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Numas Honduras Dominadas por Gangs, Envelhecer É Um Privilégio, Não Um Direito

Envoltos num ciclo de violência, corrupção e pobreza, estes jovens das Honduras têm, literalmente, de lutar pela sua própria sobrevivência. Quinta-feira, 15 Fevereiro

Por Tomás Ayuso
Fotografias Por Tomás Ayuso

Nos arredores de San Pedro Sula, uma cidade no norte das Honduras, rodeado por pântanos e campos de cana-de-açúcar, situa-se o bairro sobrelotado de La Planeta.

Aqui, as torres das igrejas surgem no céu nas esquinas das ruas por alcatroar dominadas por inúmeros gangs em permanente conflito entre si— um quarteirão pode pertencer a um gang e os três seguintes a gangs rivais. Polícias de rosto tapado patrulham as ruas prevenidos com coletes à prova de bala e sempre com o dedo no gatilho. Não há escolas nem estabelecimentos por perto; os habitantes não têm outra opção senão atravessar este território nas suas longas migrações diárias até outras zonas da cidade, ficando à mercê de criminosos ou arriscando serem atingidos por uma bala perdida.

É em sítios como este que as gerações mais novas se vão apercebendo que nas Honduras, graças aos elevadíssimos níveis de criminalidade e violência descontroladas, corrupção e pobreza, foi negado às pessoas o direito de envelhecerem e atingirem a terceira idade.

Percorra a galeria e veja as histórias dos jovens com que o fotógrafo Tomás Ayuso se deparou

Voltei a La Planeta para terminar um projeto que comecei em 2015: documentar a conturbada emigração em massa dos hondurenhos para os Estados Unidos. Foram várias as ocasiões em que membros de famílias hondurenhas em fuga me descreveram detalhadamente o momento em que perceberam que continuar a viver no país estava fora de questão: uma ameaça de morte por parte de um gang, um posto de trabalho encerrado por não conseguir suportar a extorsão imposta pelos sicarios ou por causa dos sucessivos tiroteios na periferia da cidade.

Queria perceber melhor tudo o que estava em jogo, por isso desloquei-me ao ponto de origem do êxodo. Antes de chegar a La Planeta, assumi que o bairro seria governado severamente por criminosos sem escrúpulos. Em vez disso, encontrei os locais a viverem num estado de aparente pacatez, lado a lado com membros de gangs, por vezes seus vizinhos, filhos e primos.

A maioria dos membros dos gangs que conheci não teriam mais de 16 anos e as suas vidas já haviam sido profundamente marcadas pela violência. Contaram-me as histórias de quando tiveram de enfrentar gangs rivais para defender o seu território. Um conflito recente terminara com a morte de seis adolescentes; os seus corpos cortados em pedaços e lançados a um curso de água.

Certa vez, conheci um membro de um gang que em pequeno ficara órfão depois de homens encarapuçados terem raptado a sua mãe. Perguntei-lhe quem cuidou dele enquanto crescia. Ninguém, respondeu. A avó dava-lhe alguma comida quando podia, mas além disso, limitava-se a procurar comida nas ruas, sozinho, até que o gang o adotou e cuidou dele. Hoje, só é conhecido pelo seu nome de gang, Furia.

Quem mais me marcou foi Moises, que nem 17 anos tinha. Mal nos conhecemos, estabelecemos logo uma relação muito forte. Assim que conquistámos a confiança um do outro, ganhámos o habito de subir a colina deserta no meio do bairro. Longe das ruas movimentadas e barulhentas, Moises partilhou comigo aquilo que não o deixava dormir de noite. Moises estava a ser pressionado para se juntar ao gang de que os seus amigos de infância são membros desde os 10 anos. Jamais consideraria alistar-se, confessou, se não fosse pelos anos violência e agressões por parte da polícia e por todas as vezes que quase não conseguiu escapar a tiroteios entre gangs rivais. Juntar-se ao gang, pensou, poderia ser a sua única chance de sobreviver.

Os seus pais, antigos agricultores que vieram para a cidade em busca de melhores condições de vida para os seus filhos, pressionavam-no para abandonar o país, para ter uma chance de sobreviver e ter uma vida — qualquer que fosse — no estrangeiro. Mas Moises já estava dividido, quando a sua namora, de apenas 16 anos, o surpreendeu com a notícia de que em breve seria pai.

Tomás Ayuso é um fotojornalista hondurenho e escritor. Foi o vencedor da Portfolio Review e da National Geographic Grant na última edição do Festival Errante, que acontece em Montevideo, Uruguai.

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