História

As Três Principais Teorias Sobre o Desaparecimento de Amelia Earhart

Oitenta anos após o seu desaparecimento, o destino de Earhart permanece um dos maiores mistérios por resolver da história da aviação.Thursday, November 9

Por Michael Greshko
Amelia Earhart posa, a 14 de junho de 1928, em frente ao seu biplano batizado de "Friendship" (Amizade) na Terranova.

A 2 de julho de 1937, Amelia Earhart e o navegador Fred Noonan partiram de Lae, Nova Guiné, num Lockheed Electra 10E numa das suas últimas etapas na sua volta ao mundo. Queriam aterrar na pequena Ilha Howland a norte do equador no Oceano Pacífico central. No entanto, não conseguiram encontrar Howland. E, apesar de muitas tentativas, ninguém conseguiu encontrá-los desde então.

A Guarda Costeira e a Marinha dos EUA vasculharam a zona com navios e aviões durante das semanas. George Putnam, marido de Earhart, recrutou marinheiros civis para continuar as buscas. Ao longo dos anos, entusiastas procuraram por vestígios de Earhart ou do seu avião nas Ilhas Marshall, Saipan ou em águas profundas.

Oitenta anos passados, o mistério à volta do seu desaparecimento e o entusiasmo que circunda a sua resolução não arrefeceram. A título de exemplo, um documento do Canal História que irá estrear em breve, afirma revelar uma fotografia de arquivo que mostra Earhart e Noonan vivos numa doca nas Ilhas Marshall, a centenas de milhas de distância de Howland.

Entretanto, uma expedição patrocinada pela National Geographic está a decorrer em Nikumaroro, uma ilha a 350 milhas náuticas de distância de Howland, onde muitos acreditam ser o local onde Earhart aterrou. A expedição está a vasculhar a ilha a pente fino com quatro cães especializados em detetar odores de restos mortais humanos antigos e enterrados a grande profundidade.

Quer ficar a par do mistério de Earhart e das várias teorias sobre como a piloto e o seu navegador desapareceram? Nós tratamos disso.

TEORIA 1: QUEDA EM MAR ABERTO PERTO DO DESTINO

A posição oficial dos EUA defende que Earhart e Noonan ficaram sem combustível a caminho da Ilha Howland e despenharam-se no Oceano Pacífico.

O navio da Guarda Costeira dos EUA Itasca estava em Howland para auxiliar Earhart nesta época antes do aparecimento do radar ao fornecer localizações via rádio e uma pluma de fumo, mas, devido a problemas de rádio, a comunicação foi esporádica e problemática. De acordo com os registos de rádio do Itasca, Earhart indicou que devia estar perto da ilha mas não conseguia vê-la e estava com pouco combustível. O Electra nunca chegou à ilha.

Há cerca de 15 anos, a Nauticos, uma empresa de Hanover, Maryland, que efetua buscas em oceano profundo e presta outros serviço de investigação dos oceanos, liderou esforços para localizar o avião de Earhart onde acreditavam que o mesmo tinha caído: no Oceano Pacífico, perto da Ilha Howland.

David Jourdan, presidente da Nauticos afirmo em 2003 que, ao estudar fatores como as transmissões dispersas de Earhart e o que se sabe sobre o abastecimento de combustível do Electra, ele e os seus colegas tinham reduzido a uma área do oceano onde acreditavam que iriam eventualmente encontrar o local de sepultura do avião.

"Estamos confiantes de que está nesta área onde estamos a procurar" afirmou Jourdan. "Obviamente, não podemos garanti-lo porque pode estar no limite exterior mas temos a certeza de que está nas proximidades."

Em março e abril de 2002, a empresa utilizou um sistema de sonar de águas profundas de alta tecnologia para procurar 1630 km2 do leito do mar perto de Howland. Não encontraram o avião nessa expedição nem numa missão de seguimento realizada em 2006.

Mais tarde, em 2009, uma equipa organizada pelo Waitt Institute for Discovery procurou uma área de dimensão semelhante ao estado de Delaware, a oeste de Howland, com a ajuda de robots de águas profundas.

Apesar de a expedição não ter produzido pistas, um Ted Waitt otimista, o presidente do instituto, afirmou numa declaração que os seus resultados: "(...) eliminam milhares de km2 de futuros esforços de buscas." (Waitt colabora numa série de fundos com a National Geographic Society, que detém uma participação de 27% da National Geographic Partners, esta organização de média.)

