História

Por Que é Que Esta Ilha Está no Centro da Procura por Amelia Earhart

Cães-pisteiros estão à procura de ossos num acampamento onde a piloto pioneira poderá ter morrido há 80 anos.Thursday, November 9, 2017

Por Rachel Hartigan Shea
Voar tornou-a famosa. Desaparecer tornou-a lendária. Earhart queria terminar a sua carreira em 1937 ao tornar-se na primeira mulher a realizar a volta ao mundo de avião. Morreu durante essa tentativa, e a equipa de busca espera que os cães-pisteiros consigam localizar os seus restos mortais.

ILHA DE NIKUMARORO, ZONA PROTEGIDA DAS ILHAS FÉNIX, KIRIBATI

Uma expedição com cães-pisteiros, especializados na deteção de ossos, para localizar vestígios de Amelia Earhart chegou a este posto avançado remoto e desabitado após uma viagem por mar de cerca de 1600 km (1000 milhas) a norte das ilhas Fiji.

Os cães, quatro exemplares da raça border collie com coletes salva-vidas, desembarcaram num canal acidentado escavado entre o recife e passaram cuidadosamente por entre o coral escorregadio até à areia da praia para obter o seu primeiro odor da ilha. A temperatura do solo, ao sol, era de 41º C.

A mais recente procura pelos restos mortais de Earhart centra-se na pequena Ilha Nikumaroro, onde alguns investigadores acreditam que a piloto pode ter aterrado sobre um recife que estava exposto a uma maré especialmente baixa.

“Isto vai muito além do que alguma vez fizemos", afirma Lynne Engelbert, que treina um cão-pisteiro que deteta odores de restos mortais humanos, de seu nome Piper, para o Institute for Canine Forensics (ICF - Instituto de Investigação Forense Canina).

Os treinadores do ICF trouxeram os cães para terra durante uma breve visita inicial para ver se conseguiam localizar quatro sepulturas conhecidas de pessoas que colonizaram a ilha entre 1938 e 1963. "Nunca testámos os cães numa ilha tropical com corais", afirma John Grebenkemper, coordenador de campo do ICF para este projeto e treinador de Kayle. "Não tínhamos a certeza de como o odor iria sobreviver."

Mas os quatro cães deram o alerta para os locais das sepulturas escondidas, ao sentarem-se ou deitarem-se onde detetaram os odores a restos mortais humanos. "Já resolvemos um problema", afirma Grebenkemper. "O odor sobrevive nos corais."

O cão-pisteiro Kayle senta-se em cima de uma sepultura escondida durante uma prova de teste na ilha.

Nikumaroro é um recife de coral em cima de um vulcão adormecido, um estreito anel de terra à volta de uma lagoa. Com apenas 7 km de comprimento e cerca de 2,5 km de largura, a ilha surge na maioria dos mapas como um mero ponto no meio do vasto Oceano Pacífico.

A 2 de julho de 1937, Amelia Earhart e o seu navegador, Fred Noonan, estavam a tentar aterrar na Ilha Howard, que é ainda mais pequena do que Nikumaroro. Após terem descolado em Lae, Nova Guiné, na antepenúltima parte da sua tentativa de dar a volta ao mundo, não conseguiram encontrar Howland e desapareceram.

Algumas pessoas acreditam que Earhart e Noonan foram parar às Ilhas Marshall; outras, que foram parar a Saipan e, outras ainda, que o avião se despenhou e afundou. Mas o Grupo Internacional de Recuperação de Aviões Históricos (TIGHAR) está a investigar a hipótese de que Earhart e Noonan aterraram o seu Lockheed Electra 10E na Ilha Nikumaroro quando não conseguiram encontrar Howland.

Os investigadores fundamentam a sua hipótese nas últimas transmissões de rádio de Earhart. Às 8h43 de 2 de julho, Earhart contactou por rádio o Itasca, um navio da Guarda Costeira dos EUA que aguardava Earhart em Howland: "KHAQQ [a identificação do avião Electra] chama  Itasca. Estamos na linha 157 337." O Itasca recebeu a transmissão, mas não conseguiu identificar a localização do sinal.

A “linha 157 337” indica que o avião estava a voar numa linha de navegação de noroeste para sudeste que se dividia na Ilha Howland. Se Earhart e Noonan não tivessem encontrado Howland, podem ter voado para noroeste ou sudeste ao longo da linha para encontrar a ilha. A noroeste de Howland estende-se o mar aberto durante milhares de milhas e a sudeste está Nikumaroro.

