História

Atenção: Artefactos Expostos em Museus Podem ser Roubados

Um arqueólogo forense lança luz sobre o por vezes sombrio negócio por trás das coleções dos museus.Thursday, November 9, 2017

Por Nick Romeo
Uma fotografia apreendida a um negociante de antiguidades mostra um vaso grego datado de 350 a. C. ainda incrustado de terra e sal. A cena ilustra Dionísio, o deus grego do vinho, e um companheiro a tocar flauta num divã com rodas.

Há alguns anos, Christos Tsirogiannis estava a navegar pela coleção on-line do Metropolitan Museum of Art (Met) quando reconheceu uma peça. Ao analisar uma antiga cratera — um vaso de barro usado para misturar vinho — “fez-se luz de repente”, diz. O vaso estava decorado com uma pintura de Dionísio, o deus grego do vinho. “Eu sabia que tinha visto o tema daquela cratera anteriormente”, diz.

Arqueólogo forense associado ao Centro de Investigação de Crime e Justiça Escocês da Universidade de Glasgow, Tsirogiannis tem acesso a bases de dados restritas com dezenas de milhares de fotografias e documentos apreendidos durante rusgas. Ao fazer pesquisa nos arquivos on-line, encontrou cinco fotografias da cratera grega do Met entre os itens confiscados a Giacomo Medici, um negociante de antiguidades italiano condenado em 2005 por ter recebido artigos roubados e por ter conspirado no tráfico de antiguidades roubadas.

Porque estaria, então, um objeto que pode ter sido obtido por saqueadores em exibição num famoso museu americano e como terá chegado até lá?

Perguntas incómodas como esta estão a tornar-se mais comuns na era digital, à medida que os museus, as universidades e os colecionadores privados publicam catálogos on-line com as suas coleções, criando recursos valiosos para detetives antirroubo como Tsirogiannis.

O arqueólogo, Christos Tsirogiannis, nascido na Grécia, identificou centenas de artefactos roubados fazendo pesquisas em catálogos on-line de museus de galerias.

Embora a sua influência raramente seja reconhecida, o trabalho de investigação de Tsirogiannis levou grandes museus e leiloeiras dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia a devolver dezenas de objetos preciosos aos seus legítimos proprietários na Grécia, Itália e outros países. (Sabe quais são os Museus mais estranhos e diferentes do Mundo? Conheça aqueles que não pode perder numa próxima viagem)

Sempre gostei de quebra-cabeças quando era criança”, diz o investigador nascido na Grécia. “O meu trabalho atual parece um enorme quebra-cabeças feito de milhares de enigmas mais pequenos.

Depois de estudar Arqueologia e História da Arte na Universidade de Atenas, Tsirogiannis trabalhou para os ministérios gregos da Cultura e da Justiça na datação e classificação de objetos roubados. Em 2013, concluiu um doutoramento na Universidade de Cambridge, escrevendo uma dissertação sobre redes internacionais de negociantes de antiguidades ilícitas.

Tsirogiannis descobriu esta ânfora etrusca à venda numa galeria de Manhattan e denunciou-a às autoridades. A galeria, em boa-fé, abriu mão do artefacto, que foi recentemente devolvido à Itália.

Com uma amplíssima memória visual que é capaz de trazer à lembrança milhares de imagens de artefactos roubados — e a disponibilidade para enviar dezenas de e-mails aos quais nunca ninguém responde — Tsirogiannis pesquisa ativamente centenas de objetos de museus do mundo inteiro. Recentemente denunciou às autoridades de Manhattan que um recipiente etrusco exibido numa galeria próxima do centro da cidade tinha sido roubado, o que levou ao repatriamento, ou devolução oficial, da peça para Itália.

“ATÉ QUE ALGUÉM DESCUBRA”

No caso da cratera grega de Dionísio no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, as fotografias apreendidas a Giacomo Medici, o negociante de antiguidades condenado, mostram o vaso encrostado de terra e sal, literalmente acabado de sair da terra. Uma vez que Medici tirou fotografias em Polaroid — uma tecnologia não disponível na Europa antes de 1972 — Tsirogiannis sabia que a cratera tinha sido desenterrada antes de 1970, o ano em que um grande tratado de UNESCO ilegalizou a exportação de propriedade cultural das nações signatárias.

Em 1989, a cratera apareceu na Sotheby's, tendo sido vendida em leilão por 90 000 dólares. Tal como outras grandes leiloeiras, a Sotheby's não revela os nomes dos consignadores ou compradores e não aceitou gravar declarações para este artigo. Mas o Metropolitan Museum adicionou a cratera à sua coleção, pouco depois de a Sotheby’s a ter vendido.

O website do Met indica que a cratera foi adquirida pelo Bothmer Purchase Fund. Dietrich von Bothmer, que morreu em 2009, foi curador do Met durante muito tempo. Interrogatórios a negociantes de antiguidades condenados, e evidências dos arquivos confiscados, indicam que Bothmer era um cliente regular destes negociantes. Desde 2005, foram devolvidos à Itália quarenta fragmentos da coleção de Bothmer no Met.

Quando identificou a origem da cratera de Dionísio, Tsirogiannis enviou imediatamente várias mensagens de correio eletrônico para endereços válidos do Met. Não obteve nenhuma resposta e o vaso continua em exibição na Galeria 161 do museu. O único comentário do Met para esta opaca história: “O Museu entrou em contacto com o Ministério da Cultura italiano devido à Cratera de Sino de Barro (1989.11.4).”

A política de aquisições do museu indica que antes de comprarem um objeto, os curadores investigarão “se a obra de arte aparece em bases de dados de obras roubadas relevantes e as circunstâncias em que a obra de arte está a ser oferecida ao museu.”

Tsirogiannis mostra ceticismo relativamente às intenções declaradas pelo Met e outros museus. “Eles mantêm os objetos ilícitos o máximo de tempo possível, até que alguém descubra”, diz. “O que interessa é o dinheiro, a fama e a propriedade.”

Há aproximadamente 10 000 fragmentos da coleção de Bothmer que ainda não foram publicados on-line e o Met recusou dizer quando tal poderá acontecer.

Não é claro quantos fragmentos da coleção podem condizer com peças de coleções de outros museus ou com registos de bases de dados criminais. Mas quando forem publicados on-line, é provável que Tsirogiannis e outros detetives como ele fiquem à espreita.

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