História

Predadores Da Idade Do Gelo Encontrados Junto Do Humano Mais Antigo Das Américas

Cadáveres bem preservados dão-nos um vislumbre do mundo em rápida mutação que rodeou Naia, uma adolescente que morreu há cerca de 13 000 anos.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Por Michael Greshko
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Há cerca de 13 000 anos naquela que é atualmente conhecida como a península de Iucatão, um profundo poço dentro de uma caverna tornou-se o local de eterno descanso para um conjunto de animais exóticos.

Agora, os ossos extremamente bem conservados, encerrados durante séculos dentro de água, estão a proporcionar aos cientistas algumas das primeiras pistas sólidas sobre a forma como os grandes animais da Idade do Gelo se relacionavam e como migravam entre a América do Norte e do Sul, depois de o istmo do Panamá ter passado a ligar os dois continentes.

“Vamos passar de uma situação em que não tínhamos registos para uma situação em que tempos os melhores registos para muita megafauna do México, da América Central e da América do Sul”, diz Blaine Schubert, da Universidade do Estado do Tennessee, que apresentou os resultados da investigação esta semana no encontro anual da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados em Calgary, no Canadá.

Os ossos dos animais permitem também que se tenha uma ideia mais clara sobre o estranho mundo habitado por Naia, uma adolescente da Idade do Gelo encontrada numa caverna e o esqueleto humano mais antigo e mais completo até agora descoberto nas Américas.

Mergulhador com um crânio de um antigo urso encontrado no fundo de Hoyo Negro.

Tal como os dentes-de-sabre, os megatérios e outras criaturas selvagens encerrados numa caverna, Naia estaria provavelmente à procura de água potável quando caiu mortalmente num poço com 27 metros de profundidade. Mais tarde, a subida das águas do mar, consequência do derretimento dos glaciares, levou a que o lençol freático da península de Iucatão se elevasse várias dezenas de metros, inundando as cavernas e sepultando os esqueletos.

Os mergulhadores descobriram Hoyo Negro — “buraco negro” em espanhol — em 2007 e ficaram perplexos quando se aperceberam de que havia uma enorme câmara subaquática cheia de cadáveres articulados e com o esqueleto de Naia. As expedições ao longo dos anos já mapearam pelo menos 28 esqueletos de animais dentro do poço, tenho apenas uma mão-cheia de ossadas sido completamente escavada.

COMPLEXIDADE CARNÍVORA

Agora alguns dos ossos foram recuperados e as mais recentes análises dos fósseis estão a dar aos paleontólogos novas informações sobre o Grande Intercâmbio Americano, uma vertiginosa migração de animais da antiguidade entre a América do Norte e do Sul.

Depois do levantamento tectónico que deu origem ao istmo do Panamá, e que aconteceu há três a cinco milhões de anos, os ecossistemas que existiam nos dois continentes — cuja evolução aconteceu de forma independente durante dezenas de milhões de anos — puderam finalmente misturar-se e cruzar-se.

Este complexo intercâmbio de vida definiu os ecossistemas americanos modernos: a América do Sul deu tatus à América do Norte e a América do Norte deu lamas à América do Sul. Mas os paleontólogos continuam a ter pouco conhecimento sobre este intercâmbio de grande escala, uma vez que é muito difícil encontrar fósseis nas florestas tropicais que cobrem a região.

Hoyo Negro é uma exceção e uma mina de ouro de fósseis. Esta caverna subaquática preservou animais inteiros, uma vez que as carcaças não tinham para onde ir e as águas com pouco teor de oxigénio asseguraram que os cadáveres se mantinham conservados durante mais de dez mil anos.

Os paleontólogos e os mergulhadores encontraram os cadáveres de dentes-de-sabre, pecaris, pumas, tapires e animais parecidos com elefantes chamados gonfotérios nas profundezas de Hoyo Negro. Algumas partes da caverna subaquática preservaram até as pegadas de ursos da antiguidade, encrostadas numa película de calcite.

No início do presente ano, a equipa formada por investigadores mexicanos e norte-americanos identificou uma nova espécie de preguiça na caverna, a que chamou Nohochichak xibalbahkah, termo maia para “habitante do submundo com grandes garras.”

No encontro de paleontologia, Schubert revelou que os ursos também entraram nestas cavernas — e, no caso de Hoyo Negro, por vezes nunca chegaram a sair. Os mergulhadores encontraram três crânios extremamente bem conservados da espécie extinta de ursos Arctotherium wingei. Prima do urso-andino, esta antiga espécie era ligeiramente menor do que o urso-pardo atual.

Os crânios estão tão bem preservados, diz Shubert, que quem visita o laboratório pensa que se trata de reconstruções de alta qualidade. Os mergulhadores encontraram também o crânio de um canídeo robusto com aspeto de coiote anteriormente só conhecido na América do Sul.

Em conjunto, os cadáveres representam a primeira evidência física de carnívoros que migraram da América do Norte para a América do Sul, tendo-se diversificado e gerado novas espécies nesta parte do continente e depois voltado para norte — conferindo maior complexidade ao Grande Intercâmbio Americano.

É provável que Hoyo Negro guarde ainda mais surpresas: Schubert recebeu recentemente uma bolsa da National Geographic para desenvolver mais trabalho de campo no local. A equipa espera recolher mais ossos — e embrenhar-se ainda mais na escuridão.

“Quando se começa com uma pequena quantidade de dados, é fácil engendrar um cenário simples”, diz Greg McDonald, paleontólogo do Departamento de Gestão de Terras e membro da equipa de Hoyo Negro. “Agora reconhecemos que é muito mais complicado, e é aqui que jaz o interesse da paleontologia.”

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