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Quatro Mulheres Desafiaram Expetativas e Exploraram o Mundo

Mulheres extraordinárias quebraram estereótipos de género e fizeram história ao explorar o mundo em aventuras épicas, conquistando um espaço merecido nas páginas da revista da National Geographic. quarta-feira, 11 de julho de 2018

Por Nina Strochlic
Micheline Morin posa para uma fotografia tirada pela companheira de alpinismo Miriam O'Brien. Equilibrando-se sobre o cimo de uma formação rochosa, Morin tenta manter-se direita contra um vento forte, que projeta a corda para a lateral.

Hoje, as mulheres ascendem ao topo dos cumes mais altos do mundo, mergulham nas profundezas do oceano e esquiam ao longo de ambos os polos, mas até há pouco tempo as mulheres eram desencorajadas de embarcar nestas extraordinárias aventuras.

Conheça quatro mulheres pioneiras notáveis, que não se deixaram demover pelos argumentos relativos ao género e desafiaram algumas das paisagens mais inóspitas do planeta, abrindo caminho para a próxima geração de exploradoras.

MIRIAM O’BRIEN: ESCALADA SEM A FIGURA MASCULINA

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No início da década de 1930, os editores da National Geographic tomaram conhecimento do espírito aventureiro de uma mulher jovem, batizada Miriam O’Brien, graças a uma carta escrita pela mãe. O’Brien foi pioneira naquele que era tido como um novo desporto da época: escalar montanhas sem o auxílio da figura masculina.

Em agosto de 1934, a sua história foi publicada na revista da National Geographic, sob o título Escalada Alpina Sem Homens: A Primeira Mulher A Ascender ao Grépon, ao Matterhorn E A Outros Cumes Célebres, Sem O Apoio Masculino, Relata As Suas Aventuras.

Alice Damesme, Jessie Whitehead e Miriam O’Brien posam para uma fotografia, sobre a garupa dos cavalos que as transportarão à cabana de Matterhorn. O'Brien e as suas companheiras de alpinismo fizeram tantas vezes o mesmo percurso, que se afeiçoaram aos animais.

Quando o seu editor comentou que o primeiro rascunho era demasiado modesto, O’Brien respondeu: “Se, à primeira vista, parecia relativamente fácil redigir frases e parágrafos em que me descrevia como uma alpinista hábil e uma mulher notável. Na prática, tornou-se difícil fazê-lo de forma natural e despretensiosa.”

Ainda que auto-depreciativa, a descrição era rigorosa. Educada por uma mãe praticante de montanhismo, O’Brien passou os verões conquistando os picos de New Hampshire e, mais tarde, da Europa, numa era em que poucas mulheres faziam alpinismo. O’Brien rapidamente se apercebeu de que seguir no encalço de uma pessoa montanha acima não era assim tão gratificante.

“Aquele que segue na dianteira da corda e alcança o cume em primeiro lugar é o que goza a experiência no seu todo, porque tem de encontrar respostas imediatas para questões técnicas, de tática e estratégia à medida que ocorrem”, escreve O’Brien na sua autobiografia Give Me The Hills. “Não via qualquer motivo pelo qual uma mulher, por força da sua própria condição, não pudesse conduzir uma expedição… Decidi tentar o alpinismo, prescindindo não apenas de um guia de montanha, mas também do apoio de uma figura masculina.”

“Agora que o cume do Grépon foi alcançado por duas mulheres sozinhas, nenhum homem que se preze tentará o feito”, queixou-se um alpinista, após O’Brien e uma amiga terem liderado a primeira ascensão, sem o auxílio de um homem, ao cume do Grépon, nos Alpes franceses, em 1929. Mas O’Brien não podia parar e repetiu a proeza no cume do Aiguille du Peigne e, em 1932, conquistou o Matterhorn na primeira expedição do género liderada por mulheres.

MYRTLE SIMPSON: PIONEIRA NO ESQUI

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Ao fim de um mês e 604 quilómetros de travessia sobre a tundra gelada da Gronelândia, Myrtle Simpson sentia, como escreveu mais tarde, “uma pequena ponta de orgulho por ser mulher e estar num lugar onde nenhuma outra mulher tinha estado antes”. Nesse dia, em junho de 1965, a radiologista, que se tornara exploradora, tornou-se na primeira mulher a atravessar o calote de gelo.

O marido de Simpson, Hugh, era um patologista que estudava a capacidade de adaptação do corpo humano a situações de tensão extrema, arrastadas no tempo, tendo concluído, mais tarde, que essa capacidade era inexistente. Mas, no artigo que escreveu para a National Geographic, Simpson apressou-se a dizer que a equipa teria tentado a proeza de atravessar a Gronelândia a pé, independentemente das conclusões do estudo, mais que não fosse pela aventura em si.

