Descoberta Zona Misteriosa na Grande Pirâmide do Egito

A cavidade é a primeira grande estrutura interior a ser descoberta desde o século XIX.quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Um grupo de cientistas anunciou que a Grande Pirâmide de Gizé, no Egito—uma das maravilhas do mundo antigo e um feito arquitetónico extraordinário—contém um vazio oculto com, pelo menos, 30 metros de comprimento.

As dimensões deste espaço assemelham-se às da Grande Galeria da pirâmide, o corredor com 46,68 metros de comprimento e 8,6 metros de altura que conduz à câmara funerária de Quéops, o faraó para quem a pirâmide foi construída.

Contudo, o conteúdo deste espaço, qual a sua finalidade ou se é apenas um ou vários espaços continuam a ser um mistério.

O vazio é a primeira grande estrutura interna a ser descoberta desde o século XIX nesta pirâmide com 4500 anos—uma descoberta que só foi possível graças a avanços recentes no ramo da física de partículas de alta energia. Os resultados foram publicados na revista científica Nature.

“Esta é, sem dúvida, a descoberta do século”, diz o arqueólogo e egiptólogo Yukinori Kawae, um explorador emergente National Geographic. “Têm sido colocadas várias hipóteses acerca da pirâmide, mas ninguém imaginava que um vazio tão grande se pudesse localizar acima da Grande Galeria.”

CONSTRUÍDA PARA DURAR

Esta descoberta é mais um dos pontos altos numa busca de milénios para tentar compreender a Grande Pirâmide de Gizé, desde sempre objeto de mistério e intriga.

A pirâmide foi construída há cerca de 4500 anos, durante a Quarta Dinastia do Império Antigo do Egito. Nessa época, o Egito era uma monarquia poderosa e altamente centralizada, que tinha acumulado riqueza proveniente do comércio e da agricultura, alimentada pelo rio Nilo.

A Grande Pirâmide é, seguramente, a expressão máxima desse mesmo poder. O faraó Quéops, que reinou entre 2509 e 2483 A.C., mandou construir para si uma pirâmide cuja base se estende por mais de 5 hectares, e cuja altura, originalmente, era de 146,5 metros. Este monumento é constituído por cerca de 2,3 milhões de blocos de pedra calcária, que tiveram de ser extraídos, transportados, cortados nas dimensões certas e colocados no seu lugar.

“Este tipo de pirâmides é, por assim dizer, a marca principal dos reis que as mandaram construir”, diz Kate Spence, arqueóloga da Universidade de Cambridge e estudiosa do antigo Egito. “Provavelmente, boa parte da sociedade egípcia desta época estaria direcionada para a construção de pirâmides.”

Desde a sua construção, a Grande Pirâmide atraiu a atenção dos curiosos; hoje em dia, os turistas entram na pirâmide por um túnel escavado no século nono D.C. A National Geographic Society apoiou duas expedições a esta pirâmide, sendo uma delas a exploração de 2002 das “condutas de ar” que saem de uma das três câmaras da pirâmide.

VER O INVISÍVEL

Esta nova descoberta é resultado do projeto ScanPyramids, uma missão internacional, sob alçada do Ministério de Antiguidades egípcio. Iniciado em outubro de 2015, este projeto visa perscrutar o interior das maiores pirâmides do Egito de forma não invasiva, recorrendo a um vasto leque de tecnologias.

Anteriormente, o ScanPyramids já havia anunciado a deteção de alguns vazios e anomalias intrigantes, que não eram, necessariamente, surpreendentes. Spence afirma que os interiores das pirâmides são muito mais marcados e intrincados do que aquilo que habitualmente de pensa.

Porém, este novo vazio foi, sem dúvida, uma surpresa—e marca, seguramente, a maior descoberta feita por meio de radiografia de muões, uma técnica imagiológica demonstrada pela primeira vez nas pirâmides de Gizé.

“É uma descoberta surpreendente”, diz Chris Morris, físico no Laboratório Nacional de Los Alamos e especialista em técnicas imagiológicas de muões. “Isto causa inveja a qualquer radiologista de muões, eu tenho inveja. Estes tipos descobriram uma coisa extraordinária.”

A técnica, que tinha já sido usada para ver através de paredes de catedrais, pirâmides maias e mesmo de vulcões, baseia-se na ocorrência natural de partículas subatómicas denominadas muões.

Estas partículas são constantemente bombardeadas sobre a superfície terrestre, sempre que a radiação cósmica — partículas de alta energia que percorrem a nossa galáxia a grande velocidade — colide com as camadas superiores da atmosfera terrestre. (Se estiver a ler este artigo no seu smartphone, seis muões terão atravessado o ecrã de forma perfeitamente inofensiva quando tiver terminado esta frase.)

Ainda que os muões não sejam visíveis a olho nu, os cientistas conseguem detetar as suas trajetórias tridimensionais com películas e detetores especiais. Uma vez que os muões atravessam com maior facilidade os espaços vazios, relativamente aos materiais sólidos, a disposição de diversos detetores no interior e em torno de determinada estrutura, permite-lhes mapear as partes sólidas e ocas dessa mesma estrutura.

