História

Veja a Reconstrução do Rosto de Uma Adolescente com 9 000 Anos

O processo meticuloso, com base em um crânio proveniente de uma caverna grega, revela como foi que as nossas características faciais se foram alterando ao longo dos milénios. Quinta-feira, 25 Janeiro

Por Sarah Gibbens

Chama-se Avgi, e a última vez que alguém viu a sua cara foi há quase 9000 anos. Quando ela viveu na Grécia, no final do período Mesolítico, por volta do ano 7000 a.C., os povos da região estavam a fazer a transição entre uma sociedade de caçadores-recoletores para uma sociedade que começava a cultivar a sua comida.

Em português, Avgi significa “madrugada” — um nome escolhido pelos arqueólogos, porque esta pessoa viveu na altura considerada como o começo (madrugada) da civilização.

Sabe-se muito pouco acerca de como viveu e morreu, mas agora os arqueólogos podem ver as maçãs do rosto proeminentes, as sobrancelhas pesadas e a cova que tinha no queixo.

A face de Avgi foi revelada pelos investigadores da Universidade de Atenas num evento que teve lugar no Museu da Acrópole de Atenas, na passada sexta-feira.

A reconstrução do seu rosto foi um grande feito. Foi necessária a contribuição de um endocrinologista, ortopedista, neurologista, patologista e radiologista para reconstruir com precisão o que terá sido a aparência de Avgi. A equipa de reconstrução foi liderada pelo ortodontologista Manolis Papagrigorakis, que referiu, no evento realizado no museu, que embora os ossos de Avgi parecessem pertencer a uma mulher de 15 anos, os dentes indicavam que teria 18 anos, “mais ano menos ano”, disse Papagrigorakis.

Além da equipa de médicos, a universidade trabalhou com Oscar Nilsson, arqueólogo sueco e escultor especializado em reconstruções. Ele tem trabalhado tanto em dar vida a rostos antigos que diz já ter eleito um período favorito para tratar: a Idade da Pedra.

 "[A Idade da Pedra é] um período muitíssimo longo e bastante diferente do nosso, mas somos muito semelhantes fisicamente”, acrescenta.

Nilsson começa com o crânio, que foi desenterrado em 1993 na caverna de Theopetra, um local no centro da Grécia que esteve ocupado continuamente durante 130 mil anos. Os investigadores digitalizam o crânio e depois uma impressora 3D faz uma réplica exata com as medidas da digitalização.

"A esta cópia são colados rebites, que representam a grossura da pele em determinados pontos anatómicos da face”, explica.

Isto permite-lhe dar corpo à cara de Avgi, um músculo de cada vez. E se algumas caraterísticas têm por base as medidas do crânio, outras, como por exemplo a cor da pele e dos olhos, são deduzidas tendo como base os traços gerais da população da região.

Não é a primeira vez que Papagrigorakis, Nilsson, e a equipa da Universidade de Atenas dão corpo a uma face da antiguidade. Em 2010, reconstruíram a face de uma rapariga ateniense de 11 anos, chamada Myrtis, que viveu por volta do ano 430 a.C. no período de quase 7000 anos entre Avgi e Myrtis, a estrutura facial parece ter-se tornado mais suave.

"Avgi tem um crânio e umas feições muito únicas e não especialmente femininas. As feições de Myrtis, que era ainda uma criança, não diferem das que encontramos hoje em dia entre nós”, afirma Nilsson. “Ao reconstruir muitos homens e mulheres da Idade da Pedra percebi que algumas características faciais parecem ter desaparecido ou ter sido suavizadas com o tempo. Em geral, hoje em dia parecemos menos masculinos, e isto é válido para ambos os géneros.”

Não se sabe muito sobre as circunstâncias da morte de Agvi, mas os arqueólogos sabem que Myrtis morreu de febre tifóide numa epidemia que devastou a cidade de Atenas do século V; é uma doença que ainda hoje mata milhares de pessoas.

À medida que a tecnologia de modelação 3D avança, os arqueólogos recorrem à mesma mais frequentemente para reconstruir caras antigas. Em dezembro, os investigadores reconstruíram a cara de uma rainha peruana da antiguidade, e em Janeiro passado, o mundo ficou finalmente a conhecer o homem por detrás do famoso crânio de Jericho, com 9500 anos.

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