História

Esta Vala Comum Poderá Pertencer ao ‘Grande Exército Viking’

Os ossos estão a revelar novas pistas acerca do gigantesco e misterioso contingente viking que invadiu Inglaterra. Quinta-feira, 15 Fevereiro

Por Sarah Gibbens

Durante anos, os arqueólogos estiveram perplexos. O que tinha acontecido ao Grande Exército Viking, um gigantesco contingente que tomou pela força vastas extensões de Inglaterra no século nono, mas que desapareceu, praticamente, sem deixar qualquer rasto?

Agora, os arqueólogos anunciaram que uma vala comum descoberta em Inglaterra poderá conter cerca de 300 guerreiros vikings — os únicos vestígios jamais descobertos dos guerreiros do Grande Exército Viking.

Os arqueólogos descobriram as sepulturas nos anos 80, em Derbyshire, em Inglaterra, pensando que poderiam conter os restos mortais do Grande Exército Viking, também conhecido como o Grande Exército Pagão. Contudo, havia um problema — a datação por radiocarbono revelou que as ossadas eram demasiado antigas para terem pertencido aos invasores vikings.

Acreditava-se que o exército tivesse passado o inverno em Derbyshire entre 873 D.C. e 874 D.C., aproximadamente, mas as primeiras análises dos esqueletos indicaram datas entre os séculos sétimo e oitavo.

Agora, um novo estudo publicado na revista científica Antiquity sugere que essas datas estariam incorretas, e que a cronologia coincide com a passagem do Grande Exército por aquela região.

É evidente que os vikings tiveram um impacto considerável em Inglaterra. Um dos vestígios da influência escandinava dos vikings é a existência de cidades inglesas com nomes terminados em “-by”, sufixo derivado da palavra escandinava para aldeia. A presença do exército está também documentada na Crónica Anglo-Saxónica, afirma Catrine Jarman, autora principal do estudo, da Universidade de Bristol.

Segundo esta crónica, centenas de navios vikings transportaram o Grande Exército até à costa leste de Inglaterra em 865. Os vikings usurparam vários reinos anglo-saxónicos e tomaram vastas extensões de terras.

Contudo, até agora, o ossário em Derbyshire é o único local de enterro conhecido que foi associado ao exército.

“Esse é um dos principais mistérios”, diz Jarman. “Temos milhares e milhares de pessoas a entrar, mas tão poucas evidências palpáveis da sua presença.”

OSSOS SUSPEITOS

O novo estudo clarifica a discrepância nas datas ao ter em consideração um detalhe crucial: os vikings, marinheiros ilustres, alimentavam-se, sobretudo, de peixe. Isto, salienta Jarman, enviesa os testes com radiocarbono.

“É um fenómeno de que só agora nos começámos a aperceber”, acrescenta.

Quando os cientistas fazem a datação de ossadas humanas, analisam a quantidade de carbono 14 radioativo presente. Esta forma de carbono decai com a passagem do tempo, logo, os níveis de carbono 14 nos ossos indicam aos cientistas há quanto tempo esses mesmos ossos se formaram. Todavia, quem consome grandes quantidades de peixe e marisco está sujeito àquilo que Jarman designa por “efeito de reservatório marinho.”

“Se comermos peixe, algum desse carbono será de origem oceânica. Alguns destes vikings comiam muito peixe, o que afeta a datação por carbono”, explica.

Como termo de comparação, Jarman refere que se um viking tivesse pescado um peixe e morto uma ovelha no mesmo dia, a datação por radiocarbono indicaria que o peixe tinha morrido 400 anos antes da ovelha.

Para determinar a influência da dieta dos vikings na primeira datação por carbono, os investigadores efetuaram uma análise química preliminar em 17 indivíduos encontrados em diferentes pontos da vala comum, bem como da mandíbula de uma ovelha também encontrada no ossário.

Jarman afirma assim, com segurança, que praticamente todos os ossos datam de finais do século nono, sendo assim muito provável que estes tivessem pertencido ao Grande Exército Viking.

OS DESPOJOS DOS GUERREIROS

“É o que os achados arqueológicos pareciam indicar desde o início”, diz Jarman.

Entre 1980 e 1986, uma série escavações revelou um montículo fúnebre, denominado ossário, contendo os restos mortais de 264 indivíduos. Desses, mais de 80% eram do sexo masculino, muitos deles evidenciando sinais de ferimentos violentos.

Entre os restos mortais, os arqueólogos também encontraram vestígios de material bélico, tais como machados e facas. 

Foi também encontrada uma sepultura dupla, separada das restantes, que continha os restos mortais de dois homens que tinham sido enterrados com um pendente do martelo de Thor e uma espada viking.

Além das sepulturas, os arqueológos também descobriram vestígios daquilo que poderá ter sido uma trincheira defensiva de grandes dimensões.

Com as novas datações por carbono, Jarman diz que os arqueólogos não podem garantir com 100% de certeza que as sepulturas pertencem ao Grande Exército Viking, mas que todas as evidências apontam nesse sentido.

A investigadora tenciona analisar o ADN dos ossos, para assim determinar a sua origem étnica.

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