espanha) pelo livro "Dormir com Lisboa" e gestora de projetos de cooperação, desenvolvimento e sustentabilidade. Pode ver os vídeos deste projeto aqui.

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