A história, apresentada à National Geographic para apreciação, causou sensação no seio da opinião pública, quando os editores se aperceberam da dimensão da proeza que tinha sido alcançada. “Devo referir que, tanto quanto é do nosso conhecimento, Myrtle Simpson foi a primeira mulher a atravessar a pé a Gronelândia”, pode ler-se no memorando. O montanhista Barry Bishop, que integrou a primeira equipa norte-americana a subir ao cume do Evereste três anos antes, “considerou a expedição a proeza mais extraordinária para uma mulher”.

Por insistência de Hugh, que escreveu à National Geographic “A minha mulher escreve uma versão melhor, pelo que não posso admitir isto!”, Myrtle assinou o artigo. A história final, intitulada A Primeira Mulher A Atravessar O Gelo Da Gronelândia, prestou a devida homenagem ao espírito intrépido e pioneiro da sua autora, que tinha “escalado e explorado desde o interior da Austrália aos Andes, desde Spitsbergen ao Suriname.”

ANN BANCROFT: PIONEIRA DOS POLOS

Ann Bancroft celebra o sucesso de uma expedição ao Polo Norte.

A chegada de Ann Bancroft ao Polo Sul em meados de janeiro de 1993 converteu-a na primeira mulher a fazer a travessia a pé de ambos os polos. Bancroft e os três elementos femininos que integraram a sua equipa levaram 67 dias sobre esquis para alcançar o Polo Sul, cada uma arrastando cerca de 91 quilos de mantimentos. Duas mulheres estiveram perto de ser evacuadas por doença, mas o grupo preferiu abrandar o ritmo, manter-se junto e cortar a linha da meta em uníssono. “Puxámos os trenós, mantivemo-nos lado a lado e divertimo-nos ao longo do processo”, disse Bancroft à National Geographic.

Sete anos antes, Bancroft, uma professora do Minnesota e montanhista, tinha-se tornado na primeira mulher a atravessar o Polo Norte. A sua expedição fez o percurso em bobsleigh, sem paragens para abastecimento adicionais pela primeira vez, desde a tentativa de Robert Peary em 1909. Foi uma viagem alucinante de 55 dias. A comida escasseou e Bancroft mergulhou na água gélida, após a superfície de gelo ter cedido. Quando se lembra de que foi a primeira mulher a concluir a proeza, Bancroft escreveu no seu diário: “Estou tão ocupada a tentar alcançar o Polo Sul, que nem sequer penso se sou ou não a primeira mulher a cumprir o feito.”

A sua visita pioneira aos polos não foi o último recorde alcançado por Bancroft. A antiga professora liderou a primeira equipa norte-americana numa travessia ao longo da Gronelândia e foi a primeira mulher, juntamente com a sua companheira de viagens, a esquiar ao longo da Antártida. Em 1995, Bancroft entrou para o núcleo exclusivo de mulheres notáveis no National Women’s Hall of Fame.

GERLINDE KALTENBRUNNER: RAINHA DO CLUBE DOS 8000 METROS

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Em 2011, Gerlinde Kaltenbrunner, uma enfermeira austríaca, integrou o restrito e prestigiado clube de montanhistas, que ascenderam ao cume das 14 montanhas com mais de 8000 metros de altitude, dispersas pelo mundo. Kaltenbrunner trilhou o seu próprio caminho e conquistou um título único: o da primera mulher a subir ao cume das 14 montanhas, sem o auxílio de oxigénio. Kaltenbrunner prescindiu também do apoio dos sherpas e das pessoas dedicadas ao transporte em grandes altitudes, dois elementos de suporte que poucos alpinistas dispensam.

Kaltenbrunner completou a parte final da ascensão sobre um plano muito inclinado do K2, considerado uma das montanhas mais selvagens e mortíferas do mundo. Era a sua quarta tentativa, após a anterior, um ano antes, ter culminado na morte trágica do seu companheiro de alpinismo. Desta vez, Kaltenbrunner fez-se acompanhar do marido, Ralf Dujmovits, e uma pequena equipa. Quando ele voltou para trás, pressentindo o agravamento das condições climáticas, e insistiu para que Kaltenbrunner o acompanhasse, ela recusou-se a fazê-lo. Dias mais tarde, alcançou o cume do K2.

“Havia montanhas em todas as direções”, descrevia assim um artigo da National Geographic. “Montanhas que ela tinha escalado. Montanhas que tinham roubado as vidas aos seus amigos e que, por pouco, não reclamaram a sua. Mas Kaltenbrunner nunca tinha investido tanto numa montanha como aquela que se erguia sob os seus pés.”

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