Fotografia

Quando a Noite e o Dia se Juntam Numa Fotografia Épica

O fotógrafo Stephen Wilkes cria uma composição de imagens sobrepostas, que retrata a progressão do tempo numa paisagem única. Thursday, June 14, 2018

Por Alexa Keefe
Fotografias Por Stephen Wilkes
Parque Nacional de Seronera, em Serengeti, na Tanzânia O fotógrafo Stephen Wilkes e o seu assistente passaram 30 horas consecutivas sobre uma plataforma, elevada a cinco metros do solo, com vista sobre uma lagoa, para captar esta cena dominada por gnus, suricatas e hipopótamos. Os melhores fotogramas foram, posteriormente, sobrepostos, num trabalho meticuloso, para ilustrar o espectro do tempo no seu todo, à medida que a noite cede lugar ao dia.

Uma única imagem da coleção de fotografias, sob o título Da Noite ao Dia, de Stephen Wilkes, é composta por uma média de 1500 fotogramas, captados por disparo manual, através de sucessivos cliques, num período que oscila entre as 16 e as 30 horas. Durante este processo, Wilkes teve de manter a linha do horizonte sempre direita e assegurar a continuidade das imagens, o que significa manter a máquina fotográfica numa posição completamente estática.

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Durante semanas, Wilkes dedica-se a um meticuloso trabalho de pós-produção, juntando os melhores fotogramas até obter uma composição final de imagens sobrepostas, basicamente comprimindo o tempo. Para Wilkes, o entusiasmo está em mostrar às pessoas algo mais do que uma fotografia, uma imagem que proporciona uma experiência multidimensional, uma janela, tal como a descreve, para um mundo, no qual o espectro do tempo, da luz e de toda uma experiência atravessa a imagem. Wilkes dá-nos a contemplar uma paisagem nunca antes vista, uma imagem que os nossos olhos nunca poderiam ver por si mesmos.   

Biblioteca Pública de Nova Iorque, cidade de Nova Iorque.

No terreno, Wilkes confia numa pequena estrutura, que se eleva sobre uma paisagem urbana ou natural. A partir dessa plataforma, Wilkes observa a evolução de uma narrativa: seres vivos que interagem com o ambiente em seu redor, ante a progressão da luz e do tempo. Wilkes refere-se a esta posição estratégica como o derradeiro lugar da primeira fila, onde pode comungar da alegria da cena, enquanto espetador, sem que os atores em palco se apercebam da sua presença.

O seu processo é meticuloso e rigoroso. “Eu olho para um espaço único através de uma grelha”, afirma. “E depois decido onde começa o dia e termina a noite.” Qualquer que seja o ângulo – não importa que seja na diagonal, de cima para baixo, da frente para trás ou de trás para a frente – torna-se naquilo que Wilkes designa por vetor temporal. “O meu olho acompanha a cena orientado no tempo. O meu foco muda em função da passagem do tempo e da sua projeção no espaço.”

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Wilkes fixa a máquina naquele ângulo e depois treina o olho sobre a cena que se apresenta diante de si, premindo o obturador, quando identifica um momento que quer registar. “É o derradeiro puzzle mental”, afirma, “tal como um sudoku levado à máxima dificuldade”.

Quando fotografa estas imagens, Wilkes não dorme, com exceção de uns breves momentos que dedica à meditação ocasional, embora o seu assistente tenha ordens para gritar, se se aperceber de algo. Wilkes não faz pausas, a menos que o sol ou a lua estejam na posição certa e a falta de uns quantos fotogramas não crie um hiato nas transições de luz ao longo do dia.

Regata Storica, Veneza.

Não há lugar a repetições. Wilkes está completamente à mercê dos elementos, ora aguentando uma tempestade até ao fim, numa grua cheia de equipamento elétrico, ora desejando que a aproximação de uma frente quente ou fria não ofusque um pôr do sol naquele que seria, de outro modo, um dia perfeito. “Eu saio com uma energia verdadeiramente positiva”, afirma. “E não a perco, porque é sempre uma incógnita. E embora, por vezes, o tempo não augure nada de bom, consegue-se obter imagens espetaculares.”

E o que leva Wilkes a sujeitar-se a estas provas extremas de resistência física e mental? “Eu sou um colecionador”, diz. “Quando se é um colecionador e nos falta a tal peça daquela coleção, somos capazes de cruzar rios e montanhas para obtê-la. Eu espero. Farei o que for preciso. Adoro colecionar momentos de magia. É o que eu faço.”

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Aquilo que começou por ser um projeto urbano há seis anos, uma “ode ao amor pela cidade de Nova Iorque”, tal como recorda, evoluiu para outras latitudes, outros lugares, integrando inclusive paisagens naturais. Abaixo, Wilkes partilha algumas das histórias que se escondem por trás das fotografias, que fizeram a história de capa da edição de janeiro de 2016 da revista da National Geographic e que celebram a força dos parques naturais.

