Fotografia

Os Horrores de Guerra através da Lente de uma Máquina Fotográfica

Quando Lynsey Addario começou, os jornalistas eram respeitados como observadores neutrais. Agora podem ser decapitados. Terça-feira, 7 Novembro

Por Simon Worrall

Descubra a página especial da nova série da National Geographic "Iraque: Longe de Casa"

Tendo crescido no seio de uma grande família italo-americana no Connecticut, Lynsey Addario não fazia ideia de que, um dia, o seu emprego haveria de levá-la a alguns dos mais perigosos lugares do mundo. Mas uma viagem à Argentina quando tinha pouco mais de 20 anos abriu-lhe os olhos para um mundo mais amplo e acendeu-lhe a curiosidade para ver mais. Enquanto fotojornalista, passou a fazer a cobertura de zonas de guerra, do Iraque à Síria, passando pelo Afeganistão, para várias publicações, incluindo a National Geographic, onde foi uma das Women of Vision (Mulheres com Visão).

Da sua casa em Londres, a autora de It's What I Do: A Photographer's Life of Love and War fala de como lida com o medo, da razão por que ter sido mãe não a levou a deixar de trabalhar em zonas de guerra e de como a ascensão do Estado Islâmico (EI) alterou a forma como calcula o risco.

A Linsey diz: "Poucos de nós pensam fazer este trabalho deste a infância. É algo que descobrimos acidentalmente.” Como é que se tornou fotógrafa de guerra?

Foi um processo gradual. Acho que teve muito que ver com a curiosidade e com o trabalho noutros continentes. Pouco depois de ter concluído a licenciatura, fui viver para a Argentina para aprender espanhol. Quando estava lá, fui a um jornal local e quase que implorei por um emprego. Na universidade, tinha estudado relações internacionais e pensei que o fotojornalismo podia ser um casamento entre as relações internacionais e a arte: contar histórias com imagens. Disseram que não, mas acabei por convencê-los.

Mais tarde, mudei-me para Nova Iorque e trabalhei com a Associated Press, mas tive sempre o desejo de voltar a viver noutros continentes. Por isso, fui viver para a Índia e comecei a cobrir questões femininas. Tinha uma colega de quarto que um dia me disse: “Tratas muito as questões femininas no teu trabalho; devias ir para o Afeganistão sob o domínio Taliban.”

“NUNCA ME VI COMO UMA FOTÓGRAFA DE GUERRA. NÃO ERA ISSO QUE TINHA DEFINIDO.”

por Lynsey Addario

Tinha 26 anos, havia pouca coisa que me assustasse, pelo que disse: está bem. Poupei dinheiro e fui para o Afeganistão, que se encontrava sob o domínio Taliban. Era a primeira vez que estava num lugar sem embaixada americana. Era uma zona de guerra. Passei algum tempo a documentar as vidas de mulheres, a correr de um lado para o outro com as minhas câmaras numa mala, embora a fotografia fosse ilegal na altura.

Voltei mais tarde, aquando da queda dos Taliban e de Kandahar, e quando a guerra no Iraque estava a começar a desenvolver-se, preparei-me para ir também. Achei que se as tropas americanas se dirigiam para lá, eu queria estar no local e ver o que se passava. Na verdade, foi mais curiosidade do que outra coisa qualquer — a sensação de que queria estar na linha da frente da história, embora não necessariamente na linha da frente do combate. No fim, toda a gente começou a referir-se a mim como fotógrafa de guerra, o que, de início, foi muito confuso, porque nunca me vi como uma fotógrafa de guerra. Não era isso que tinha definido.

Addario é um nome italiano. Conte-nos um pouco da sua infância e da forma como ajudou a definir a sua escolha de carreira.