A mensagem de rádio com a linha de posicionamento foi a última transmissão confirmada de Earhart, mas os operadores de rádio receberam 121 mensagens nos 10 dias seguintes. Destas, pelo menos 57 mensagens poderão ter sido enviadas a partir do Electra. As estações sem fios conseguiram localizar a direção de seis destas mensagens.

Os fãs de Earhart espalhados pelo mundo inteiro ficaram atónitos com a notícia de que a piloto e o seu navegador, Fred Noonan (à esquerda), tinham desaparecido, presumivelmente devido a uma queda no mar. Alguns fãs contemporâneos acreditam que os dois podem ter aterrado em Nikumaroro e morrido como náufragos.

"Quatro mensagens atravessaram as Ilhas Fénix", afirma Tom King, arqueólogo sénior do TIGHAR. "A maioria das mensagens foi enviada de noite quando estava maré baixa."

Na altura do desaparecimento de Earhart, a maré em Nikumaroro estava especialmente baixa, revelando uma superfície de coral ao longo da costa e achatada o suficiente para um avião fazer uma aterragem. Se Earhart enviou alguma das 57 transmissões de rádio, o avião deve ter aterrado relativamente intacto.

Os investigadores do TIGHAR defendem a teoria de que Earhart e Noonan devem ter enviado as mensagens de rádio durante a noite, para evitar o calor abrasador do dia no interior de um avião de alumínio. Eventualmente, a maré levantou o Electra do recife e o mesmo deve ter-se afundado ou ficado danificado na rebentação. As transmissões pararam a 13 de julho de 1937.

BIVAQUE, OSSOS, FRASCOS

Outras provas apontam para que o destino de Earhart e Noonan tenha sido o naufrágio em Nikumaroro. Mais tarde, em 1937, um grupo britânico explorou a ilha com a intenção de colonizá-la. Eric Bevington, um oficial colonial, identificou algo que parecia um "bivaque temporário". Também tirou uma fotografia da costa, que inclui um objeto não identificado que o TIGHAR especula que seja equipamento de aterragem de um avião.

Por volta de 1938, a ilha foi colonizada como parte do Projeto de Colonização das Ilhas Fénix, uma das últimas expansões do Império Britânico. Os colonos relataram ter encontrado peças de avião, algumas das quais poderão plausivelmente ter vindo do Electra.

Em 1940, Gerard Gallagher, o administrador colonial, descobriu 13 ossos enterrados perto de vestígios de uma fogueira. Também encontrou restos de dois sapatos, de homem e de senhora, bem como uma caixa que incluiu outrora um sextante, um dispositivo de navegação. Os ossos foram enviados para as Ilhas Fiji, medidos e posteriormente perdidos.

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Dois médicos coloniais examinaram os ossos. Um deles acreditava que pertencia a um idoso polinésio e o outro defendia que pertencia a um homem europeu. Os investigadores do TIGHAR avaliaram as medições recorrendo a técnicas modernas e determinaram que os ossos poderiam ter pertencido a uma mulher de altura e constituição iguais às de Earhart.

O TIGHAR realizou 12 expedições a Nikumaroro desde 1989. Ao longo destas visitas à ilha, o grupo identificou um local que corresponde à descrição feita por Gallagher do sítio onde foram encontrados os ossos.

No "Seven Site" — o nome tem a sua origem no formato da clareira em seu redor — existem provas de várias fogueiras, bem como restos de aves, peixe, tartarugas e amêijoas, indicando que alguém esteve naquele local. Com base na forma como as amêijoas foram abertas e como o peixe foi consumido (as cabeças não foram comidas), quem ali esteve não era provavelmente habitante de uma ilha do Pacífico.

Vários frascos de vidro dos anos 30 também foram descobertos no local. Um deles pode mesmo ter tido no seu interior creme para sardas, um cosmético que Earhart pode provavelmente ter utilizado.

Os cães-pisteiros que detetam restos mortais humanos irão concentrar a sua atenção no "Seven Site". Após a última expedição do TIGHAR em 2015, foram recolhidas amostras de solo do local e utilizadas para testar os cães. Um dos cães deu sinal no local.

"Os cães precisam de estar na ilha para os resultados serem conclusivos", afirma Lynne Angeloro, vice-presidente do ICF e treinadora de Berkeley. E, durante a próxima semana, é lá que vão estar.

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