Para captar esta imagem, Wilkes passou 26 horas, num ângulo de 45 graus, sobre uma plataforma presa à lateral de uma rocha saliente.

TUNNEL VIEW, PARQUE NACIONAL DE YOSEMITE

Wilkes inspirou-se numa pintura de Albert Bierstadt, Yosemite Valley, para construir esta imagem. O fotógrafo levou consigo uma cópia impressa, quando procurava um local. Obter esta imagem exigiu talvez a maior das logísticas: preso com uma corda, juntamente com dois assistentes, ao extremo de uma rocha saliente, num ângulo de 45 graus, sobre uma estrutura em contraplacado, com uma área de 1,2 por 2,4 metros. Um passo em falso e a máquina poderia cair pelo precipício. “O meu assistente fez o reconhecimento do terreno previamente e nós subimos lá acima no dia dos preparativos”, recorda Wilkes. “E eu disse: “Santo Deus, Brian! Não disseste que isto era assim! Eu já não tenho 14 anos! Estás a brincar comigo? 26 horas sobre esta plataforma? Estás doido?”

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Mas assim que começou a fotografar, Wilkes focou-se somente na forma como a luz fluía e se esbatia no horizonte e nas pessoas diante de si. “Assim que faço o enquadramento da imagem, foco-me no objetivo e a determinação para conseguir a fotografia toma conta de mim”, afirma. “Assim que fico contagiado, a simples beleza daquilo que estou a fazer sobrepõe-se a tudo o resto. Quaisquer que sejam os meus receios, logo que vejo a cena através da lente, tudo muda. Desligo e fico alheio a qualquer realidade física.”

Wilkes passou 16 horas na cesta elevatória de uma grua, usada na apanha da cereja, num campo de softball, o lugar ideal para captar grande parte da ação, na época em que as cerejeiras ganham flor.

TIDAL BASIN, WASHINGTON, D.C.

Captar as cerejeiras em flor no seu auge pode ser difícil, atendendo especialmente às oscilações do tempo primaveril em Washington. “Pode-se levar cinco anos a dizer que não passa daquele ano e nunca conseguir acertar no momento. Ter conseguido fotografar as cerejeiras em flor no seu esplendor máximo, sem frio, nem chuva, foi um facto extraordinário em si mesmo, com ventos que não excederam os 16 quilómetros por hora.”

Wilkes e o editor de fotografia, Kim Hubbard, procuravam o local certo, quando se depararam com esta zona estratégica que acolhe a Bacia das Marés, pessoas que desfrutam de tempo de ócio no Parque de Potomac Ocidental e uma panorâmica de vários monumentos. “Eu andava à procura de um local e lembro-me de pensar na altura que, se pudesse fotografar a partir de uma posição superior, poderia captar o nascer do sol sobre o Jefferson Memorial e o crepúsculo sobre o National Monument”, afirma. “Eu sabia que ia conseguir uma narrativa humana extraordinária.”

Wilkes não teve autorização para levar o pesado camião equipado com um elevador, por isso usou uma grua com uma cesta elevatória, usada na apanha da cereja, uma opção menos estável, mas com altura suficiente para obter uma panorâmica e ser fustigada pelos aviões que descolavam e aterravam no Aeroporto Ronald Reagan, situado nas proximidades. Um verdadeiro desafio, quando se tenta manter a máquina fotográfica, absolutamente, imóvel para exposições noturnas de longa duração.

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No total, Wilkes passou 16 horas a fotografar, sem pausas. Quando interrogado sobre a forma como lidava com os apelos da natureza, Wilkes referiu-se a um conjunto de garrafas vermelhas, antes de resumir tudo numa só frase: “A verdade é que uma pessoa não quer beber demasiado, assim como evita beber café. Vou doar a minha bexiga à ciência, quando terminar este projeto.”

Fotografando a partir da torre de vigia do mirador do deserto durante 27 horas, Wilkes criou esta imagem da orla sul do Grand Canyon. Esta zona estratégica permitiu-lhe ver a moldura humana ao longo do desfiladeiro.

ORLA SUL, GRAND CANYON

“Quando o sol nasceu, o céu revelava uma das formações de nuvens mais fantásticas que alguém podia pedir”, diz Wilkes, a propósito do momento em que registou esta imagem.

“Era como uma marca no céu. Tirei esta fotografia no fim de julho, na esperança de conseguir apanhar o início e o meio da época das trovoadas. Tivemos sorte em conseguir tirar uma fotografia de um relâmpago ao fim do dia.”

“Na realidade, é possível ver como se formam os nimbos. Essa narrativa — a capacidade de captar as mudanças entre as formações das nuvens, o céu e a evolução do dia— é muito intensa, quando se projeta sobre os parques naturais, porque, independentemente do momento em que se explora o espaço, há sempre algo emocionante a acontecer, e essa é, em parte, a magia que encerra um parque natural.”

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