Eu cresci numa grande família italiana. Tenho três irmãs. A minha mãe e o meu pai estiveram casados até quando eu tinha cerca de oito anos. Depois o meu pai saiu do armário e trocou a minha mãe pelo Bruce, que era amigo próximo da minha mãe. Estão juntos há quase 35 anos. A minha casa sempre foi muito aberta e divertida, com muito poucas regras. Os meus pais sempre nos estimularam a seremos criativos, a fazermos o que gostamos de fazer e a nunca nos limitarmos. Acho que esta foi a principal razão por que me senti confortável para ir para lugares desconhecidos. Nunca me incutiram medo. E sempre me ensinaram a respeitar as pessoas e a estar aberta a diferentes tipos de pessoas. Para mim, esta é uma qualidade muito importante para um jornalista.

Robert Capa disse um dia: "Se as tuas fotografias não são suficientemente boas, não estás suficientemente perto.” É essa a sua filosofia?

É, mas não necessariamente em zonas de combate. Independentemente do tipo de histórias que tentamos contar, temos de nos aproximar e de nos envolver muito intimamente com as pessoas das nossas histórias. Temos de querer saber. Às vezes conheço fotógrafos que não têm essa empatia e pergunto-me como conseguirão tirar boas fotografias. Acho que é muito importante que nos aproximemos emocional e fisicamente.

A maioria das minhas histórias exigem muita pesquisa preliminar — encontrar as pessoas com as quais quero passar tempo, entrevistá-las, fazer com que se sintam à vontade. Só começo a tirar fotografias algumas horas mais tarde, às vezes dias. Não sou o tipo de fotógrafa que chega com uma máquina fotográfica e começa a disparar e a tirar fotografias em série. [Risos] É um processo que demora um pouco. Considero-me uma fotógrafa bastante lenta.

Como é ser mulher numa profissão que continua a ser dominada por homens?

Acho que é uma vantagem. Eu trabalho sobretudo no mundo muçulmano. A sociedade está segregada, pelo que eu tenho acesso a mulheres e a homens. Fisicamente, há desafios a superar. Lembro-me de termos feito uma patrulha de sete horas até a área do ópio em Kandahar. Sabíamos que íamos enfrentar uma emboscada dos Taliban, e a cada 60 a 90 metros, aproximadamente, tínhamos de saltar por cima de um canal de irrigação com três metros de largura. [Risos] Eu meço cerca de 1,52m. O meu colega, Dexter Filkins, meu parceiro nesta viagem, saltava para o outro lado antes de mim e depois estendia a mão até meio e puxava-me literalmente para o outro lado. Mas eu não quero ser o tipo de fotógrafa que atrasa o resto das tropas por ser menina.

Como lida com o medo?

Numa situação daquele tipo, não há lugar para o medo. Quando nos ameaçam de execução, no meu caso, eu entro numa espécie de estado Zen, um lugar em que tento ficar muito calma. Não grito nem faço barulho. Digo simplesmente: “Bem, fui eu que escolhi estar aqui. Sou uma jornalista e tomei a decisão de fazer a cobertura desta guerra, e esta é uma das consequências”. É uma questão de tentar manter a cabeça fria. O que não quer dizer que não tenha ido abaixo muitas vezes ao longo dos seis ou sete dias em que estivemos em cativeiro na Líbia.

Alguma vez deixou de tirar uma fotografia por ser demasiado perigoso — ou assustador fazê-lo?

muitas fotografias que não tirei por ser demasiado perigoso. Há alturas em que penso que a linha da frente é perigosa de mais e afasto-me. Eu não tiro fotografias gratuitamente sangrentas de alguém que acaba de ser morto, ou de alguém que está gravemente ferido. O que eu tento é, obviamente, mostrar o preço da guerra. Mas acho que é muito importante respeitarmos as pessoas que fotografamos.

Anthony Loyd, correspondente de Guerra britânico, disse uma vez que se sentia como um “pornógrafo de guerra, um voyeur”. Já se sentiu assim?

Sim. Sinto isso muitas vezes. A minha filosofia sempre foi a de que estou lá pelas pessoas que estou a cobrir. Sou só uma mensageira a registar o que quer que esteja a acontecer e a levar a mensagem a pessoas no poder que poderão estar em posição de fazer alguma coisa. Se é pornografia ou outra coisa qualquer, a verdade é que estou a entrar em cenas íntimas e nos momentos mais vulneráveis das pessoas. É algo a que, há medida que os anos passam, dou muito mais atenção. Tento assegurar que todas as pessoas que fotografo se sentem confortáveis com o que estou a fazer.