“O mais engraçado é que [os muões] são como a Goldilocks da história dos três ursos: eles perdem [energia] suficiente para serem detetados, mas não tanta que acabem por ser absorvidos pelo alvo”, diz Roy Schwitters, físico de partículas da Universidade do Texas, em Austin, que usa os muões para estudar as pirâmides maias do Belize. “São realmente uma dádiva fabulosa da natureza.”

No caso da Grande Pirâmide, uma equipa liderada por Kunihiro Morishima, físico da Universidade de Nagoia, colocou detetores de muões no interior da pirâmide em dezembro de 2015, tendo vindo a recolher dados desde então.

Os primeiros resultados de Morishima chegaram em março de 2016 — e, para supressa dos investigadores, indicavam que uma região bem no interior da pirâmide era atravessada por muitos mais muões do que o expectável. Este “excesso” de muões parecia delinear uma cavidade com 30 metros de comprimento e uma secção transversal muito semelhante à da Grande Galeria.

Duas outras equipas, do KEK, um grupo de investigação de física de partículas japonês, e da CEA, a Comissão de Energia Atómica francesa, trabalharam entre agosto de 2016 e julho de 2017 para confirmar os resultados de Morishima. Cada equipa usou um método de deteção de muões diferente.

Em cada uma das experiências, os investigadores obtiveram evidências do vazio com um nível de validade estatística de, pelo menos, cinco sigma, o que significa que há menos de uma hipótese em um milhão de que qualquer uma destas experiências tenha sido fruto do acaso. Este mesmo nível de fiabilidade estatística é usado sempre que se descobre uma nova partícula subatómica, como é o caso do bosão de Higgs.

VAZIO GRANDE, QUESTÕES AINDA MAIORES

A zona aparentemente vazia, a que os investigadores, de forma imparcial, chamam “o vazio”, tem cerca de 30 metros de comprimento. A sua finalidade é ainda desconhecida; por enquanto, os investigadores procuram, cautelosamente, evitar o termo “câmara.”

“Neste momento, não sabemos se o espaço é horizontal ou inclinado, [ou] se é constituído por apenas uma estrutura ou por várias estruturas contíguas”, disse Mehdi Tayoubi, coautor do estudo, bem como presidente e cofundador do Instituto Heritage Innovation Presentation (HIP), num comunicado de imprensa. “O que sabemos é que o vazio existe, está lá, é notável, [e] que nenhuma teoria o havia previsto.”

Tayoubi e os seus colegas enfatizam que não sabem o que é o vazio — embora alguns egiptologistas tenham já algumas ideias sobre aquilo que poderá ser.

Spence, a arqueóloga de Cambridge, avança que o vazio poderá ser um resquício da construção da Grande Pirâmide. Ela salienta que o teto das câmaras acima da Câmara do Rei, a sala central onde Quéops foi sepultado, é feito de gigantescos blocos de calcário, pesando dezenas de toneladas.

Uma vez que o vazio se alinha com as câmaras superiores da Grande Pirâmide, que foram construídas para aliviar a pressão sobre a Câmara do Rei, Spence sugere que o vazio poderá ter sido uma rampa interna, usada para o transporte dos blocos de calcário que servem de teto. À medida que a construção foi progredindo, continua a arqueóloga, esta rampa poderá ter sido deixada vazia, ou ter sido ligeiramente tapada.

“É a posição do [vazio] que me faz crer que esta será a interpretação mais plausível”, conclui Spence. “Está numa posição ideal para o transporte dos blocos até lá acima.”

Salima Ikram, egiptologista na Universidade Americana no Cairo, diz que a localização do vazio, imediatamente acima da Grande Galeria, poderá implicar alguma função na construção desse corredor. Posto isto, Ikram sugere, ironicamente, que todas as interpretações atuais deverão ser tomadas com um grão de sal.

“Não creio que seja cedo demais para especulações, mas podemos estar todos redondamente enganados”, termina.

Só o tempo dirá se alguma destas ou quaisquer outras teorias acerca da funçã0 do vazio estará correta. Tayoubi e outros colaboradores do ScanPyramids afirmam que o trabalho ainda agora começou.

E, para aqueles que sonham poder explorar o vazio por seu próprio pé, uma advertência. Não há corredores conhecidos a ligar este espaço, e tanto os investigadores no terreno como os especialistas salientam que não há planos para fazer perfurações até ao vazio. Ao invés, afirmam que, a curto prazo, irão fazer todos os possíveis para analisar o espaço de forma não invasiva.

“Há muita rocha, pesada e maciça, e, ao perfurarmos, não sabemos qual irá ser o efeito na estrutura como um todo”, acrescenta Ikram. “Se houvesse algo escondido por trás da pintura da Mona Lisa, quereríamos que alguém a apagasse, só para que pudéssemos ver o que está por trás? É crucial preservar a integridade do monumento.”

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