TEORIA 2: NAUFRÁGIO EM NIKUMARORO

Grupo Internacional de Recuperação de Aviões Históricos (TIGHAR) está a investigar a hipótese de que Earhart e Noonan aterraram o seu Lockheed Electra 10E na Ilha Nikumaroro, um pedaço de terra a 350 milhas náuticas a sudeste de Howland, quando não conseguiram encontrar Howland.

Os investigadores fundamentam a sua hipótese nas últimas transmissões de rádio de Earhart. Às 8h40 de 2 de julho, Earhart contactou por rádio o Itasca: "KHAQQ [a identificação do avião Electra] chama Itasca. Estamos na linha 157 337." O Itasca recebeu a transmissão, mas não conseguiu identificar a localização do sinal.

A “linha 157 337” indica que o avião estava a voar numa linha de navegação de noroeste para sudeste que se dividia na Ilha Howland. Se Earhart e Noonan não tivessem encontrado Howland, podem ter voado para noroeste ou sudeste ao longo da linha para encontrar a ilha. A noroeste de Howland estende-se o mar aberto durante milhares de milhas e a sudeste está Nikumaroro.

A mensagem de rádio com a linha de posicionamento foi a última transmissão confirmada de Earhart, mas os operadores de rádio receberam 121 mensagens nos 10 dias seguintes. Destas, pelo menos 57 mensagens poderão ter sido enviadas a partir do Electra. As estações sem fios conseguiram localizar a direção de seis destas mensagens.

"Quatro mensagens atravessaram as Ilhas Fénix", afirmou Tom King, arqueólogo sénior do TIGHAR numa entrevista anterior. "A maioria das mensagens foi enviada de noite quando estava maré baixa."

Na altura do desaparecimento de Earhart, a maré em Nikumaroro estava especialmente baixa, revelando uma superfície de coral ao longo da costa e achatada o suficiente para um avião fazer uma aterragem. Se Earhart enviou alguma das 57 transmissões de rádio, o avião deve ter aterrado relativamente intacto.

Os investigadores do TIGHAR defendem a teoria de que Earhart e Noonan devem ter enviado as mensagens de rádio durante a noite, para evitar o calor abrasador do dia no interior de um avião de alumínio. Eventualmente, a maré levantou o Electra do recife e o mesmo deve ter-se afundado ou ficado danificado na rebentação. As transmissões pararam a 13 de julho de 1937.

Outras provas apontam para que o destino de Earhart e Noonan tenha sido o naufrágio em Nikumaroro. Mais tarde, em 1937, um grupo britânico explorou a ilha com a intenção de colonizá-la. Eric Bevington, um oficial colonial, identificou algo que parecia um "bivaque temporário". Também tirou uma fotografia da costa, que inclui um objeto não identificado que o TIGHAR especula que seja equipamento de aterragem de um avião.

Por volta de 1938, a ilha foi colonizada como parte do Projeto de Colonização das Ilhas Fénix, uma das últimas expansões do Império Britânico. Os colonos relataram ter encontrado peças de avião, algumas das quais poderão plausivelmente ter vindo do Electra.

Em 1940, Gerard Gallagher, o administrador colonial, descobriu 13 ossos enterrados perto de vestígios de uma fogueira. Também encontrou restos de dois sapatos, de homem e de senhora, bem como uma caixa que incluiu outrora um sextante, um dispositivo de navegação. Os ossos foram enviados para as Ilhas Fiji, medidos e posteriormente perdidos. Os investigadores do TIGHAR avaliaram as medições recorrendo a técnicas modernas e determinaram que os ossos poderiam ter pertencido a uma mulher de altura e constituição iguais às de Earhart.

O TIGHAR realizou 12 expedições a Nikumaroro desde 1989. Ao longo destas visitas à ilha, o grupo identificou um local que corresponde à descrição feita por Gallagher do sítio onde foram encontrados os ossos.

No "Seven Site" — o nome tem a sua origem no formato da clareira em seu redor — existem provas de várias fogueiras, bem como restos de aves, peixe, tartarugas e amêijoas, indicando que alguém esteve naquele local. Com base na forma como as amêijoas foram abertas e como o peixe foi consumido (as cabeças não foram comidas), quem ali esteve não era provavelmente habitante de uma ilha do Pacífico.

Vários frascos de vidro dos anos 30 também foram descobertos no local. Um deles pode mesmo ter tido no seu interior creme para sardas, um cosmético que Earhart pode provavelmente ter utilizado.

Uma expedição do TIGHAR está a decorrer em Nikumaroro, utilizando quatro cães especializados em detetar o odor de restos mortais humanos a uma distância de cerca de três metros abaixo do solo e com idade superior a 1500 anos. “Não existe outra tecnologia tão sofisticada como os cães”, afirma Fred Hiebert, arqueólogo residente na National Geographic Society, que está a patrocinar os canídeos. "Apresentam uma taxa de sucesso superior de identificação de objetos do que um radar de penetração no solo."

