História

Serão Estas as Mais Antigas Gravuras de Cães?

Arte rupestre encontrada na Arábia Saudita data de há milhares de anos e retrata, possivelmente, caçadores acompanhados por cães levados à trela. Terça-feira, 9 Janeiro

Por Sarah Gibbens

No noroeste da Arábia Saudita, um caçador acompanhado por uma matilha de cães prepara uma flecha. Rodeado por outros caçadores que empunham preparam as suas armas, puxa o fio do seu arco e projeta a flecha ao encontro da presa.

Esta e outras cenas de caça estão, ainda hoje, representadas nos penhascos das paisagens secas e áridas do deserto na região norte da Arábia Saudita. Uma equipa de investigadores acredita que se trata de uma das primeiras representações de cães alguma vez documentadas – apesar de alguns peritos discordarem. (Esta história foi contada pela primeira vez por David Grimm, na revista Science)

"Distinguir estes caçadores de meros pastores foi fácil", afirma Maria Guagnin, arqueóloga do Max Planck Institute for the Science of Human History, na Alemanha. Colaborando com a Saudi Commission for Tourism and National Heritage (Comissão Saudita para o Turismo e a Identidade Nacional),  Guagnin catalogou 1405 peças de arte rupestre que contêm 6618 representações de animais.

As manifestações de arte rupestre encontradas nos espaços arqueológicos de Shuwaymis e Jubbah descrevem episódios em que cães ajudam os humanos a caçar. Comparados aos humanos descritos nestas obras, os cães apresentam estatura média, focinho curto, orelhas pontiagudas e uma cauda rígida e arqueada, sendo assim semelhantes a exemplares modernos de Cão de Canaã.

Estas peças mostram-nos os primeiros esforços no sentido de se utilizar os cães como um auxílio na caça. Dos pescoços dos cães e até às cinturas dos humanos, observa-se o que parecem ser cordas — tratavam-se, possivelmente das primeiras trelas. Numa outra cena, vê-se um humano acompanhado por dois cães, que leva amarrados à cintura com uma corda, preparando-se para disparar o seu arco e flecha. (Descubra porque são os cães tão amistosos.)

AS REPRESENTAÇÕES DE CÃES MAIS ANTIGAS

"O problema que este tipo de gravuras coloca é que não existe um método de datação direta fiável”, explicou-nos Guagnin. Para chegarem a uma estimativa aproximada, os investigadores analisaram os rochedos erodidos daquela zona, e o conteúdo descrito nas gravuras. Estas incluem ovelhas e gado, que sugerem que a pastorícia estava presente naquela sociedade na mesma altura em que foram pintadas as ilustrações dos cães. Crê-se que a pastorícia surgiu na Península Arábica na primeira metade do oitavo milénio. Apesar de as estimativas mais prudentes de Guagnin apontarem para esse período, a arqueóloga suspeita que é possível que as gravuras tenham sido desenhadas entre o oitavo e o nono milénios antes de Cristo.

A hipótese de Guagnin precisa de provas mais sólidas que a sustentem, mas, a confirmar-se a sua suspeita, podemos estar perante as mais primeiras representações de cães da História. A descoberta foi recentemente publicada no Journal of Anthropological Archaeology.

“É como uma história de banda desenhada”, diz Melinda Zeder, arqueozoóloga do Smithsonian Institute's National Museum of Natural History, em Washington, que não esteve envolvida na investigação. “Estas imagens colocam carne sobre os ossos.”

Zeder suspeita que a cave no Deserto da Arábia possa datar de 5000 a.C., o mesmo período ao qual correspondem as primeiras evidências de pastorícia. No entanto, dizer que estas gravuras correspondem necessariamente ao mesmo período é demasiado especulativo, afirma.

Num estudo, datado de 2013, Zeder descreveu o que se acredita que sejam representações de cães em fragmentos de arte rupestre encontrados na atual Síria. Nestas imagens, vê-se cães a ajudarem os humanos a caçarem animais de grande porte. Ossos encontrados perto do local onde estavam as gravuras permitiram que fosse efetuada uma datação que devolve aquelas imagens ao quarto milénio antes de Cristo.

ANTEPASSADOS DOS NOSSOS ANIMAIS DE COMPANHIA

Há muito que os arqueólogos descobriram que os cães foram domesticados durante o período Neolítico. Ossos de animais cuja datação remonta há cerca de 10 000 anos foram encontrados junto a aglomerados humanos, afirma Zeder. Encontrar provas de que os cães já nessa altura ajudavam os humanos na caça não é assim tão fácil.

Robert Losey, professor na University of Alberta, Canadá, é um perito em relações entre humanos e animais, especialmente cães, ao longo da História. Encontrou vestígios de cães com mais de 10 000 anos, na Sibéria, no entanto o papel que estes animais desempenhavam é incerto. Os restos mortais dos cães foram enterrados deliberadamente, com o esqueleto dos animais intacto – o que significa que não eram tidos como alimento.

"Há estudos que mostram como os cães ajudaram a aumentar a produtividade dos caçadores”, explica Losey. Sugere que a domesticação dos cães coincide com ou, pelo menos, é complementada pelo uso destes animais na caça. Acredita que as gravuras descrevam humanos a guiar cães com o auxílio de trelas.

"A relação, e o elo emocional, entre humanos e cães é muito, muito antiga" afirma Losey.

Guagnin sublinha que o nível de detalhe empregue pelos artistas ao desenharem os animais é indicativo do grau de proximidade do seu elo de ligação com os mesmos.

Enquanto Zeder discorda de Guagnin no que se prende com a idade destas gravuras, partilha da mesma opinião no que toca à relação entre a complexidade das obras e a ligação emocional entre quem as pintou e os animais.

"O que mais me espanta é o nível de detalhe destas gravuras. As diferentes características entre os cães, as marcas verticais ou transversais, as manchas brancas. O grau de artifício, o realismo e o detalhe são absolutamente extraordinários.” Confessa Zeder. 

Guagnin planeia regressar a Jubbah com a sua equipa. Acreditam que há mais locais com potencial arqueológico onde poderão encontrar artefactos do Neolítico que podem datar de até 10 000 a.C. Procurarão provas de que existiram, efetivamente, cães na região naquela altura.

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