Fotografia

É Assim O Turismo Nos Territórios Ocupados Da Palestina

O muro da Cisjordânia é uma tela viva das narrativas israelo-palestinianas.Thursday, November 9, 2017

Por Christine Blau
Fotografias Por Yoray Liberman
Em Belém, uma turista posa para uma fotografia junto aos graffiti que cobrem o muro da Cisjordânia.

Um imenso muro de betão ergue-se opressivamente sobre o horizonte de Belém. Muitos turistas afluem à cidade para visitar o local bíblico de nascimento de Jesus, numa gruta debaixo da Igreja da Natividade, datada do século VI, na Praça da Manjedoura, um sítio Património Mundial da UNESCO. Em vez de um cenário digno de um postal de Natal, marcado por campos de pastoreio, o que encontramos é uma estrutura imponente — que, de futuro, se irá estender por mais de 700 quilómetros, e que chega a atingir, em certas zonas, quase oito metros de altura — que divide a paisagem.

“O muro faz parte da história e do dia a dia da população local,” explica-nos Aziz Abu Sarah, um explorador National Geographic natural de Jerusalém. “Suscita emoções e opiniões muito fortes, tanto em israelitas como em palestinianos, pelas mais diversas razões. Podemos explorar muitos dos aspetos do conflito e das narrativas israelo-palestinianas através de uma visita ao muro.”

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Os visitantes estrangeiros percorrem em autocarros turísticos ou de táxi os pouco menos de 10 quilómetros desde Jerusalém, viajando ao longo do muro despido que os israelitas começaram a construir em 2000, justificando-o como uma proteção contra o terrorismo. É obrigatório mostrar a identificação aos guardas nos pontos de controlo, o que restringe os movimentos a israelitas e palestinianos. Considerado uma forma de segregação racial e apartheid pelos palestinianos, o muro do lado palestiniano encontra-se coberto de graffiti vívidos e anárquicos, em forma de protesto.

“Pretendo mostrar o aspeto artístico do conflito, a resistência através dos graffiti, da pintura e das cores,” diz-nos o fotógrafo israelita Yoray Liberman, que viajou até Belém, o epicentro do turismo na Palestina. “Também mostro o reflexo que o muro da separação teve na paisagem, na ecologia e na natureza, dando enfâse à sua imensidão, por comparação com os seres humanos.”

Um tríptico de Banksy com a imagem de um manifestante está exposto no café do Hotel Walled Off, apenas uma das muitas obras de arte deste evasivo artista britânico em exposição no hotel.

O espetro visual das opiniões políticas chega até à Praça da Manjedoura, onde os taxistas apregoam viagens para visitar as obras de arte mais célebres do misterioso artista de rua britânico conhecido como Banksy, que, desde 2005, tem usado o muro como uma tela para chamar a atenção para o conflito em curso. Há uma rapariga de tranças a revistar um soldado, uma pomba que usa um colete à prova de bala, entre outras obras provocantes. Este ano, Banksy atraiu ainda mais pessoas com a abertura do Hotel Walled Off, adjacente à fronteira, onde os visitantes podem ficar alojados num hotel repleto de arte, que se gaba de ter “a pior vista do mundo.” Na porta ao lado, uma loja de graffiti vende stencils e tinta aos visitantes, para que estes possam também deixar a sua marca.

O algodão representa o gás lacrimogéneo a ser libertado, envolvendo uma escultura de Banksy, no Hotel Walled Off. À direita: Um tríptico de Banksy com a imagem de um manifestante está exposto no café do Hotel Walled Off, apenas uma das muitas obras de arte deste evasivo artista britânico em exposição no hotel.

Além das narrativas artísticas da cidade, os habitantes locais dão-nos também as suas perspetivas pessoais e diversificadas. Enquanto os taxistas partilham histórias das suas vidas em Belém, enquanto conduzem os seus passageiros até uma colina, de onde terão uma vista privilegiada sobre o muro, diversas organizações oferecem visitas a famílias num campo de refugiados. Os participantes da Expedição National Geographic à Terra Santa ouvem uma singular narrativa dupla, contada tanto por guias israelitas como palestinianos, treinados pelo educador cultural Aziz Abu Sarah.

Alguns turistas desejam ver o muro, enquanto outros estão apenas de passagem, com destino a locais mais aprazíveis, como seja o caso da excecional paisagem em socalcos de Battir, coberta de oliveiras e vinhas, a célebre gastronomia de Nablus, ou as vielas sinuosas da mais antiga cidade do mundo, Jericó. Ainda assim, os turistas deverão visitar o muro para uma compreensão mais profunda de como esta estrutura afeta a vida da milhões de pessoas que vivem nas proximidades, e, só depois, explorar o resto da região.

No pátio do Hotel Walled Off, os turistas tiram selfies junto ao imponente muro.
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