Deveriam as Mulheres Governar o Mundo? As Rainhas do Antigo Egito Respondem “Sim”.

A egiptologista Kara Cooney descobriu que o antigo Egito recorria à liderança feminina em alturas conturbadas, para governar e proteger a civilização. Que lições poderão as mulheres de hoje retirar do passado?sexta-feira, 9 de novembro de 2018

 

Ler as notícias nos dias que correm é uma tarefa deprimente e exasperante. Tiroteios em massa, bombas caseiras, assassinatos e — acima de tudo — alterações climáticas que assombram qualquer discussão. A fonte de todo este mal humano e moderno é, regra geral, só uma: lideranças masculinas que querem manter o poder económico, político ou religioso a todo o custo. Importa perguntar: será que as mulheres governariam de forma diferente dos homens? Se a história nos ensina alguma coisa, a resposta seria um “Sim”.

LIÇÕES DO PASSADO

Os antigos egípcios confiavam na sabedoria das suas governantes femininas. Na verdade, quando havia uma crise política, os antigos egípcios invariavelmente escolhiam uma mulher para preencher o vazio de poder — justamente porque esta era, regra geral, a opção menos arriscada. Para este povo, pôr uma mulher no poder era, geralmente, a melhor forma de proteger o patriarcado em tempos de incerteza.

Comparado com outros impérios da época, o reino do Egito era diferente. Desertos e mares como fronteiras naturais protegiam-no de invasões, guerras e das agressões que minavam a Mesopotâmia, Síria, Pérsia, Grécia e Roma. Nestes locais, se uma criança ocupasse o trono, tal seria interpretado como um convite às armas para lhe retirar o poder. Porém, no Egito, onde os soberanos, independentemente da sua idade, eram venerados como reis-deuses, as mulheres protegiam-nos. Em vez de ver na criança um obstáculo para o poder, as mães, tias e irmãs protegiam e defendiam os mais novos que estivessem no centro da roda de governação. Esta tendência estabilizadora foi empregue inúmeras vezes na história do Egito.

AS MULHERES FARAÓ DO EGITO

Na primeira dinastia (cerca de 3000-2890 A.C.), quando o seu marido, rei Djet, morreu, a rainha Merneith tomou o poder em nome do seu jovem filho, ao invés de permitir que um tio fosse proclamado regente e manipulasse o sobrinho. Merneith foi a primeira rainha regente de que há registo, conduzindo o seu filho ao trono e garantindo a estabilidade no Egito. Na 12.ª dinastia, (cerca de 1985-1773 A.C.), quando a consanguinidade (ou outros fatores) significava que não havia sequer um príncipe herdeiro para ocupar o trono, Neferusobek, a esposa do rei morto, tomou as rédeas do reino, governando e guiando o Egito na entrada numa nova dinastia, até que o seu herdeiro estivesse pronto para governar.

ABC DO ANTIGO EGITO

Na 18.ª dinastia (cerca de 1550-1295 A.C.), uma pioneira conduziu o Egito, numa era de crescimento e prosperidade. Quando o rei morreu após apenas três anos no trono, um bebé tornou-se faraó; a tia da criança interveio e ocupou o poder, tendo-se assim iniciado a era de Hatshepsut. A rainha conduziu os destinos do Egito durante mais de duas décadas, o período mais longo para qualquer rainha egípcia, tendo deixado o reino em melhor estado do que aquele em que o tinha encontrado.

Mais tarde, ainda na 18.ª dinastia, quando o rei Akhenaten impôs o extremismo religioso ao seu povo, nomeou a sua mulher, Nefertiti, corregente. Nefertiti deverá ter sido a opção mais segura para manter o poder, e foi ela que, indiscutivelmente, teve de corrigir os erros de Akhenaten após a sua morte. Na 19.ª dinastia (1295-1186 A.C.), uma outra mulher, a rainha Tawosret, foi nomeada regente em lugar de um rapaz (que não o seu próprio filho), tendo-lhe sido permitido, inclusivamente, governar após a sua morte. Ainda assim, o seu reinado não resistiu ao senhor da guerra que lhe usurpou o poder com impunidade, apoderando-se da coroa.

A mais conhecida de todas as rainhas egípcias foi Cleópatra, da dinastia ptolemaica (305-285 A.C.), que eliminou os seus irmãos por forma a ocupar o trono sem oposição, para então dedicar todos os seus esforços à criação de uma dinastia para os seus muitos filhos. No final, até esta sedutora de líderes romanos governou de forma diferente do seu parceiro na época, Marco António. Enquanto ele era o agressor (derrotado) na Pártia, Cleópatra permaneceu no Egito, tentando gerar um clima de tranquilidade. Enquanto ele, desavisadamente, se envolveu na Batalha de Áccio, ela soube interpretar os sinais e escapou com a sua frota, de regresso ao Egito, onde poderia, efetivamente, fazer alguma coisa.

 

 

OLHAR EM FRENTE

A história mostra-nos que os egípcios sabiam que as mulheres governavam de forma diferente dos homens. E que delas se serviram para proteger o patriarcado, recorrendo a elas apenas como governantes provisórias, substitutas, só até que o homem seguinte pudesse tomar a posição de topo na pirâmide social. Independentemente do poder que tiveram, mesmo sendo, muitas delas, denominadas nada menos que Rei, estas mulheres extraordinárias do antigo Egito não se conseguiram sobrepor ao domínio do patriarcado nem mudar o sistema. Quando os seus reinados terminavam, a estrutura de poder egípcia permanecia intacta.

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Os cientistas cognitivos sabem que o cérebro feminino é diferente do masculino. Os cientistas sociais descobriram que os homens são, maioritariamente, os responsáveis por crimes violentos, nomeadamente, violação e homicídio. Em geral, as mulheres são menos propensas a cometer assassínios em massa, menos atreitas a iniciar uma guerra, mais habituadas a lidar e a expressar as suas emoções, e mais interessadas nos detalhes e não tanto na determinação. Talvez estas qualidades fossem aquilo que o antigo Egito procurava em épocas de crise.

Estas rainhas falam-nos do passado, desafiando-nos a dar às mulheres o poder político, não como meras representantes de uma dinastia patriarcal, mas como mulheres com objetivos próprios, diferentes, de conexão social e coesão emocional, ao invés de servirem segundo o molde de agressividade dos seus pais, irmãos e filhos. Se é realmente verdade que, há muitos anos atrás, as mulheres governaram o mundo, fizeram-no sem o auxílio de uma irmandade de mulheres, sem qualquer propósito próprio, sem terem o seu próprio domínio duradouro do poder.

Chegou a altura de olharmos para a história, para as poderosas mulheres do antigo Egito, que foram a tábua de salvação do seu próprio povo vezes sem conta. E se hoje lhes fosse permitido governar com o pleno vigor das suas emoções – usando as suas emoções — talvez a característica feminina mais diabolizada – os seus altos e baixos, a sua tristeza e alegria, a sua natureza imprevisível? Poderia esta característica ser aproveitada para estabelecer uma ligação com o outro, para encontrar consensos, para tirar o dedo do gatilho, para buscar uma solução flexível? É este elemento emocional que poderá conduzir a humanidade a bom porto, através das provações e tribulações do século XXI. Devemos deixar que a história antiga nos guie, e permitir que as mulheres sejam, mais uma vez, a nossa salvação. Desta feita, donas e senhoras dos seus interesses.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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