Uma das minhas fotografias preferidas é a de um grupo de fuzileiros da Marinha dos EUA a cortar a barba no deserto. Descreva o cenário e como conquista a confiança das pessoas.

Na verdade, essa foi uma das mais fáceis. Tinham acabado de chegar a Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein, e estavam a celebrar. É muito mais difícil fotografar soldados quando estão a perder ou quando acabam de perder um dos camaradas. Tirei esta fotografia alguns dias depois da queda de Saddam Hussein. Estávamos numa enorme caravana de jornalistas à espera para entrar em Tikrit, e os fuzileiros estavam mesmo em frente ao palácio. Vinham a combater desde o Kuwait, pelo que estavam encantados por terem um momento para cortar a barba e tomar um banho com as garrafas de água. Há algo de agradável em ver alguém do nosso próprio país quando estamos numa zona de guerra. Por isso, foi entusiasmante depararmo-nos com um grupo de americanos e como que dizer “Olá!”

Disse que ouviu uma mulher paquistanesa a falar entusiasmada sobre o 11 de setembro. Como é que separa a sua identidade profissional da sua entidade americana?

Lembro-me desse momento muito claramente. Nunca tinha ouvido aquilo antes, pelo que, para mim, foi muito revelador ouvir alguém dizê-lo e tentar perceber quais eram as suas motivações. Queria perceber o que inspira um ódio que leva as pessoas a conduzir aviões contra o World Trade Center. Tento não levar os meus preconceitos para as coisas. Mesmo que os tenha, quando estou a trabalhar, o meu trabalho consiste em escrever o que as pessoas estão a dizer, registar e publicar as suas afirmações. Não me sento ofendida com o que ela disse. Senti curiosidade sobre as motivações que ela tinha para o dizer.

Antigamente tinha de se enviar as fotografias por correio. Ou, como aconteceu a Robert Capa, perdê-las numa mala. Como é que a tecnologia transformou o seu trabalho de fotógrafa de guerra?

[Risos] É muito engraçado porque estou aqui sentada esta tarde a olhar para fotografias que tirei num negativo. Têm uma qualidade horrível porque costumava revelá-las em laboratórios locais no Paquistão, onde a maior parte dos químicos estava fora de prazo. Acabavam por deixar os negativos todos arranhados. Por isso, a maioria das fotografias daqueles tempos estão completamente estragadas. Mas ainda bem que aprendi a trabalhar com câmara com película porque tenho uma perceção muito melhor da luz. Agora, com as máquinas digitais, consigo fotografar e enviar a fotografia em poucos minutos. Quem trabalha para um jornal tem de ter as fotografias prontas imediatamente.

De que forma é que as mortes de  Chris Hondros e Tim Hetheringtona afetaram?

Eu fui raptada na Líbia. E quando saí, achei que tínhamos tido muita sorte por sobrevivermos. Houve tantas vezes em que podíamos ter sido mortos. Mas, emocionalmente, senti-me bastante estável. O Tim e o Chris foram mortos quase exatamente um mês depois de nós termos sido libertados. Eu estava em Nova Iorque, em reuniões e a passar algum tempo com amigos e família. Quando soube que tinham sido mortos, foi como se o trauma que nunca tinha chegado a sofrer depois da Líbia me tivesse atingido. Não sei se é a culpa do sobrevivente. Mas o meu primeiro pensamento foi: “Como é que eles foram mortos e nós sobrevivemos? Não é justo.” Passei uma semana a chorar a quase toda a hora.

Não há assim tanta gente que tenha feito a cobertura das guerras do Iraque e do Afeganistão e todos nos conhecemos bastante bem. Na noite em que eles foram mortos, houve a grande grupo que se juntou no Half King, um bar em Chelsea [em Nova Iorque] cujo proprietário é Sebastian Junger. Limitamo-nos a chorar e a abraçarmo-nos. E acho que este sentido de camaradagem ajudou muito. Sempre tive amigos próximos na minha vida, mas passo muito tempo com os meus colegas porque os meus colegas são capazes de compreender o que eu sinto. Neste momento das nossas carreiras, muitos de nós perderam amigos e têm amigos que perderam uma perna. É algo que conseguimos compreender de uma forma que as pessoas que não têm a nossa profissão têm mais dificuldade de perceber.

