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Lago Urmia, a Jóia Maculada do Irão

Outrora paraíso de aves e banhistas, os cais do Lago Urmia não conduzem a lugar algum. O que aconteceu à joia do Irão?Tuesday, May 15, 2018

Por Kenneth R. Weiss
Fotografias Por Newsha Tavakolian
Um grupo de reformados da cidade de Tabriz caminha nas águas salgadas do Lago Urmia. À medida que o lago vai secando, os veraneantes dispõem de cada vez menos espaço para confraternizar.

Venerado pela etnia Azeri “o solitário turquesa do Azerbaijão”, o Lago Urmia sucedia ao mar Cáspio como o segundo maior lago de água salgada do Médio Oriente, um verdadeiro paraíso para aves e banhistas. Mas, desde o início da década de 70, sob a ação da natureza e do homem, esta joia situada a noroeste do Irão foi diminuindo de tamanho. Nos últimos 30 anos, o lago perdeu cerca de 80% da sua superfície. Os flamingos que se banqueteavam com a artémia desta reserva de biosfera da UNESCO desapareceram na sua maioria, assim como os pelicanos, as garças e os patos. Até mesmo os turistas, que acorriam ao Lago Urmia pelas águas quentes e hipersalinas para banhos terapêuticos, mantêm-se longe.  

Aquilo que resta são cais que conduzem a lugar nenhum, carcaças enferrujadas de barcos semienterrados no lodo e paisagens brancas e estéreis de planícies de sal. Os ventos que fustigam o leito do lago transportam poeiras salgadas para os campos de cultivo, que, a pouco e pouco, tornam o solo infértil. Estas tempestades de poeiras salpicadas de sal, extremamente prejudiciais à saúde, provocam inflamação dos olhos, da pele e dos pulmões das populações de Tabriz, uma cidade com mais 1,5 milhões de habitantes, situada a cerca de 70 quilómetros de distância. Nos últimos anos, as sublimes águas de azul-turquesa do Urmia tingiram-se de vermelho-vivo. A cor deve-se à presença de algas e bactérias que proliferam nestas águas, oito vezes mais salgadas do que o oceano, e que ganham cor sempre que a luz do sol atravessa as águas pouco profundas.

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O que aconteceu ao lago tão acarinhado por todos? Segundo os cientistas, as alterações climáticas acentuaram os períodos de seca e provocaram a subida das temperaturas de verão, acelerando o processo de evaporação. Mas esta é apenas uma parte da história. Os engenheiros e especialistas em recursos hídricos referem que o lago nesta região semiárida está a acusar os efeitos de milhares de poços ilegais e da proliferação de barragens e projetos de irrigação, que estão a desviar águas dos afluentes para assegurar o crescimento das culturas de maçãs, trigo e girassóis. Os especialistas apelaram à intervenção do governo iraniano antes que o Urmia “se torne vítima da síndrome do mar de Aral”, a sobre-exploração dos recursos hídricos que condenou este mar interior da Ásia central.

A voz da ciência parece ter chegado a Teerão. O presidente iraniano Hassan Rouhani anunciou que iriam ser investidos cinco mil milhões de dólares na recuperação do Urmia através de descargas de água das barragens, melhorias da eficiência dos sistemas de irrigação e opção por culturas com menor consumo de água. No entanto, parece que alguns dos fundos também acusaram os efeitos da seca, frustrando as iniciativas de progresso e dando origem a petições dirigidas ao líder supremo do Irão, Aiatola Ali Khamenei, que apelam à renovação de esforços ou à necessidade de recorrer à ajuda internacional. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas está a colaborar com os produtores na sensibilização de práticas mais sustentáveis para economizar água. Embora as relações entre os Estados Unidos e o Irão tenham sido marcadas por uma enorme tensão durante décadas, os países permitiram o intercâmbio científico para refletir sobre formas de reparar a escassez de água no Lago Urmia e no Grande Lago Salgado do Utah, que se aproximam em tamanho e configuração.

Um rebanho de ovelhas perto do Lago Urmia.

Em 2016, num encontro promovido pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina, em Irvine, na Califórnia, cientistas americanos e iranianos partilharam histórias surpreendentemente semelhantes sobre a forma como o Irão e os Estados Unidos ocidental se debateram com vários anos de seca e as necessidades das respetivas populações, em rápido crescimento, e do setor agrícola. É fácil para as entidades oficiais esquivarem-se à responsabilidade atribuindo culpas às alterações climáticas ou aos caprichos do tempo. O engenheiro Amir AghaKouchak, professor na Universidade da Califórnia, em Irvine, que nasceu e foi educado no Irão antes de emigrar para a Califórnia, disse que ambas as regiões atravessaram por longos períodos de seca no passado. A diferença surge no plano das necessidades humanas e da disponibilidade dos recursos hídricos, ou seja, quando a quantidade de água disponível e renovável é manifestamente insuficiente para suprir as necessidades humanas. “Se se verificar uma seca idêntica no futuro, os impactos serão, certamente, mais extremos”, refere AghaKouchak.

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