Os Pequenos Braços do Tiranossauro Rex São Afinal Um Sinal de Força

E outros factos estranhos sobre dinossauros que irão ajudar-nos a preparar para o futuro.terça-feira, 14 de novembro de 2017

Quando um asteróide caiu na Terra há 65 milhões de anos, os tsunamis gigantes, terramotos e aquecimento global catastrófico resultantes eliminaram a espécie dominante do Planeta: os dinossauros. Existiam provavelmente mais de 10 mil espécies diferentes, muitas delas ainda desconhecidas, afirma Kenneth Lacovara no seu novo livro, Why Dinosaurs Matter.

Na qualidade de paleontólogo e diretor do Edelman Fossil Park na Universidade Rowan em Nova JérsiaLacovara odeia quando as pessoas utilizam a palavra "dinossauro" para descrever algo como estando ultrapassado. Quando falou à National Geographic, explicou o porquê de também se opor às piadas sobre os braços frágeis do Tiranossauro Rex e o motivo pelo qual os dinossauros nos podem ajudar a conduzir o nosso percurso incerto rumo ao futuro.

Odeia que o termo "dinossauro" seja aplicado a coisas que estão ultrapassadas ou obsoletas. Explique a sua frustração.

Odeio! (Ri-se) Os dinossauros foram criaturas globalmente dominantes na Terra e durante grande parte de 165 milhões de anos. São cosmopolitas em todos os tipos de ambiente e todos os nichos ecológicos. Durante todo este tempo, os nossos antepassados são estas pequenas criaturas, escondidas no escuro e em locais esquecidos do mundo dos dinossauros, com esperança de não serem detetados.

Depois, ocorre um acidente cósmico e os dinossauros são eliminados por uma rocha espacial que libertou o inferno na Terra. No entanto, alguns deles sobreviveram sob a forma de aves, que atualmente ultrapassam a espécie dos mamíferos na proporção de três aves por cada mamífero. Por isso, os dinossauros ainda estão entre nós, ainda notavelmente persistentes e com capacidade de adaptação.

Ninguém mancha o legado de Albert Einstein porque ele acabou eventualmente por falecer. Ninguém diminui os feitos de Neil Armstrong porque caminhou na Lua, ficou velho e faleceu. Então, por que é que utilizamos esse mesmo argumento para manchar o legado dos dinossauros? Quando ouço as pessoas dizerem: "Esta empresa ou partido político é um dinossauro", penso logo: quem lhes dera!

Conheça oPatagotitan mayorum, o maior dinossauro alguma vez descoberto.

O dinossauro mais icónico, adorado em Hollywood e nos brinquedos para criança, é o T. rex. O que o tornou tão excecional?

Os dinossauros mais conhecidos atualmente, como o Tiranossauro Rex, o Estegossauro e o Brontossauro, estavam entre os primeiros dinossauros descritos e foram os primeiros a entrar na consciência popular, por isso têm estado presentes na nossa cultura há mais tempo do que outros dinossauros.

Quando o Tiranossauro Rex foi descrito na parte inicial do século passado, dizia-se que era o maior carnívoro alguma vez visto e ainda é o maior. É enorme, com uma mordida feroz. Os paleontólogos que analisaram a biomecânica do maxilar do Tiranossauro Rex acreditam que este dinossauro tinha a força de mordida mais poderosa de qualquer animal em terra.

Existem todos aqueles "memes" a gozar com os seus braços frágeis — a piada é que o Tiranossauro Rex não consegue colocar um chapéu, bater palmas ou limpar o rabo. Mas um colega meu, Michael Habib, em Los Angeles, analisou esta questão em profundidade.

Habib defende que, para ter uma mordida forte, é necessário ter músculos de maxilar grandes e poderosos. Para tal, é necessário ter uma cabeça grande, para que os músculos se possam fixar. Se existir uma cabeça grande, também é preciso músculos de pescoço grandes para suportar esta cabeça. Mas não é possível ter uma cabeça grande e braços grandes - os músculos do pescoço e braços competem pelo espaço de ligação dos músculos nos ossos do ombro. Os braços frágeis com que as pessoas gozam são um dos pontos fundamentais para a força e ferocidade deste magnífico animal.

A maioria de nós consegue provavelmente nomear uma ou duas espécies de dinossauros — mas existia uma enorme variedade, não é? 

Só agora começamos a arranhar a superfície da biodiversidade dos dinossauros. Os paleontólogos conhecem mais de 1000 a 1500 espécies de dinossauros. Mas existiram, provavelmente, muitas mais espécies — dezenas de milhares durante todo o seu reinado. São um grupo de organismos extraordinariamente rico e biodiverso.

Se olharmos para há 100 anos atrás, a taxa de descoberta era cerca de uma nova espécie de dinossauro por ano. À medida que nos aproximámos dos anos 70, quando existiam mais paleontólogos e as viagens de avião tornaram-se possíveis, a taxa subiu para cerca de meia dúzia por ano. No ano passado, registaram-se 36 novas espécies de dinossauros. A taxa de descoberta aumenta a cada ano sem sinal de fim à vista. Temos muito que explorar até atingirmos o "auge dos dinossauros".

Utiliza o termo "tempo profundo" para descrever o passado do Planeta. Explique o que quer dizer com isso e porque é que a aceitação dos registos fósseis e geológicos demorou tanto tempo.