Passou grande parte da sua vida a testemunhar crueldade e horrores. Quais foram os custos emocionais e psicológicos? Ainda tem algum ideal?

Tenho, sim. Porque naqueles sítios escuros e miseráveis, encontrei as pessoas mais surpreendentemente resistentes, generosas e afetuosas. Na guerra, vemos extremos de caráter. Já vi as pessoas mais perversas, mas também já vi as mais inacreditáveis.

“NAQUELES SÍTIOS ESCUROS E MISERÁVEIS, ENCONTREI AS PESSOAS MAIS SURPREENDENTEMENTE RESISTENTES, GENEROSAS E AFETUOSAS”

por Lynsey Addario

Lembro-me de que, na Líbia, quando estávamos a trabalhar junto da linha da frente, uma das famílias nos cedeu uma casa em Brega para dormirmos. Havia 17 jornalistas a dormir no chão daquela casa. Os locais estavam tão agradecidos por estarmos lá a fazer a cobertura da história deles que todas as noites às 18h00 alguém nos batia à porta. Enviavam o filho de 10 anos com dois tabuleiros gigantes de comida para nós. São momentos como estes que mostram um lado incrível das pessoas que estão cercadas pela guerra. Não é algo que aconteça em muitos outros lugares por haver tantas distrações na vida quotidiana.

Ou seja, não perdi a fé de maneira nenhuma. Na verdade, antes de passar por algo pessoal, penso nas mulheres que vivem sem nada na África, que passaram por tantas tormentas e que, apesar de tudo, continuam a rir e a sorrir constantemente. Estas pessoas ensinaram-me tanto ao longo dos anos!

Veja a Galeria com várias fotografias de Lynsey Addario para a National Geographic

 

Desde que escreveu o livro, houve um novo inimigo, ainda mais mortífero, que emergiu no Médio Oriente. E agora a Linsey é mãe. A torrente de decapitações do EI levou-a a deixar de fazer reportagens sobre eles?

A pergunta que me fazem sempre é: “Agora que é mãe, ainda faz esse tipo de trabalho?” Reviro os olhos porque, sim, continuo a fazer o mesmo trabalho. Claro que sempre que estou numa situação em que posso morrer, ou em que um amigo perde a vida, tenho de parar e reavaliar a forma como posso fazer este trabalho de uma maneira que me permita manter-me viva.

O EI mudou a completamente o cenário. Quando comecei, os jornalistas eram respeitados enquanto observadores neutros. Em 2004, fomos raptados por um grupo pertencente à Al Qaeda. Mas libertaram-nos quando verificaram que éramos jornalistas. Agora podemos ser decapitados a fazer o nosso trabalho de jornalistas.

Por isso, em cada missão, tenho de ponderar para onde vou, qual é a história que vou cobrir, de que forma posso contribuir para a história e até que ponto me vou aproximar do EI. Da última vez que estive no Iraque, não consegui obter uma resposta definitiva dos combatentes Peshmerga sobre onde era a linha da frente. Quase como piada, diria: “Muito bem, onde está o EI agora, então?” “Ah, seguem nessa direção?” “Bem, não — eu quero saber onde estão. Não em que direção seguem!” [Risos]

Quando tinha pouco mais de 20 ou 30 anos, sentia-me invencível. Não tinha perdido amigos. Não tinha sido raptada duas vezes. A maternidade fez com que percebesse que preciso de estar viva. Há uma pessoa pequenina que depende de mim. Sou mais cautelosa. Não vou diretamente para a linha da frente. Faço a cobertura dos mesmos lugares e as mesmas histórias, mas tento manter-me um pouco mais afastada. Mas quero desistir deste trabalho? Não! Vou desistir deste trabalho? Não!

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