TEORIA 3: A CONSPIRAÇÃO DAS ILHAS MARSHALL

Uma terceira teoria defende que Earhart e Noonan não conseguiram ou talvez não quiseram encontrar Howland, rumaram a norte para as Ilhas Marshall, controladas pelos japoneses, onde foram feitos reféns pelos mesmos, talvez como espiões norte-americanos.

Alguns acreditam que ambos os pilotos foram eventualmente mortos, outros acreditam que Earhart e talvez Noonan tenham regressado aos EUA com nomes falsos. Segundo a teoria, Earhart assumiu o nome de Irene Craigmile, casou com Guy Bolam e tornou-se Irene Bolam, que morreu em Nova Jérsia em 1982.

"Se não tivesse conseguido encontrar Howland, o plano B seria cortar as comunicações e rumar às Ilhas Marshall e deixar aí o seu avião", afirmou em 2003 Rollin C. Reineck, um coronel reformado da Força Aérea norte-americana que vive em Kailua, Havai.

No livro de Reineck, Amelia Earhart Survived, é descrito um cenário onde Earhart abandonou o seu avião nas Ilhas Marshall e regressou aos EUA com um nome falso por motivos de segurança nacional.

Segundo Reineck, o plano teria permitido ao governo norte-americano salvar Earhart nas Ilhas Marshall e, simultaneamente, efetuar um reconhecimento pré-guerra relativamente aos japoneses. "No entanto, o plano correu mal, tal como acontece com muitos planos", afirmou Reineck. Earhart comunicou por rádio que se dirigia para norte, a mensagem foi intercetada e os japoneses tomaram-na como refém, afirma.

Nos últimos anos, Dick Spink, professor de Ciências do ensino secundário e entusiasta de Earhart, seguiu os passos de Reineck, recolhendo relatos verbais das Ilhas Marshall que afirmam comprovar que Earhart e Noonan aterraram num pequeno atol denominado Mili.

“O mundo precisa de saber isto”, afirmou Spink numa entrevista em 2015. "Ouvi uma história consistente de demasiadas pessoas nas Ilhas Marshall para ignorá-lo. Afirmam: "Ela aterrou em Mili. Os nossos tios e tias, os nossos pais e os nossos avós sabem que ela aterrou aqui." "

Os habitantes das Ilhas Marshall foram tão convincentes que Spink gastou 50 mil dólares do seu próprio dinheiro em busca do local onde Earhart aterrou. Defende que as histórias dos locais irão ser corroboradas por provas científicas.

documentário do Canal História com estreia para breve intitulado Amelia Earhart: The Lost Evidence defende novas ligações entre Earhart e as Ilhas Marshall, fazendo referência para uma fotografia de arquivo de 1937 de uma doca no Atol de Jaluit, uma das Ilhas Marshall, que os responsáveis pelo documentário afirmam incluir Earhart e Noonan. O documentário defende que a marinha japonesa pensou que Earhart e Noonan eram espiões norte-americanos, tendo eventualmente prendido ambos na ilha de Saipan a aguardar um destino incerto.

Apesar de ainda não se conhecer a receção do documentário junto dos académicos, muitos entusiastas de Earhart já consideraram há muito a teoria das Ilhas Marshall como remota. Elgen Long, um piloto reformado que passou décadas a pesquisar o desaparecimento de Earhart, acredita na teoria da queda e afundamento.

"O avião teria de flutuar durante muito tempo" para chegar às Ilhas Marshall, afirmou Long numa entrevista anterior. Na sua opinião, a resposta para o mistério está a 17 mil pés de profundidade no oceano.

Fred Patterson, um piloto da World Airways há 25 anos que também possui dois aviões Electra, partilha da opinião de Long. "É impossível que ela tenha chegado às Ilhas Marshall", afirmou em 2015. "Já fiz voos de longa distância nesse avião e sei exatamente o que consome por hora."

Patterson, Long e muitos outros defendem que as transmissões de rádio colocam Earhart junto do seu destino previsto da Ilha Howland quando proferiu "estamos a ficar sem combustível". A distância entre Howland e o Atol de Mili são cerca de 1200 km, quase 4h30 de distância à velocidade cruzeiro do Electra.

Mas até os destroços do avião de Earhart serem retirados do Pacífico, o mistério em volta do seu desaparecimento irá continuar a convidar especulações de todos os géneros.

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