Fotografia

Cidade Chinesa Replica a Cidade de Paris

Tianducheng não é a única cidade chinesa que nos parece estranhamente familiar. Segunda-feira, 30 Abril

Por Gulnaz Khan
Fotografias de François Prost

Na costa leste da China, a 9600 quilómetros de distância da Cidade Luz, uma réplica da Torre Eiffel, com 108 metros de altura, domina os céus de Tianducheng.

Conhecida como Paris do Leste, o desenvolvimento do mercado imobiliário de luxo na província de Zhejiang foi pensado para evocar o charme clássico da Europa. Os habitantes têm o seu próprio Arco do Triunfo, a praça principal dos Campos Elíseos, os edifícios franceses de estilo neoclássico, uma fonte dos Jardins de Luxemburgo e o monumento mais icónico da cidade: a segunda maior réplica da Torre Eiffel, sucedendo ao Hotel Paris Las Vegas, no Nevada.

Há dez anos, quando franqueou portas pela primeira vez, Tianducheng era descrita como uma cidade fantasma. Atualmente, embora muitas das suas casas se mantenham ainda desabitadas, a população cresceu na ordem dos milhares, e a afluência de turistas chineses e internacionais é uma constante, incluindo recém-casados à procura do cenário perfeito para uma fotografia.

“Duplitetura”

Tianducheng não é a única cidade chinesa que nos parece estranhamente familiar.

Nos arredores de Pequim, cowboys e a Route 66 compõem uma réplica de Jackson Hole, no Wyoming. Cabines telefónicas em tons de vermelho, bares e estátuas de Winston Churchill apimentam os corredores da Cidade do Tâmisa em Shangai. A cidade de Fuzhou está a construir uma réplica de Stratford-upon-Avon num tributo a Shakespeare, Fuyang ergueu o seu próprio edifício do Capitólio e a cidade austríaca de Hallstatt, declarada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, tem uma segunda casa em Guangdong.

“Parece que cidades inteiras e vilas foram aerotransportadas a partir das suas fundações históricas e geográficas em Inglaterra, França, Grécia, Estados Unidos e Canadá, e assentes em pontos distintos nas orlas das cidades chinesas”, segundo Bianca Bosker, autora de Original Copies Architectural Mimicry in Contemporary China.

Bosker refere-se ao fenómeno como “duplitetura”. E se os críticos argumentam que estes locais não passam de imitações vulgares, os arquitetos chineses, responsáveis pelos projetos, acreditam que a sua capacidade para recriar algumas das maiores maravilhas da arquitetura mundial é uma demonstração das suas competências técnicas e avanço tecnológico.   

Valores Fundamentais do Socialismo

Segundo Bosker, “se, em tempos, a China se considerava a si mesma o centro do mundo, atualmente, a China está a tornar-se no centro que contém em si o mundo”.

Numa só viagem, os turistas podem descobrir verdadeiros ícones da cultura chinesa, como a Grande Muralha e o Mausoléu do Primeiro Imperador Qin, e visitar um Palácio de Versalhes, em versão miniatura, ou conhecer a cidade de Paris. No entanto, o governo tem vindo a desenvolver medidas que procuram travar a proliferação destas cópias ocidentais.

No decurso de um inquérito de âmbito geográfico na China, as entidades oficiais descobriram que os nomes tradicionais chineses estavam a ser preteridos por nomes estrangeiros, sendo que alguns tinham desaparecido por completo, incluindo mais de 400 000 topónimos. Segundo o New York Times, ao abrigo de um regulamento publicado em 1996 na China, foi proibido o uso de nomes estrangeiros nas designações geográficas como medida de proteção do património cultural, mas sem grandes efeitos até à data.

"A China adotará medidas que visam combater irregularidades na denominação de estradas, pontes, edifícios e complexos residenciais nacionais, com particular enfoque no uso arbitrário de nomes estrangeiros e bizarros”, anunciou Li Liguo, ministro dos Assuntos Civis. “Serão visados determinados tipos de nomes, incluindo nomes que atentem contra a soberania e a dignidade nacionais e nomes que violem os valores fundamentais do socialismo e da moralidade convencional.”

Por isso, se as estátuas de mármore, as fontes ornamentais e os jardins geométricos de Tianducheng lhe fizerem lembrar a Cidade Luz, lembre-se: não a chame de Paris.

Continuar a Ler