As nossas vidas humanas duram um período de tempo tão reduzido, apenas algumas décadas, o que nos dificulta a tarefa de conceber até mesmo mil anos. É quase impossível tentar conceber milhões ou dezenas de milhões de anos, sendo que a Terra tem quatro mil milhões de anos. As pessoas pensam que os dinossauros são muito antigos mas quando os dinossauros fora das categorias das aves se extinguiram, há 66 milhões de anos, representavam apenas 2% da história da Terra. Se analisarmos toda a história humana, desde a revolução agrícola até à revolução industrial e passando pelo presente, a idade espacial, a nível geológico, tudo isto é, basicamente, o presente. Se desenharmos a escala temporal numa folha de papel, toda a história da Terra irá caber na extensão do último traçado de lápis.

A interpretação literal e geológica da Bíblia começou com James Ussher, um bispo e arcebispo da Irlanda, que queria saber qual a idade da Terra. O melhor recurso, na sua opinião, era a Bíblia. Determinou a idade do Rei Nebuchadnezzar e, a partir daí, andou para trás, através de todos os “pais” na Bíblia até ao tempo de Adão e Eva. Determinou que a Terra tinha sido criada em 4004 a.C., especificamente a 23 de outubro, por volta das 18 horas de um sábado. (Ri-se)

Obviamente, tal é comprovadamente incorreto. Temos árvores que vivem hoje com mais de seis mil anos. Se está vivo hoje e acredita que a Terra tem apenas seis mil anos de idade, isso significa que rejeita o conceito da evolução, que rejeita toda a biologia, física, química, astronomia e geologia. É um ponto de vista verdadeiramente medieval. Não faz nenhum sentido.

Descreve ao pormenor o apocalipse, quando um asteroide colidiu com a Terra. Fale-nos sobre esse evento e explique porque é que os dinossauros desapareceram, mas outras formas de vida sobreviveram e, eventualmente, deram origem à espécie humana.

O asteroide, com cerca de 10 km de largura, ia a cerca de 72 mil km/h ou a cerca de 25 vezes a velocidade de uma bala. Comparado com a Terra, é algo pequeno. Mas a força libertada não é calculada apenas de acordo com a dimensão, mas sim com a massa vezes a velocidade. Atingiu a Terra e abriu uma cratera no solo do tamanho de Massachusetts com cerca de 32 quilómetros profundidade.

Sean Gulick, um geofísico da Universidade do Texas, afirma que a discussão atualmente na sua comunidade de geofísicos consiste em saber se este evento aqueceu a atmosfera à temperatura de um mini forno durante algumas horas ou à temperatura de um forno de pizas durante alguns minutos. De qualquer forma, os dinossauros morreram.

Todo o tipo de coisas horríveis também aconteceram. Um terramoto de magnitude 10 abalou a Terra a cerca de 27 mil km/h. Ondas gigantes varreram as zonas costeiras. E todo o pó e rochas, incêndios florestais e cinzas libertadas na atmosfera taparam o sol.

No oceano, a cadeia alimentar é muito escassa, bastam apenas algumas semanas sem a produtividade primária do fitoplâncton e atingimos o auge de predadores como o atum. Quando existe quebra no fitoplâncton, rapidamente desaparece o alimento no oceano. Se falarmos de um peixe grande que consome muito, morre. Se estivermos a falar de um animal pequeno, como os peixes pequenos, que come com pouca frequência, como os crocodilos e algumas tartarugas, poderá salvar-se. Mas os animais de grande porte no oceano, como o mosassauro, que não eram na realidade dinossauros, ficaram todos extintos.

Em terra, o maior animal que sobreviveu tinha a dimensão aproximada de um gato. Todos os dinossauros que aqui viveram durante muito tempo acabaram por morrer, à exceção de um grupo, as aves. Apesar de só algumas aves terem sobrevivido. Porquê? Todos os ovos de dinossauros não pertencentes a aves que alguma vez foram encontrados foram encontrados numa cratera no solo, que alguma mamã dinossauro raspou e depois colocou os ovos no seu interior. Todo o seu ciclo de vida passa-se à superfície da Terra. Mas, atualmente, temos exemplos de aves escavadoras, como os papagaios, que nidificam nas margens da Amazónia ou as corujas-buraqueira (Athene cunicularia). O único grupo de dinossauros que sabemos ao certo que possui alguns membros para escavar é o que conseguiu fugir à extinção.

Então, explique-nos lá, Ken. Porque é que os dinossauros são importantes?

Os dinossauros são importantes porque o futuro é importante, e todas as pessoas, incluindo os paleontólogos, estão preocupadas mais como futuro do que com o passado. Mas não temos acesso ao futuro. Ninguém se lembra do futuro, não podemos fazer experiências no futuro e o presente desaparece sem darmos conta disso. Por isso, a única informação que temos para nos ajudar a traçar o nosso rumo para o futuro é a partir do passado. Tal como Winston Churchill afirmou: "Quanto mais longe conseguirmos olhar para trás, mais longe iremos ver para a frente.”

Se analisarmos o registo antigo, ocorreram catástrofes, alterações climáticas, subida do nível do mar e crises de biodiversidade, acompanhadas de adaptações inacreditáveis e resolução de problemas na biomecânica. Por isso, existem respostas no registo antigo e seríamos tolos e arrogantes se as ignorássemos. O livro intitula-se "Why Dinosaurs Matter" (Porque são importantes os dinossauros), mas fala verdadeiramente sobre porque é o passado tão importante. E o passado é importante porque o futuro é importante.

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